Série sobre facada deu chance de lembrar que drama humano sempre se impõe

Orientação era fazer um retrato amplo do ataque ao presidente Jair Bolsonaro, que completou um ano

Joelmir Tavares
São Paulo

Jornalismo é sempre sobre pessoas, embora, no dia a dia da cobertura política, por vezes nos esqueçamos disso, detidos nos pormenores de disputas de poder, imbróglios jurídicos ou escândalos da hora.

A série de reportagens sobre um ano da facada no presidente Jair Bolsonaro, publicada pela Folha ao longo da semana passada, foi uma oportunidade de olhar para o fator humano: a dor do político que viu a morte de muito perto, o abismo da doença mental de Adélio Bispo de Oliveira, a angústia de irmãos e sobrinhos do autor do crime (sem notícias daquele que, para eles, é só Tuca, um homem que precisa de ajuda).

“Quero que você mergulhe na história da facada”, foi o pedido que me fez o editor de Poder, Eduardo Scolese, no início de agosto. A orientação era procurar pessoas que estiveram de algum modo ligadas ao episódio, garimpar detalhes e esclarecer como estavam as apurações oficiais 12 meses depois.

A jornada incluiu, nas semanas seguintes, telefonemas, entrevistas em São Paulo e viagens para Minas —primeiro Montes Claros, no norte, onde moram os parentes de Adélio; depois Juiz de Fora, na porção sudeste do estado, onde o atentado aconteceu.

Para um repórter de política, mais habituado à comodidade de gabinetes e ar-condicionado, sentar num banquinho de madeira do lado de fora do barraco de uma sobrinha de Adélio, sol de 31° C na cabeça, e entrevistá-la é lembrar que o drama humano sempre se impõe.

Precisei segurar o choro. Desconsolados e desamparados, os parentes não entendem por que Adélio fez o que fez e se consomem em angústias e dúvidas sobre seu estado. Ao mesmo tempo, discordam do ato extremo praticado. “Quem tem direito de tirar a nossa vida é só Deus”, disse-me Jussara Ramos, 32, sobrinha do autor do ataque.

Em Juiz de Fora, na semana seguinte, os relatos não menos emocionados de apoiadores que estavam ao lado de Bolsonaro na hora da facada.

“Ele era era a esperança que a gente tinha, né?”, narrou o advogado Eduardo Jeyson, 43, reproduzindo a sensação de quem, como ele, presenciou o que inicialmente se cogitou ser o assassinato do “Mito”.
O tom apaixonado contrastou com a objetividade quase fria do médico responsável pela cirurgia de emergência no então presidenciável.

Sério e compenetrado, Luiz Borsato, 42, descreveu sem se abalar a situação de Bolsonaro ao chegar à Santa Casa: pressão baixíssima, coração disparado, quase 2 litros de sangue no interior do abdômen.
Se não dominassem as emoções, médicos talvez falhassem em salvar vidas, pensei.

Como a intenção era fazer um retrato amplo do caso, a apuração compreendeu também a leitura de relatórios de investigações da Polícia Federal, decisões judiciais e laudos psiquiátricos de Adélio, cheios de termos técnicos.

Se papéis e letras eventualmente camuflam sentimentos, são úteis e necessários na hora de organizar ideias e informações —justamente o maior desafio em um trabalho como o de planejar, escrever e editar uma série de seis extensas reportagens.

No fim, para que tudo faça algum sentido, entram as outras técnicas jornalísticas: condensar, hierarquizar, clarificar, confrontar, contextualizar. Sem se esquecer de que jornalismo é (ou deveria ser) sempre sobre pessoas.

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