Descrição de chapéu Lava Jato

Ex-diretor do Metrô em gestões tucanas delata, e 14 viram réus na Lava Jato de SP

Sérgio Corrêa Brasil afirma ter trabalhado para manter contrato com empreiteiras por meios de aditivos

José Marques
São Paulo

Executivos e ex-executivos das empreiteiras Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e OAS viraram réus sob acusação de crimes de corrupção na construção das linhas 2-verde, 5-lilás e 6-laranja do Metrô de São Paulo, em ação apresentada pela força-tarefa da Lava Jato paulista.

A denúncia do Ministério Público Federal, aceita nesta sexta (9) pela juíza federal substituta Flavia Serizawa e Silva, usou elementos da delação premiada de Sérgio Brasil, que foi diretor do Metrô na gestão José Serra (PSDB) e assessor de PPP (parcerias público-privadas) na Secretaria de Planejamento do governo Geraldo Alckmin (PSDB).

O engenheiro Sérgio Correa Brasil, gerente de contratações e compras da Companhia do Metropolitano de São Paulo
O engenheiro Sérgio Correa Brasil, ex-diretor do Metrô de São Paulo - Divulgação - 2007/Alesp

Um dos denunciados é o próprio Brasil, que deve obter benefícios da Justiça por ser um delator. No total, são 14 réus, entre eles outros colaboradores, como os nomes ligados à Odebrecht.

Segundo a Lava Jato de São Paulo, Brasil admitiu ter recebido pagamento de construtoras para favorecê-las em concorrências do Metrô. 

Além dele, o Ministério Público Federal apresentou ação contra integrantes ou ex-integrantes da Odebrecht (Fabio Andreani Gandolfo, Benedicto da Silva Júnior, Celso da Fonseca Rodrigues, Luiz Antonio Bueno Júnior, Arnaldo Cumplido de Souza e Carlos Armando Guedes Paschoal), Andrade Gutierrez (Flávio David Barra, Dario Rodrigues Leite Neto e Anuar Benedito Caram), Queiroz Galvão (Mário Bianchini Júnior e Carlos Alberto Mendes dos Santos) e OAS (José Alexis Beghini Carvalho e Carlos Henrique Barbosa Lemos).

Na denúncia, os procuradores dizem que há suspeitas de corrupção na ampliação das linhas 2 e 5 do Metrô e também na montagem da parceria público-privada que resultou no projeto da linha 6. 

Os crimes teriam sido cometidos entre 2004 e 2014, e envolveria, além das gestões Serra e Alckmin, as de Alberto Goldman (PSDB) e Claudio Lembo (ex-DEM, hoje no PSD). Os ex-governadores não são citados.

Na linha 2-verde, Brasil afirmou ter trabalhado para manter os contratos, celebrados em 1990 e com obras iniciadas em 2004, por meio de 29 aditivos. Ele teria recebido R$ 2 milhões das empresas.

Já sobre a linha 5-lilás, ele disse ter trabalhado para direcionar a licitação do trecho entre as estações Largo 13 e Chácara Klabin, de modo a favorecer as empreiteiras.

Em 2010, a Folha registrou, com seis meses de antecedência, quem seriam os vencedores de seis lotes da linha 5. A expansão da linha 5 foi contratada por R$ 6,6 bilhões, em valores do ano passado.

A delação de Brasil foi negociada nos últimos meses. Antes, ele havia sido citado pelos delatores da Odebrecht, que diziam ter feito repasses a agentes públicos para viabilizar contratos e até liberações de vias públicas para a execução das obras. 

Nas planilhas da empreiteira, ele era mencionado sob as alcunhas "brasileiro" e "encostado". A delação da empreiteira também serviu de subsídio para a nova denúncia. 

Separadamente, a força-tarefa da Lava Jato de São Paulo tem investigado pagamentos feitos à mais uma empreiteira, a Camargo Corrêa, por intermédio de doleiros.

À Justiça Federal os procuradores informaram que continuam a investigar a participação de outras pessoas nos episódios sob suspeita de corrupção. Também apuram cartel das empresas. ​

Procurada, a Andrade Gutierrez informou em nota que "apoia toda iniciativa de combate à corrupção, e que visa a esclarecer fatos ocorridos no passado".

"A companhia assumiu esse compromisso público em um manifesto veiculado nos principais jornais do país e segue colaborando com as investigações em curso dentro dos acordos de leniência firmados com o Ministério Público Federal (MPF), com a Controladoria Geral da União (CGU), com a Advocacia Geral da União (AGU) e com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).  

"Cabe ressaltar que a empresa tem total interesse em esclarecer os fatos que abrangem os processos abertos agora pelo Ministério Público Federal de São Paulo em relação às obras do metrô e já se coloca à disposição das autoridades competentes para uma colaboração ampla e irrestrita das informações de que tem conhecimento."

Em nota, a Odebrecht disse que "tem colaborado de forma permanente e eficaz com as autoridades, em busca do pleno esclarecimento de fatos narrados por ex-executivos da empresa. São fatos do passado". "Hoje, a Odebrecht usa as mais recomendadas normas de conformidade em seus processos internos e segue comprometida com uma atuação ética, íntegra e transparente", afirma.

Em nota, a OAS informou que "conta com uma nova gestão e esclarece que tem contribuído com as autoridades competentes e com a Justiça, prestando todos os esclarecimentos que se façam necessários. O objetivo da empresa é concluir os acordos de leniência e seguir com os negócios de forma ética, transparente e íntegra".

A Queiroz Galvão informou que não irá comentar a denúncia.

A Folha não conseguiu contato com a defesa dos demais acusados. Procurado, o Metrô de São Paulo não se manifestou.

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