Ex-Uber, suspeito de hackear autoridades faz curso de eletricista e nega ataque

Segundo defensora pública, Danilo Marques, 33, não usava endereço de IP pelo qual PF o rastreou

Reynaldo Turollo Jr. Rubens Valente Ricardo Della Coletta Fábio Fabrini
Brasília

Um dos quatro presos pela Polícia Federal nesta terça (23) sob suspeita de ter hackeado celulares de autoridades, o ex-motorista de Uber Danilo Marques, 33, negou em depoimento, prestado nesta quarta (24), que tenha qualquer participação nos crimes.

Segundo a defensora pública federal Manoela Maia Cavalcante Barros, que representa Marques, a única prova contra ele é um endereço de IP rastreado pela PF que não era usado por ele, embora estivesse registrado em seu nome. Segundo a defensora, o endereço de IP estava registrado em Ribeirão Preto (SP), enquanto seu cliente mora em Araraquara (SP).

"Ele ficou totalmente surpreso com a situação. Ele conhece as outras pessoas [suspeitas] porque todos eram de Araraquara. O que o vincula é o IP que teria dado origem às ligações [para a prática da invasão dos celulares], mas ele não fazia uso", disse Manoela. "Ele não tinha conhecimento [das mensagens obtidas ilegalmente], não viu nenhuma mensagem."

Segundo a defensora, Marques era motorista de Uber e foi preso enquanto fazia um curso de eletricista para tentar garantir um emprego. Ainda segundo ela, o suspeito não sabia que um dos outros presos, Walter Delgatti Neto, 30, tinha habilidades na internet.

Em nota, a Uber informou que Marques fez apenas três viagens pelo aplicativo e que não realizava corridas há cerca de três meses. 

Além de Marques e Delgatti Neto, foram presos temporariamente (por cinco dias, prorrogáveis por mais cinco) Gustavo Henrique Elias Santos, 28, e sua mulher, Suelen Oliveira, 25.

O advogado do casal, Ariovaldo Moreira, disse que Elias Santos chegou a ver as mensagens do ministro da Justiça, Sergio Moro, obtidas por Delgatti Neto, mas não participou de atos ilícitos nem sabe como o amigo as obteve. Santos e Suelen estão sendo ouvidos pela PF em Brasília no final desta tarde.

A Folha não conseguiu localizar a defesa de Delgatti Neto. A suspeita é que, entre os quatro suspeitos presos, ele tenha sido o mais atuante no suposto esquema.

ENTENDA A OPERAÇÃO

Qual o resultado da operação da PF?
Nesta terça (23), quatro pessoas foram presas sob suspeita de hackear telefones de autoridades, incluindo Moro e Deltan. Foram cumpridas 11 ordens judiciais, das quais 7 de busca e apreensão e 4 de prisão temporária nas cidades de São Paulo, Araraquara (SP) e Ribeirão Preto (SP). Os quatro presos foram transferidos para Brasília, onde prestariam depoimento à PF

As prisões têm relação com as mensagens trocadas entre Moro e procuradores da Lava Jato divulgadas desde junho pelo site The Intercept Brasil?
A investigação ainda não conseguiu estabelecer com exatidão se o grupo sob investigação em São Paulo tem ligação com o pacote de mensagens. Também não há provas de que os diálogos, enviados ao Intercept por fonte anônima, foram obtidos a partir de ataque hacker

Como a investigação começou?
O inquérito em curso foi aberto em Brasília para apurar, inicialmente, o ataque a aparelhos de Moro, do juiz federal Abel Gomes, relator da Lava Jato no TRF-2 (Tribunal Regional Federal da 2ª Região), do juiz federal no Rio Flávio Lucas e dos delegados da PF em São Paulo Rafael Fernandes e Flávio Reis. Segundo investigadores, a apuração mostrou que o celular de Deltan também foi alvo do grupo

Quando Moro foi hackeado?
Segundo o ministro afirmou ao Senado, em 4 de junho, por volta das 18h, seu próprio número lhe telefonou três vezes. Segundo a Polícia Federal, os invasores não roubaram dados do aparelho. De acordo com o Intercept, não há ligação entre as mensagens e o ataque, visto que o pacote de conversas já estava com o site quando ocorreu a invasão​

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