Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Ministro do Turismo rejeita se afastar após ser acusado no caso dos laranjas do PSL

'Quem não deve não teme', diz Álvaro Antônio; presidente encerra entrevista ao ser questionado

Fernanda Canofre Talita Fernandes
Belo Horizonte e Brasília

O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, negou nesta segunda-feira (7) a possibilidade de se afastar do cargo após ser indiciado pela Polícia Federal e denunciado pela Promotoria de Minas Gerais no caso das candidaturas laranjas do PSL.

Em entrevista à Rádio Itatiaia, Álvaro Antônio repetiu três vezes, durante quase dez minutos, que irá se defender diante da Justiça e não deixará a pasta do governo Jair Bolsonaro (PSL).

“Quem não deve não teme. Por que eu me afastaria, sendo que eu tenho minha consciência tranquila? Eu respeito muito o trabalho da Polícia Federal, do Ministério Público estadual, do Ministério Público Federal, da Justiça brasileira e eu vou ter minha oportunidade de, na Justiça, provar que, realmente, a minha conduta foi absolutamente idônea a frente do partido”, disse.

O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, durante cerimônia alusiva aos 100 dias do governo Bolsonaro
O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, durante cerimônia alusiva aos 100 dias do governo Bolsonaro - Pedro Ladeira - 11.abr.2019/Folhapress

Já o presidente Jair Bolsonaro voltou a evitar responder nesta segunda sobre a situação do ministro, assim como havia feito na última sexta-feira (4). Questionado sobre a permanência de Álvaro Antônio, encerrou uma entrevista. "Tá OK, obrigado", disse ao sair do Ministério da Defesa. 

Nesta segunda, a Folha revelou que a PF sugeriu uma nova investigação relacionada ao ministro, sobre suspeita de caixa dois na campanha. O depoimento de um assessor e uma planilha apreendida indicaram pagamentos por fora para abastecer as campanhas de Álvaro Antônio e de Bolsonaro.

Álvaro Antônio, que foi o deputado federal mais votado de Minas Gerais em 2018 e era presidente estadual no PSL na época, afirmou que sempre zelou pelas regras da lei eleitoral e que foi denunciado sem haver menções a seu nome nos autos ou citações, apenas com base na teoria do domínio de fato.

“Pelo fato de eu ser presidente do partido, eu teria que dar conta de todos os atos e ações de todos os membros do partido, sem ter absolutamente uma citação sequer ao meu nome. Vou fazer uma comparação grossa aqui. É como se o office boy aqui da Rádio Itatiaia, que é uma função nobre, cometesse qualquer delito na rua e o presidente da Itatiaia fosse responsabilizado por isso”, comparou.

Segundo ele, a campanha em Minas Gerais, um estado com 853 municípios, foi feita de carro, e seria impossível na coordenação de uma campanha “tão grande” dar conta do que fazia cada membro do partido. O ministro alega que o dinheiro das candidatas veio direto do diretório nacional do PSL e não passou pela executiva estadual, ou seja, que ele não teria como saber da condução dada a verba.

“Eu jamais orientei qualquer candidato ou candidata a contratar qualquer fornecedor que seja”, afirmou.

O Ministério Público de Minas Gerais denunciou Marcelo Álvaro Antônio e outras 11 pessoas na última sexta-feira sob acusação de falsidade ideológica eleitoral, apropriação indébita de recurso eleitoral e associação criminosa. A denúncia foi entregue à 26ª Zona Eleitoral de Belo Horizonte.

No final da tarde desta segunda-feira, o juiz Flávio Catapani decretou sigilo para o processo, que transmita agora em segredo de justiça. A informação foi anunciada pelo Tribunal Regional Eleitoral de Minas.

O promotor do caso, Fernando Abreu, afirmou que todos os denunciados agiram em coautoria no esquema que teria usado verbas de campanha destinadas por lei a quatro candidatas mulheres para beneficiar candidaturas de homens do PSL.

Com base em provas de autos, a Promotoria apontou o atual ministro e o deputado estadual Professor Irineu como maiores beneficiados.

O esquema funcionaria através de emissão de notas subfaturadas por parte das gráficas, fazendo a transferência dos valores das campanhas femininas para produzir material de outros candidatos. 

O ministro foi ouvido pela PF e pelo Ministério Público no decorrer da investigação e pode apresentar sua versão dos fatos e documentos para colaborar com o inquérito, segundo Abreu.

“Ainda que o inquérito seja sigiloso e não tenha previsão de contraditório, para todos os investigados nós deferimos a possibilidade de produção de prova porque o objetivo final não era denunciar A ou B, era esclarecer a verdade para que ela fosse submetida à Justiça”, disse o promotor a jornalistas na sexta.

O ministro chamou de “mentira deslavada” reportagem publicada pela Folha neste domingo (6), que mostrou o depoimento de seu ex-assessor Haissander Souza de Paula à PF, no qual ele afirma achar que “parte dos valores depositados para as campanhas femininas, na verdade, foi usada para pagar material de campanha de Marcelo Álvaro Antônio e de Jair Bolsonaro”.

O ministro também falou sobre a irritação de Bolsonaro com as reportagens publicadas pela Folha —o presidente disse que o jornal “desceu às profundezas do esgoto”

“Eu acho que o principal ponto de um jornalismo sério é levar a verdade, é informar as pessoas, o eleitorado, informar a sociedade brasileira com a verdade. E a Folha de S.Paulo, acho que ninguém tem mais dúvida, que é um jornal político, partidário, ideológico de esquerda, que vem contribuindo para piorar cada dia mais a imagem do Brasil. Esse é o motivo da irritação do presidente Bolsonaro”, afirmou Álvaro Antônio.

No início da noite desta segunda, o porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, disse que Álvaro Antônio seguirá no cargo de ministro do Turismo.

"A linha de chegada é a linha de chegada definida pelo chefe do Poder Executivo, que é quem pode ao fim e ao cargo definir a manutenção de um ministro ou exonerá-lo".

Segundo o porta-voz, não há da parte do presidente "neste momento, qualquer indício ou formulação de ideia no sentido de substituir o ministro. O ministro se mantém no cargo e detém a confiança do presidente Jair Bolsonaro".

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