De bananas a CNH, relembre obsessões de Bolsonaro em seus seis meses de governo

Demandas pessoais do presidente aparecem em sua agenda pública

Daniela Arcanjo
São Paulo

Em seis meses de governo, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) acumula polêmicas pouco comuns. Algumas delas revelam histórias pessoais do presidente.

Em maio, afirmou que revogaria decreto de preservação da Estação Ecológica de Tamoios, em Angra dos Reis (RJ), mesmo local em que foi autuado por pesca ilegal, em 2012. 

O presidente também propôs dobrar o limite de pontuação da CNH (Carteira Nacional de Habilitação). Ele, sua mulher, Michelle, e três de seus filhos acumulam 44 multas de trânsito nos últimos cinco anos.

Dessa forma também, o Vale do Ribeira (SP), onde cresceu, é citado na guerra que trava contra as bananas importadas do Equador que, segundo ele, prejudicam agricultores dessa região do interior paulista.

Alguns desses projetos são recorrentes em seus pronunciamentos e ações.

CNH e radares

No início de junho, Bolsonaro encaminhou ao Congresso Nacional projeto de lei que dobra o limite de pontuação da CNH (Carteira Nacional de Habilitação), estende a validade da carteira de motorista e elimina multa para condutores que transportarem crianças fora de cadeirinhas de retenção.

A ação gerou grande alvoroço. Ao reagir às críticas, Bolsonaro manteve a sua posição: "Está mexendo com o seu filho. Precisa estar na lei algo para o seu filho ser protegido? Nem precisava de lei. Quem tem responsabilidade sabe disso, vai lá e bota a cadeirinha atrás e leva o bebê ali atrás."

Não foi a primeira vez que o presidente depositou confiança no senso de responsabilidade do motorista.

Em transmissão ao vivo no dia 23 de maio, afirmou que não existe local de risco nas estradas. "Ninguém é otário de ter uma curva na frente, uma ribanceira, o cara entrar a 80 km/h, 90 km/h, a 100 km/h. Não é otário, não faz isso aí."

A Folha revelou, no final de abril, que o presidente, três de seus filhos e sua mulher, Michelle, receberam ao menos 44 multas de trânsito nos últimos cinco anos, segundo registros do Detran-RJ (Departamento de Trânsito do Rio de Janeiro).

Sexualidade

No Carnaval, após ser alvo de protestos de foliões, Bolsonaro publicou um vídeo em uma rede social em que um homem enfia o dedo no próprio ânus e recebe um jato de urina na nuca.

No dia seguinte, após repercussão negativa, fez uma nova postagem, dessa vez perguntando: “O que é golden shower?”, nome da prática que divulgou.

Uma caderneta de saúde voltada para adolescentes também foi alvo de Bolsonaro. As últimas páginas do material, voltado para meninos e meninas de 10 a 19 anos, exibiam ilustrações do desenvolvimento das mamas, dos órgãos genitais, e informavam os cuidados para evitar a transmissão de DSTs e manter a higiene pessoal.

Em live em uma rede social, no dia 7 de março deste ano, ele disse: “Quem tiver a cartilha em casa, dá uma olhada porque vai estar na mão dos seus filhos. Se você achar que é o caso, tira essas páginas que tratam desse tipo de assunto”. No mesmo dia, declarou que o Ministério da Saúde iria recolher a caderneta e indicou que o governo faria novas, "sem essas figuras".

Em maio, em uma de suas últimas polêmicas sobre o assunto, Bolsonaro perguntou a um homem de feições asiáticas que o abordou no aeroporto de Manaus: “Tudo pequenininho aí?”, entre sorrisos dos assessores. Isso foi um mês depois de afirmar, em uma entrevista ao Silvio Santos que está "na ativa, sem aditivos”, referindo-se a medicamentos contra impotência sexual.

Bananas do Vale do Ribeira

Barrar as bananas do Equador, na contramão das medidas liberais do ministro Paulo Guedes (Economia), parece ser outra prioridade de Bolsonaro.

Em transmissão ao vivo em uma rede social, em março deste ano, ele disse que iria "acabar com o fantasma" da importação da fruta, cultivada no Vale do Ribeira, no estado de São Paulo, onde foi criado.

"Gostaria de pedir desculpas para o pessoal do Vale do Ribeira. Acho que estão nos finalmentes os estudos da [ministra da Agricultura] Tereza Cristina para que esta instrução normativa seja revogada."

A instrução a que ele se refere está na sua mira desde março de 2014.

Enquanto deputado, Bolsonaro falou pelo menos duas vezes sobre o assunto.

Em agosto de 2014, no seu sexto mandato, ressaltou que era do Vale do Ribeira e que os agricultores da região seriam prejudicados pela medida. "Equador sequer faz divisa com o Brasil", afirmou.

Em seguida, deduziu que a decisão foi tomada porque o Equador "faz parte do Foro de São Paulo", em um referência à união de partidos e organizações de esquerda.

Nova Cancún

Em maio deste ano, Bolsonaro afirmou que revogaria decreto de preservação da Estação Ecológica de Tamoios, em Angra dos Reis. Durante um evento em Brasília, repetiu o argumento do potencial turístico da região: "Nós podemos ser protagonistas de fazer com que a baía de Angra seja uma nova Cancún".

É o mesmo local em que o presidente tem uma casa e onde foi autuado por pesca ilegal. A multa de R$ 10 mil, confirmada em duas instâncias no Ibama, foi anulada pela Advocacia-Geral da União no ano passado.

