'Conversa privada é conversa privada', diz Mourão sobre mensagens de Moro

Divulgação mostra colaboração entre Moro e procurador na Lava Jato, diz site

Talita Fernandes
Brasília

O vice-presidente, general Hamilton Mourão, classificou como "conversa privada" e minimizou a troca de mensagens atribuídas ao ministro Sergio Moro (Justiça) e ao procurador Deltan Dallagnol, do Ministério Público Federal (MPF).

Material obtido e divulgado pelo site The Intercept Brasil no domingo (9) mostra troca de colaborações entre eles quando Moro era juiz e atuava na Operação Lava Jato.

"Conversa privada é conversa privada, né? E descontextualizada ela traz qualquer número de ilações. Então o ministro Moro é um cara da mais ilibada confiança do presidente, é uma pessoa que, dentro do país, tem um respeito por parte enorme da população, haja vistas aí as pesquisas de opinião que dão a popularidade dele", afirmou Mourão, ao deixar o Palácio do Planalto nesta segunda-feira (10).

General Hamilton Mourão
General Hamilton Mourão diz que moeda única seria um avanço - Carlos Lima/Divulgação

Segundo Mourão, conversas privadas acabam sendo "pinçadas" e tiradas de contexto. "Toda vez que você pega uma conversa privada, eu pinço aqui, acolá, fora de um contexto", afirmou. 

Questionado sobre o fato de conversas privadas terem sido usadas por investigadores na Lava Jato, Mourão respondeu apenas que "é diferente".  

O vice-presidente disse "não ver nada de mais" no caso e descartou a possibilidade de a troca de mensagens entre o então juiz e o procurador interferirem na Lava Jato.

"Em relação aos processos ocorridos na Lava Jato, todos eles passaram por primeira, segunda e outros já chegaram na terceira instância. Então, eu não vejo nada demais nisso aí tudo."

Mourão disse não ter tratado sobre o assunto com o presidente Jair Bolsonaro, com quem se reuniu na manhã desta segunda, num encontro que não estava previsto nas agendas públicas. "De vez em quando o presidente quer ter um tempo só para os dois [presidente e vice] conversarem. Não tocamos nesse assunto, tocamos em outras histórias", afirmou.

O general disse ter "visto por alto" a troca de mensagens atribuídas a Moro em uma emissora de televisão na manhã desta segunda.

Também nesta segunda (10), o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, afirmou que Sergio Moro tem "total confiança" do governo. 

"O ministro Moro tem a total confiança nossa. Ele é um ministro, um homem de muito respeito e do bem", disse Azevedo ao fim de cerimônia em comemoração aos 20 anos da criação do Ministério da Defesa, em Brasília. 

Inicialmente, Azevedo disse que precisava "se aprofundar" no assunto antes de comentar o conteúdo do material. Ele disse ainda respeitar o posicionamento do ministro-chefe do GSI, general Augusto Heleno.

Por meio de grupos de WhatsApp, e sem citar nomes, Heleno distribuiu um texto no qual diz que um "desespero" levou pessoas que dominavam o cenário político e econômico do país a buscarem meios ilícios para provar que foram punidas injustamente.

"O desespero dos que dominaram o cenário econômico e político do Brasil, nas últimas décadas, levou seus integrantes a usar meios ilícitos para tentar provar que a Justiça os puniu injustamente. Querem macular a imagem doutor Sergio Moro, cujas integridade e devoção à pátria estão acima de qualquer suspeita", escreveu Heleno.
 
"Vão ser desmascarados, mais uma vez. Os diálogos e acusações divulgadas ratificam o trabalho honesto e imparcial dos que têm a lei a seu lado. O julgamento popular dará aos detratores a resposta que merecem. Brasil acima de tudo!!!", conclui o ministro na mensagem. 

No mesmo evento, o chefe da Secretaria de Governo, general Carlos Alberto dos Santos Cruz, também comentou o caso.

"Isso demonstra a ousadia do crime e não pode ser admitido [o fato de Moro ter sido hackeado]", disse.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL), que participou do evento que comemorou 20 anos da Defesa, manteve silêncio sobre o vazamento das mensagens. Bolsonaro fez um breve discurso e deixou a cerimônia sem falar com a imprensa. Ele também não comentou o tema por enquanto nas redes sociais.

Em breve discurso na cerimônia, o presidente exaltou o papel das Forças Armadas dizendo que elas são responsáveis por garantir a democracia e, sobretudo, a liberdade.

Ele lembrou que foi um dos três deputados a votar de forma a contrária à criação da pasta. Segundo ele, sua decisão teve como base a visão de que o ministério foi feito para tirar militares do processo de tomada de decisões importantes para o país.

"Sabíamos naquele momento que a Defesa estava sendo criada não por uma necessidade militar, mas imposição politica: retirar os generais, os almirantes e brigadeiros das discussões dos grandes temas nacionais", afirmou.

Sem mencionar diretamente o caso Moro, Bolsonaro disse que o país está num momento muito ruim, de crise ética, moral e econômica.

Mensagens

O site The Intercept Brasil divulgou no domingo (9) uma troca de mensagens atribuídas a Moro e a Dallagnol em que eles aparecem compartilhando colaborações quando integravam a força-tarefa da Operação Lava Jato.

Após a publicação das reportagens, a equipe de procuradores da operação divulgou nota chamando a revelação de mensagens de "ataque criminoso à Lava Jato" e disse que o caso põe em risco a segurança de seus integrantes. Também em nota, Moro negou que haja no material revelado "qualquer anormalidade ou direcionamento" da sua atuação como juiz.

​Para o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, a troca de colaborações entre Moro e Dallagnol põe em xeque a equidistância da Justiça. "Apenas coloca em dúvida, principalmente ao olhar do leigo, a equidistância do órgão julgador, que tem ser absoluta. Agora, as consequências, eu não sei. Temos que aguardar", afirmou o magistrado.

Nas conversas privadas, membros da força-tarefa fazem referências a casos como o processo que culminou com a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por causa do tríplex de Guarujá (SP), no qual o petista é acusado de receber R$ 3,7 milhões de propina da empreiteira OAS em decorrência de contratos da empresa com a Petrobras.

O valor, apontou a acusação, se referia à cessão pela OAS do apartamento tríplex ao ex-presidente, a reformas feitas pela construtora nesse imóvel e ao transporte e armazenamento de seu acervo presidencial. Ele foi condenado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. 

Preso em decorrência da sentença de Moro, Lula foi impedido de concorrer à Presidência na eleição do ano passado. A sentença de Moro foi confirmada em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região e depois chancelada também pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), que reduziu a pena para oito anos, 10 meses e 20 dias de prisão.

Segundo a reportagem do The Intercept Brasil, Moro sugeriu ao MPF (Ministério Público Federal) trocar a ordem de fases da Lava Jato, cobrou a realização de novas operações, deu conselhos e pistas e antecipou ao menos uma decisão judicial. 

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