Em carta à família, Adélio cita conspiração maçônica e clama por transferência

Ele disse aos parentes sofrer 'investidas satânicas' no presídio onde está desde a facada em Bolsonaro

Joelmir Tavares
Montes Claros e Juiz de Fora (MG)

Sem contato com Adélio Bispo de Oliveira, 41, desde que ele foi preso após esfaquear Jair Bolsonaro (PSL), a família recebeu notícias dele até agora apenas por meio de uma carta —mas a mensagem não foi lá muito reconfortante.

A correspondência, à qual a Folha teve acesso, foi escrita em 6 de maio na penitenciária federal de Campo Grande (MS). Ele foi levado para o local depois de tentar assassinar o então candidato a presidente, crime que completa um ano nesta sexta-feira (6).

“Este presídio aqui é um lugar de maldições, um presídio projetado pela maçonaria onde o satanismo maçom aqui é terrível”, escreveu Adélio aos familiares que vivem em Montes Claros, no norte de Minas.

A mensagem mostra, na opinião dos parentes, que o autor do ataque continua perturbado pelos fantasmas que agravaram sua doença mental, levando-o a cometer o atentado em Juiz de Fora (MG).

Carta enviada por Adélio à família, em maio de 2019, quando já estava preso na penitenciária federal de Campo Grande (MS) por ter esfaqueado Bolsonaro
Carta enviada por Adélio à família, em maio de 2019, quando já estava preso na penitenciária federal de Campo Grande (MS) por ter esfaqueado Bolsonaro - Joelmir Tavares/Folhapress

Como publicou a Folha nesta terça-feira (3), os familiares não têm dinheiro para ir até Campo Grande visitá-lo e só recebem informações dele pela TV e pela internet.

Após a publicação da reportagem, eles disseram que vão procurar a DPU (Defensoria Pública da União) para tentar falar com Adélio pelo telefone (a chamada visita virtual).

Na carta, de uma página e meia, Adélio reforçou sua obsessão pela maçonaria, ao afirmar que o prédio da penitenciária foi construído com arquitetura típica da organização e que corre perigo lá —ele se considera perseguido pela confraria.

“Estou tentando sair daqui o quanto antes possível”, escreveu. “Estão tentando me levar à loucura a qualquer custo, assim como já fizeram com vários que passaram por aqui. Há uma conspiração bem montada para isso. Mas ainda estou firme, apesar das investidas satânicas da maçonaria.”

Com 208 celas, o complexo em Mato Grosso do Sul, inaugurado em 2006, tem edificações com linhas retas e dimensões retangulares, sem elementos aparentes em forma de triângulo ou colunas típicas das construções maçônicas.

Na correspondência, Adélio também insistiu no pedido de ajuda para ser transferido. Ele disse que tentaria apoio via DPU, por não estar conseguindo contato com seus advogados. Como ele já tem defesa constituída, liderada pelo advogado Zanone Manuel de Oliveira, os defensores públicos não podem interferir.

Oliveira e seus sócios não foram contratados pela família. A Polícia Federal investiga quem estaria financiando os serviços, dentro de inquérito que apura se houve mandantes do crime ou comparsas.

A carta foi enviada a um sobrinho chamado Madson, mas hoje está com Aldeir Ramos de Oliveira, 52, o irmão mais velho de Adélio. Nela, o autor da facada pede que os parentes consultem o advogado de um conhecido em Montes Claros para saber se o profissional poderia assumir seu caso e tentar a transferência.

Os familiares falam que deixaram de lado o pedido porque não têm como pagar um defensor particular. “Vamos fazer o quê?”, indaga Aldeir. Sua mulher, Maria Inês Dias Fernandes, 49, completa: “Estamos de mãos amarradas. Só entregamos a Deus”. Ambos estão desempregados.

A remoção é descartada também pelo Ministério Público Federal e pelos advogados. Para eles, Adélio fica menos vulnerável no presídio de segurança máxima, com vigilância rigorosa e celas individuais, do que em outro lugar. Consideram ainda o risco de fuga.

Os familiares, apesar de reclamarem da distância e do isolamento, tentam se convencer de que a situação é a melhor para ele no momento.

Um mês depois de escrever aos parentes, o preso reiterou o pedido de transferência em 15 de junho, em uma carta endereçada ao juiz que cuida de seu caso, Bruno Savino, da 3ª Vara da Justiça Federal em Juiz de Fora.

Reivindicou que fosse levado para “a cadeia pública de Montes Claros ou mesmo para a carceragem da Polícia Federal” na cidade. “Minha situação aqui está pior do que no presídio de Juiz de Fora”, disse.

O magistrado negou. “Cabe frisar que, diante do reconhecimento da inimputabilidade do réu, seus interesses devem ser representados pelo curador nomeado”, ressaltou Savino, em despacho no processo.

