Descrição de chapéu Eleições 2018

Reservada, Michelle Bolsonaro controla acesso ao marido

Aspirante a primeira-dama conheceu o deputado na Câmara e já o arrastou para igreja evangélica

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

Quer chegar a Jair Bolsonaro? Vai ter que passar por ela antes. O presidenciável do PSL podia até mandar lá fora, mas era sua esposa, Michelle, quem controlava o vaivém de políticos na casa deles, no condomínio Vivendas da Barra. 

O presidente do PSL, Gustavo Bebianno, precisou ganhar a confiança dela para se aproximar —foi ele quem a levou de Juiz de Fora para o Rio, após o marido ser esfaqueado na cidade mineira.

A dias do atentado, Bolsonaro queria se preparar para uma entrevista no Jornal Nacional em casa, mas ela despachou a equipe para a casa de um dos filhos dele, Carlos, que mora no mesmo conjunto. 

Depois do ataque, a dinâmica mudou, e o lar do casal virou o QG da campanha. Mas, por determinação da Michelle, a sala de visitas do candidato é a área de serviço da casa, uma parte externa coberta. Uma mesa de churrasqueira virou uma espécie de escritório de Bolsonaro.

Os domingos eram sagrados para Michelle, que pedia ao marido: nada de agenda nesse dia. E ele obedecia. Quebraria a regra de ouro no dia 9 de setembro, para um ato na praia de Copacabana, mas sofreu o ataque dois dias antes.

Desde então, sempre ao lado dela, ele deixou duas vezes, num domingo, o lar onde o casal cobriu uma parede com uma ilustração religiosa onde se lê “a cruz me liberta”: para votar e para gravar um vídeo de campanha na casa do empresário Paulo Marinho, suplente do senador eleito Flávio, primogênito de Bolsonaro.  ​

 “Michelle e Jair”, dizia o título de uma reportagem com os recém-casados na revista Festejar Noivas RJ.

“Tudo começou quando nos vimos pela primeira vez no gabinete do Jair”, relatou a noiva. “Deste relacionamento brotou um sentimento que me fez voltar aos tempos de cadete da Academia Militar das Agulhas Negras”, descreveu o noivo.

A data da cerimônia nada teve de acaso: 21 de março de 2013, quando ele completava 58 anos, e a ela restava um dia para virar 31. Os arianos Jair Messias Bolsonaro e Michelle de Paula Firmo Reinaldo Bolsonaro se casaram sob a bênção do pastor Silas Malafaia, na Mansão Rosa. Uma festa sem funk, a pedido da noiva evangélica. 

Malafaia celebrou a união heterossexual diante de cerca de 150 convidados, como lembra a biografia “Bolsonaro: O Homem Que Peitou O Exército e Desafia a Democracia”. 

“O primeiro princípio é que Deus fez macho e fêmea”, disse o pastor. “O homem só se completa na mulher, e a mulher só se completa no homem. O resto é blá-blá-blá.”

Havia uma viatura da PM na porta da casa de festas, pois o deputado temia protestos. Malafaia diz à Folha que os dois, Bolsonaro e ele, “criaram afinidade” por compartilharem a aversão ao “ativismo gay”.

Dias antes do casório, um aliado deles, o pastor Marco Feliciano, havia virado presidente da Comissão dos Direitos Humanos na Câmara  —o que deixou um sabor amargo entre grupos progressistas, contraposição aos doces da chocolatier Helena Amarante servidos na cerimônia.  

Bolsonaro chorou quando a orquestra tocou Bach (“Jesus, Alegria dos Homens”), e mais de uma vez depois. Naquele ano, ao portal IG, o filho Flávio comentou: “Depois que Laura nasceu, ele ficou mais emotivo: ele chora, às vezes.Aquilo [a imagem pública durona] é um personagem”.

Michelle já era mãe de uma filha adolescente, e com Bolsonaro teve Laura, 8.

A menina aparece em vídeos de campanha para suavizar a imagem machista atribuída ao pai, que já  culpou uma “fraquejada” pela única filha numa prole de quatro rapazes. 

