Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Pastores se destacam entre líderes que orbitam governo de Bolsonaro

Católico, presidente tem como conselheiros Malafaia e Feliciano e se aproximou de outros evangélicos

Anna Virgina Balloussier
Rio de Janeiro

Brasil acima de tudo, Deus acima de todos, e, logo ali ao lado do presidente Jair Bolsonaro (PSL), pastores que se destacam entre os líderes evangélicos que orbitam seu governo.

Católico eleito com apoio maciço do eleitorado evangélico, Bolsonaro recebeu a visita de lideranças importantes neste seu primeiro semestre no Palácio do Planalto, como Estevam Hernandes (Renascer em Cristo), R.R. Soares (Internacional da Graça de Deus) e César Augusto (Fonte da Vida). Com status de conselheiros próximos, dois velhos conhecidos do público: Silas Malafaia e Marco Feliciano.

Outros pastores bem-vindos na família Bolsonaro, só que mais como guias espirituais do que políticos: Josué Valandro Jr., à frente da igreja frequentada pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e Pedro Luis Barreto Litwinczuk, o Pedrão, que celebrou o casamento do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Pedrão, pastor que celebrou o casamento do deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente
Pedrão, pastor que celebrou o casamento do deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente - Ricardo Borges/Folhapress

Contemporâneo de Bolsonaro na Câmara, Feliciano colou no presidente. Só na semana retrasada foram três agendas conjuntas. Na quinta (20), fez um afago ao chefe (“quando o justo governa, o povo se alegra”) na Marcha para Jesus.

Na quarta (19), acompanhou o mandatário num giro pelo interior paulista e o viu cantando “Mama Son Tan Felice” com a mãe, a nonagenária Olinda. Na terça (18) foi a um almoço que também contou com o ministro Osmar Terra (Cidadania). 

A relação já foi mais indigesta. “Começou com um tuíte meu”, diz o deputado Feliciano. Em março, deu um cruzado de direita no governo com dois meses de vida: “A comunicação está péssima. O ego daqueles que vocês elegeram está tão inflado que só enxergam seus umbigos”.

Àquela altura nem sequer o telefone de Bolsonaro ele tinha (“ele havia mudado de número”). Marcou-o na reclamação pública que fez no Twitter, e, no dia seguinte, foi chamado para ser vice-líder do governo na Câmara

Proposta: ser uma ponte entre presidente e bancada evangélica, que andava se sentindo meio escanteada. Mesmo desafetos seus no bloco dizem que, hoje, ele é um dos melhores canais com Bolsonaro.

A aproximação com Feliciano veio em 2013. O deputado-pastor estava sob fogo intenso após ser eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. 

“Ali, na comissão, nasce Bolsonaro como é hoje. Ele não era uma figura levada muito a sério no Congresso até então”, diz Feliciano.

Em 2014, a dupla foi à convenção do PSC, partido de ambos à época, e lá tiraram uma selfie com outro filiado, o médico-celebridade Dr. Rey. Feliciano gracejou: “Olha como vai sair na reportagem: os dois maiores héteros e o homem que toca todas as mulheres”.

O PSC prometia uma candidatura presidencial a Bolsonaro. Segundo Feliciano, a ideia é que ele fosse seu vice numa chapa puro-sangue. Quem sabe em 2022 ele não tem um número dois evangélico, diz ele, que já sugeriu o impeachment do atual vice, general Hamilton Mourão. 

Com Malafaia a dobradinha se iniciou com o PL 122, projeto de lei de 2006 que criminalizava a homofobia. A bancada evangélica temia: se um pastor pregar contra a união homossexual pode ir preso?

Discursara Bolsonaro, então deputado do PP, em 2011: o PL 122, “contra o qual tem falado muito bem o pastor Malafaia”, não pode “criar uma classe especial de homossexuais em nosso país, como se fossem semideuses”.

Em 2013, Malafaia conduziu o casamento de Jair e Michelle, numa cerimônia em que o noivo chorou duas vezes, uma delas na troca de alianças ao som de “Jesus, Alegria dos Homens”, de Bach. Michelle ia à igreja dele, mas saiu após um estranhamento, já superado, entre o pastor e o marido.

Malafaia teve papel importante na campanha, ajudando a aproximar o então presidenciável de líderes evangélicos, entre eles um pastor que fez uma oração na casa de Bolsonaro assim que ele foi eleito, mas acabou alijado de seu governo: o ex-senador Magno Malta (PR-ES).

Malafaia permanece como elo de Bolsonaro com o segmento, como num almoço em março em que se brincou: ali “só faltava Jesus”, tantos eram os pastores de peso presentes. “Falo sempre com esse cara”, diz o líder religioso sobre o contato com o presidente, em geral travado por WhastApp (sempre lhe manda textos motivacionais) e telefone.

Ele e Feliciano têm interesses políticos confessos ao dialogar com a autoridade máxima do país, como discutir a isenção tributária para igrejas.

O pastor Josué Valandro entra como um guia espiritual, sobretudo para Michelle, que ajuda a traduzir seus cultos em Libras e é amiga de sua esposa (“com a primeira-dama mais lindaaaaa!!!”, disse Bianca numa foto das duas).

Os casais Bolsonaro e Valandro almoçaram juntos recentemente, e o presidente às vezes acompanha a esposa na Igreja Batista Atitude. Lá esteve no domingo em que milhares saíram às ruas para defender seu governo, e também no da eleição. De colete à prova de balas, declarou que sua vitória foi decidida por Deus.

Pastor Pedrão chegou ao círculo familiar por meio da primeira esposa de Bolsonaro e mãe de seus três filhos políticos. “A Rogéria Bolsonaro estava procurando uma igreja pros filhos. Parou aqui na nossa”, diz ele, que se converteu após participar do reality global “No Limite”, em 2001.

Adepto do jeans e do All-Star, do tipo que vai à academia “com camisetinha mamãe-sou-forte”, ele é conhecido pelo jeito descolado: dispensa o púlpito, usa iPad para pregar e diz liderar uma “igreja para quem não gosta de igreja”. Brinca, por exemplo, que um vinhozinho nem sempre cai mal. “Jesus não transformou água em Coca Zero, pô.”

“Até então não tinha nenhum vínculo com os meninos, não era meus ‘brothers’”, conta o pastor que, em maio, casou Eduardo com a psicóloga Heloísa Wolf. O casal já retornou à sua igreja uma vez após a lua de mel, e o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) também foi em alguns cultos.

Já na largada, Pedrão parafraseou o presidente: “Deus acima de tudo, e, hoje, Heloísa e Eduardo acima de todos”. Da primeira fila, Bolsonaro soltou um “boa!”.

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