Adélio foi declarado inimputável (incapaz de responder por seus atos), após laudos de psiquiatras indicados pela defesa e pela acusação.

Em junho, o juiz decidiu mantê-lo em Campo Grande, onde está preso desde que tentou matar Bolsonaro, para que seja submetido a tratamento e possa controlar o transtorno delirante persistente, com o qual foi diagnosticado.

O agressor recebeu uma absolvição imprópria, figura jurídica usada para casos em que o réu é culpado, mas não tem capacidade de entender o que fez. Tecnicamente, o juiz aplicou uma medida de segurança de internação.

A sentença fixou permanência por tempo indeterminado no presídio, mas prevê uma nova avaliação após três anos, para verificar se a saúde mental melhorou e se o grau de periculosidade diminuiu. Por ora, zero evolução.

Adélio tem recusado medicamentos e assistência psiquiátrica, de acordo com o advogado Zanone Oliveira. “Os médicos dizem que é um sintoma do quadro mental”, afirma. Como o agressor não admite estar doente, ele refuta o tratamento, por ter certeza de que não precisa de cura.

Em relatório produzido para o processo, o psiquiatra forense Hewdy Lobo Ribeiro descreveu Adélio como alguém que tem entendimento distorcido da realidade e sofre de alucinações e delírios.

No exame, feito pelo médico na penitenciária, o preso repetiu que ouve a voz de Deus —ele sustenta, desde os primeiros depoimentos, que foi em uma dessas ocasiões que recebeu uma instrução divina para assassinar Bolsonaro.

O autor revelou ao perito não se arrepender do crime, já que seu propósito era “proteger o Brasil” de um eventual governo do candidato. Adélio se diz simpático à ideologia de esquerda e foi filiado ao PSOL entre 2007 e 2014.

Ele, que é evangélico e chegou a ser pregador em uma igreja que frequentou em Montes Claros, tem a convicção de que foi escolhido por Deus para deter Bolsonaro.

Antes de esfaquear o político, acreditava que, se ele fosse eleito presidente, iria “dizimar minorias, quilombolas e pobres”, inclusive negros como ele, e “matar uma grande quantidade de pessoas”.

Suas obsessões, de acordo com a classificação do psiquiatra, vão além do campo místico e religioso. Também há os chamados delírios autorreferentes e uma síndrome de perseguição. Insiste, por exemplo, na história de que políticos o espionaram e roubaram projetos idealizados por ele.

As ideias continuam preenchendo os dias de Adélio nos cerca de 9 m² da cela 28 da penitenciária. Ele passa pelo menos 22 horas por dia no local, de onde pode sair para o banho de sol, com duração de no máximo duas horas.

Pouco conversa, segundo pessoas com quem teve contato nas últimas semanas. Às vezes se queixa da comida, entregue sob a forma de seis refeições diárias (café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e ceia). Diz que o sabor dos alimentos é repetitivo.

As regras são rígidas e incluem a proibição da entrada de qualquer produto. Itens de higiene, roupas, calçados e cobertores são fornecidos pelos funcionários da penitenciária, que controlam até o horário de banho. O chuveiro e a luz só podem ser acionados do lado de fora, pelos agentes.

As visitas ocorrem no parlatório, com um interfone e uma parede de vidro no meio. Todas as conversas são monitoradas para interceptar eventuais comunicações criminosas. As cartas, como a que Adélio mandou aos familiares, também são lidas previamente.

Carta enviada por Adélio à família

Oi Madson, tudo bem? Espero que sim. Estou lhe escrevendo só para dar notícias, ja que estou bem longe de vocês aí, a mais de 2.000 km de Montes Claros.

Mas isso é o pormenor. Estou tentando conseguir uma transferência para o presídio estadual de Montes Claros, via Defensoria Pública da União, já que não estou conseguindo fazer contato com meus advogados.

Estou tentando sair daqui o quanto antes possível, pois este presídio aqui é um lugar de maldições, um presídio projetado pela maçonaria onde o satanismo maçom aqui é terrível.

Estão tentando me levar a loucura a qualquer custo, assim como já fizeram com varios que passaram por aqui. Ha uma conspiração bem montada para isso. Mas ainda estou firme apesar das investidas satânicas da maçonaria.

Espero que aí com vocês tudo esteja bem. Dê um forte abraço em todos aí, em especial em sua mãe. Madson se possível responda esta carta.

Mais uma coisa, procure o Joninho e vê se é possível ele entrar em contato com o advogado dele, e vê o quanto ele cobraria para pegar o meu caso, a transferência e [ininteligível], pois ele trabalha com valores bem baixos, Ok.

No mais tudo de bom para vocês aí.

Adélio Bispo de Oliveira, 06.05.2019
Campo Grande - MS

A grafia original foi mantida na transcrição, com erros ortográficos

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