Filiação de Alexandre Frota opõe velha guarda do PSDB a Doria

Pedido de veto ao deputado foi rejeitado por aliado do governador, e caso deve ir para a Executiva Nacional

Igor Gielow
São Paulo

A filiação do deputado federal Alexandre Frota ao PSDB abriu a primeira disputa direta entre o grupo do governador João Doria (SP) e a velha guarda do tucanato em São Paulo.

Na tarde desta segunda-feira (19), o ex-presidente estadual tucano Pedro Tobias e o ex-presidente nacional do partido José Aníbal protocolaram um pedido de impugnação da filiação de Frota (ex-PSL) pois “o postulante possui vasto histórico de hostilidades ao PSDB e suas mais emblemáticas lideranças”.

A informação havia sido antecipada pela coluna Painel, da Folha.

A resposta do presidente estadual da sigla, Marco Vinholi, foi imediata, indeferindo a solicitação. "Não há fundamento jurídico ou político no pedido”, disse, de forma algo previsível: ele é um dos secretários de estado mais próximos de Doria, que o apadrinhou para comandar o partido em São Paulo. 

Vinholi diz não haver possibilidade de recurso. A dupla da velha guarda irá levar o caso para a Executiva Nacional do PSDB, que tem uma reunião ordinária marcada para esta quarta-feira (21). Lá a situação pode não ser tão confortável para o governador, a depender de quem estiver presente no encontro.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), com Alexandre Frota, durante evento de filiação do deputado federal ao PSDB - Eduardo Anizelli/Folhapress

A base do pedido foi o vídeo que circulou no tucanato no dia da filiação de Frota, que mostra o então pré-candidato a deputado, ainda no PSL de Jair Bolsonaro, ofendendo pessoalmente o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP), padrinho político de Doria na disputa municipal de 2016 e hoje seu desafeto.

O artigo 7º do Estatuto do PSDB afirma que impugnações podem ser pedidas, entre outros motivos, se houver “notória e ostensiva hostilidade à legenda e atitudes desrespeitosas a dirigentes e lideranças partidárias”.

No vídeo, além de elencar escândalos de corrupção associados ao nome de Alckmin, que havia acabado de fechar o acordo com o chamado centrão para montar sua coalizão fracassada na eleição presidencial vencida por Bolsonaro, Frota diz que o tucano “arriou suas calças e está de quatro dando seu bumbum murcho para quem quiser comer” e usa inúmeros palavrões.

Para Tobias e Aníbal, a terminologia é do “antigo ramo profissional do impugnado” —no caso, filmes pornográficos.

A situação em Brasília é ainda indefinida, porque muitos tucanos se mostraram horrorizados com o vídeo. O presidente nacional Bruno Araújo, que esteve na filiação em São Paulo, já disse a amigos, contudo, que as críticas de Frota eram coisa do passado.

Frota, quando inquirido sobre o vídeo na sexta, disse que havia mudado de ideia acerca do PSDB. Nesta segunda, escalou seu advogado, Arthur Rollo, para falar sobre o caso.

“Isso é passado e não tem sustentação jurídica alguma. Assim como não haverá nenhum questionamento de perda de mandato que venham a fazer em Brasília por parte do PSL”, afirmou.

Doria, por sua vez, cobriu Frota de elogios na sexta. “No novo PSDB, tem espaço para quem toma decisões, tem espaço para quem tem coragem de falar. Não precisamos estabelecer nenhum tipo de antagonismo.” Questionado, ele não comentou o caso nesta segunda.

O deputado havia sido expulso do PSL por suas críticas ao governo de Bolsonaro três dias antes. Para Doria, sua filiação é um prêmio, dado que Frota tem causado uma não esperada boa impressão entre os integrantes da equipe econômica por seu desempenho no Congresso, como nos debates da reforma da Previdência. Antes, o ex-ator pornô era um dos mais vocais defensores do bolsonarismo radical.

O governador paulista tem se descolado paulatinamente de Bolsonaro, de quem emprestou o nome na campanha do segundo turno de 2018 para surfar num movimento “BolsoDoria”.

Essa aliança inicial, que nunca teve contrapartida explícita do presidente, visava atrair uma faixa semelhante do eleitorado —não só o bolsonarismo antiestablishment a que hoje o mandatário está confinado, mas uma larga fatia da centro-direita que tinha o antipetismo como força motriz.

Hoje, Doria tenta fidelizar esse último grupo ao buscar diferenciar-se do titular do Planalto, como no episódio em que Bolsonaro questionou a morte do pai do presidente da OAB na ditadura militar. A filiação de Frota se insere nesse contexto e também no da correlação de forças em São Paulo.

Frota é próximo de Joice Hasselmann (PSL-SP), deputada que é chamada por desafetos de “líder do governo Doria em Brasília” —ela é líder do governo Bolsonaro no Congresso.

Aliados do governador veem na proximidade dele com Joice a enorme possibilidade de um apoio branco caso ela resolva disputar a eleição para a prefeitura paulistana no ano que vem, já que esses mesmos atores são céticos sobre as chances de o titular da cadeira, Bruno Covas (PSDB), vencer.

Covas era o vice de Doria, e ambos mantêm uma relação fria. Ele estava no evento de filiação de Frota, que por sua vez disse que deixaria de apoiar Joice e apoiaria o tucano agora que estava filiado ao PSDB.

Poucos acreditaram. A disputa em São Paulo é crítica: se algum adversário de Doria vencer a disputa, trará dificuldades na montagem de palanque de 2022, quando o governador ou enfrentará Bolsonaro ou, hipótese menor, será candidato à reeleição.

O gesto da velha guarda tucana é o primeiro, mas não deve ser o último. O grupo havia composto com Doria após a vitória do tucano no segundo turno contra Márcio França (PSB), e cessaram as trocas públicas de farpas —as mais notórias entre o governador e o seu antecessor Alberto Goldman.

Mas o vídeo com as críticas de Frota foi considerado excessivo pelo grupo, até pelo tom de ofensa pessoal a Alckmin.

O ex-governador não quer falar sobre o assunto, mas interlocutores dele disseram que ele ficou especialmente agastado com a situação, dando a entender que não se oporia a medidas retaliatórias.

Há entre alguns integrantes do tucanato a preocupação de que o grupo acabe por sair do partido, desfigurando de vez a sigla formada em 1988 como uma dissidência “ética” do antigo PMDB.

Aliados de Doria dão de ombros, lembrando a falta de votos da ala nos últimos anos, e afirmam que hoje é mais fácil o governador herdar todo o partido do que ser obrigado a procurar outra legenda para manter seus planos eleitorais.

Hoje, o tucano tem ascendência sobre Araújo, que esteve na filiação de Frota, e comanda o time de governadores do partido, composto também por Eduardo Leite (RS) e Reinaldo Azambuja (MS).

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