Na peça, ele conta que reverteu uma vasectomia a pedido de Michelle, sua terceira mulher, que queria engravidar.

Ela era fiel na Assembleia de Deus Vitória em Cristo, a igreja de Malafaia, para a qual às vezes arrastava o marido católico. “Uma menina simples. Na igreja, ajudava na cozinha, sempre trabalhava nesses troços. É recatada, não é nariz empinado. Nunca a vi, desculpa a expressão, com roupa de perua”, diz o pastor à Folha.

Hoje Michelle vai à Igreja Batista Atitude, no Recreio (zona oeste do Rio). Ela fica sob guarda de Josué Valandro Jr., pastor que tem em comum com Malafaia o apego ao candidato do PSL —no primeiro turno, bradou no púlpito o lema bolsonarista “meu partido é o Brasil” e orou para que “que as profecias feitas sobre o Brasil venham a ser cumpridas”.

Há um ano e meio, Michelle visitou a Atitude “e se sentiu muito tocada”, diz Josué à reportagem. Trocou de igreja meses após Malafaia ser indiciado pela Polícia Federal, na Operação Timóteo.

 Na época, o pastor se ressentiu por Bolsonaro por não ter ficado ao seu lado de forma mais enfática e o atacou num vídeo: “Não existe direita radical? Você tá enganada, minha filha. Sabe qual é a direita radical? Aquela que prega que quer fechar o Congresso”. 

“Ele me defendeu, mas não me defendeu como deveria, por isso fiquei invocado. [...] Quando a gente está com raiva fala umas bobagens e eu estava indignado”, disse após um culto na semana passada.
Segundo Josué, em sua igreja Michelle mostrou ser “de uma simplicidade cativante”. Já fez trabalho social num lixão e, quando vai aos cultos, fica sempre na ala de surdos (e com seguranças por perto).

Ela aprendeu a língua brasileira de sinais, Libras, com um tio deficiente auditivo, como contou num vídeo com uma colega da Atitude. Aprimorou-se no idioma após conhecer um casal de surdos na antiga igreja.

Já ajudou o marido a traduzir expressões como “famigerado kit gay”, numa de suas transmissões ao vivo, e estrelou o programa de TV dele nesta quinta (25), falando sobre a comunidade surda. Aproveitou para se declarar: Bolsonaro tem “um brilho no olhar diferenciado” e é um “ser humano maravilhoso”.


Michelle é de Ceilândia (Distrito Federal). Quando conheceu o deputado Bolsonaro, era secretária parlamentar na Câmara —onde já trabalhou na liderança do PSB, sob comando de Márcio França, hoje candidato ao governo paulista. 

Chegou a integrar o gabinete do marido, e ali quase triplicou seu salário. Foi exonerada em 2008, após o Supremo Tribunal Federal proibir o nepotismo nos três Poderes.

Pai e irmão da esposa já foram evocados por Bolsonaro para rechaçar a pecha de racista. “Meu sogro é o Paulo Negão!”, ele costuma dizer. 

Em 2011, Diego Torres Dourado, o soldado Torres, defendeu o cunhado após a cantora Preta Gil lhe perguntar no programa CQC: “Se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?”. 

Bolsonaro respondeu então: “Não vou discutir promiscuidade. Não corro esse risco, e meus filhos foram muito bem educados. E não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu”.

O parlamentar, à época, disse que entendeu que a pergunta era sobre gays. 

“Meu pai é da minha cor. A Michelle tem a pele um pouco mais clara”, disse Torres, militar da Aeronáutica.

Hoje ele faz campanha para Bolsonaro nas redes sociais. “Não vou permitir que agridam a raiz da minha família”, escreveu num post sobre o pai, um cearense —da região onde o candidato tenta crescer eleitoralmente.

Malafaia descreve aquela que, segundo pesquisas, deve se tornar primeira-dama em 2019 como alguém mais na dela, o avesso do estilo colérico do marido. Mas não se enganem, alertou: “Ela não gosta de se expor, mas pensa a mesma coisa que ele”.


Colaborou Talita Fernandes

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