Bolsonaro alegou, durante o processo, que não estava no local, apesar das fotos tiradas pelo agente do instituto.​

Um ano depois do episódio, ainda como deputado, ele apresentou um projeto de lei que determinava o desarmamento de todos os fiscais do Ibama e do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) em ações de campo.

Ainda em 2013, Bolsonaro tentou uma autorização para a pesca amadora na região por meio de um mandado de segurança na Justiça Federal.

O imbróglio continua em 2019: José Augusto Morelli, que flagrou Bolsonaro pescando ilegalmente, foi exonerado no dia 28 de março, o que foi considerado uma retaliação pelo servidor. E consta, em um parecer do Ibama de março, que a infração de Bolsonaro já prescreveu.

Foto tomada por agente ambiental durante autuação de Jair Bolsonaro por pescar dentro da Estação Ecológica de Tamoios, região de Angra dos Reis (RJ)
Foto tomada por agente ambiental durante autuação de Jair Bolsonaro por pescar dentro da Estação Ecológica de Tamoios, região de Angra dos Reis (RJ) - 25.jan.12/Divulgação

Tomada de três pinos

Na esteira do decreto que acabou com o horário de verão, veio o anúncio da cruzada contra a tomada padronizada no Brasil, em um pronunciamento que revelou outras duas preocupações do governo.

"Temos que nos livrar da tomada de três pinos, das urnas eletrônicas inauditáveis e do acordo ortográfico", afirmou Filipe Garcia Martins, assessor internacional de Bolsonaro, em uma rede social, no dia 6 de abril.

Esse tipo de tomada passou a ser obrigatória em 2011, sob a justificativa de ser mais segura. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o secretário especial de Produtividade e Competitividade, Carlos Alexandre da Costa, afirmou que o assunto não deve ser visto como algo "folclórico". "É um tema que afeta a segurança, a concorrência e a produtividade."

A discussão foi revivida recentemente pela líder do Governo na Câmara, a deputada Joice Hasselmann (PSL). Em enquete em uma rede social, ela perguntou: "Governo quer acabar com o modelo tomada de três pinos adotado desde 2011. Você concorda?" Dos 58.956 votos, 56% eram favoráveis.

F-1 no Rio

Quando estava em campanha para o Governo de São Paulo, João Doria (PSDB) apostou no "Bolsodoria" assim que o candidato de seu partido, Geraldo Alckmin, foi derrotado na disputa pela Presidência. Nesta semana, porém, Doria entrou em embate com o governo.

​No último dia 24, o presidente afirmou que há 99% de chance de a F-1 ser transferida de São Paulo para o Rio de Janeiro a partir de 2021. O anúncio ocorreu em uma reunião com diretores da categoria e o governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel, no Palácio do Planalto.

No início, a intenção era mudar o local das provas já em 2020. "O autódromo [no Rio de Janeiro] será construído em seis, sete meses após o início das obras. De modo que, por ocasião da F-1 do ano que vem, ela será no Rio”, afirmou no dia 8 de maio deste ano, mesma data em que assinou um termo de cooperação para a mudança do local.

No dia 25 de junho, Doria reagiu: "Não quero desmerecer, mas recomendo de uma maneira sutil: visitem Deodoro. Sobrevoem a área, vocês não vão conseguir chegar lá. Não tem estrada, só a cavalo", afirmou, em uma entrevista coletiva. Ao que Bolsonaro retrucou:  "A imprensa diz que ele [Doria] será candidato a presidente em 2022. Então, tem que pensar no Brasil, e não no seu estado."

Nióbio

Nesta semana, em visita ao Japão para a Cúpula do G20, o presidente quis atestar uma ideia que prega desde que era pré-candidato à Presidência, em 2017, ainda filiado ao PSC.

Para Bolsonaro, o Brasil tem um subaproveitamento do nióbio. O metal pode ser utilizado em gasodutos, turbinas e até em foguetes espaciais e reatores nucleares.

Na defesa do recurso, ele também ataca outra de suas obsessões, a demarcação de terras indígenas. Bolsonaro costuma dizer que o país deveria ter maior controle sobre suas reservas de nióbio e que há jazidas gigantes do produto ainda inexploradas por estarem em terras indígenas.

Foi na Câmara dos Deputados, em 2016, que ele tomou essa missão para si, evocando a figura do fundador do Partido de Reedificação da Ordem Nacional (Prona): "Quero seguir a linha do saudoso Enéas Carneiro, não obviamente com o conhecimento que ele tinha sobre o assunto. Foi uma pessoa ímpar, que infelizmente o Brasil perdeu muito cedo. Falarei sobre a questão do nióbio."

Na transmissão ao vivo pela internet nesta quinta-feira (27), destacou a utilização do metal em joias.

“Tem de várias cores. A vantagem em relação ao ouro são as cores, e ninguém tem relação alérgica ao nióbio. Alguns têm ao ouro. Às vezes a mãe bota um brinquinho na orelha da menina —menina, deixar bem claro— e tem reação, e isso aqui [nióbio] não tem."

Armas

Flexibilizar o armamento é uma das bandeiras mais antigas de Bolsonaro, especialmente no campo. Um de seus bordões enquanto deputado e candidato à Presidência era: "Cartão de visita para marginal do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] é cartucho 762."

Desde que assumiu a Presidência, tenta aprovar a medida. No dia 15 de janeiro, assinou decreto em que facilita posse de armas. Com recuos e questionamentos do Congresso e do STF, no último dia 12 a Comissão de Constituição e Justiça do Senado derrubou parecer favorável à medida.

No dia 25 de junho, após afirmar que não abriria mão da medida, Bolsonaro recuou e apresentou três novos decretos em que revoga textos anteriores. 

 

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