Novo líder do PSL, Eduardo Bolsonaro diz que futuro da família na sigla é incerto

Filho do presidente afirma que política não deve ser feita com o fígado e que buscará a paz no partido

Talita Fernandes Danielle Brant
Brasília

Após assumir a liderança de um PSL rachado na Câmara, Eduardo Bolsonaro (SP) afirmou à Folha que sua missão agora é pacificar a sigla, mas reconhece que o futuro partidário dele e de sua família ainda é incerto.

O deputado, que é filho do presidente Jair Bolsonaro (PSL), disse que desistiu de ser embaixador do Brasil em Washington depois de ouvir seu eleitorado, negou que não tivesse votos suficientes no Senado para que seu nome fosse aprovado e admitiu que uma parte de sua base de apoio era contrária à sua indicação.

Com o partido dividido, no entanto, o deputado disse que vai conversar com todo o mundo e que política não deve ser feita com o fígado.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), líder do PSL na Câmara
O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), líder do PSL na Câmara - Pedro Ladeira - 22.out.2019/Folhapress

Qual vai ser o objetivo do senhor como líder do PSL? Qual vai ser sua missão? É preciso que o PSL retorne a ser um partido onde você coloque adiante as pautas que nos elegeram, e não um partido em que, lamentavelmente, como na semana passada, oriente contra o governo. A minha missão como líder é retornar ao status quo, ao status que acontecia antes dessa conturbada semana para o PSL. Os deputados que estavam na comissão xis seguem na comissão xis.

Não tem retaliação? Não, nenhuma retaliação.

Como o senhor vê a ideia de o PSL querer destituir o diretório de SP, no qual o senhor está na presidência? Olha, até agora, eu não recebi nenhuma notificação, nenhuma oficialização disso daí. Se vier a ser feita, aí eu passo a discutir. Mas tem muita coisa também que é melhor a gente discutir internamente. Falar muito sobre tudo o que acontece de maneira pública dá margem para desgaste, dá margem para interpretações outras. Então eu me resguardo para tratar disso aí apenas internamente.

Como foi a decisão de desistir da embaixada dos EUA? Ela foi tomada só pelo senhor, o senhor conversou com o seu pai, com outras pessoas? O presidente sempre me deixou muito à vontade. Ele nunca fez disso uma obrigação, ele nunca interferiu nessa minha decisão. Tomei essa decisão falando com eleitores, uma parte a favor, uma parte contra, mas bem dividido. Ouvindo pessoas próximas. Críticas construtivas, de boa-fé. E uma avaliação [de] onde seria mais importante minha atuação. Nesse momento, eu acredito que o melhor é ficar aqui no Brasil, ajudar na construção desse movimento conservador. Como você vê, existem várias discussões, mesmo entre nós, na internet. Então a gente traçar quais são as nossas metas, qual a nossa identidade. Para isso também que serviu o CPAC, o maior evento conservador do mundo, que trouxe para o Brasil, no mês passado, em São Paulo. Então a pegada é mais ou menos essa daí.

Então não foi por falta de votos no Senado? Não, não. Inclusive um dos senadores, foi até engraçado. Antes de eu vir fazer o discurso, eu falei com alguns senadores que estavam me ajudando no Senado. Falei com eles pessoalmente antes de vir aqui fazer o discurso, para que eles não soubessem pela imprensa. E um deles chegou para mim e se virou "ué, mas por que você vai desistir? Está tudo encaminhado, a articulação está toda feita, seu nome vai passar aqui". Porque, na cabeça dele, eu estava desistindo por conta talvez de não ter os votos. Então, na verdade, é bem tranquilo, eu acho que eu teria os votos, sim, mas é só uma questão de análise, onde seria melhor minha posição, como meu eleitorado enxerga isso, porque eu confesso, era bem dividido. E isso aqui que foi me dando esse norte.

Há críticas fortes de quadros do PSL ao senhor e a seus irmãos, dizendo que os filhos atrapalham o presidente. Tem espaço para a família Bolsonaro no PSL? Vocês vão sair do partido? Como está esse impasse? A gente está esperando o presidente retornar da viagem à Ásia, está tudo em aberto. Pretendo também conversar com o Rueda [Antonio Rueda, vice-presidente do PSL]. Eu vivo um dia após o outro. A minha missão agora é pacificar o PSL. Tenho escutado muita coisa, muita coisa infundada, e eu prefiro nem citar nome de parlamentar ou de quem esteja fazendo esse tipo de crítica para evitar elevar os ânimos novamente.

Vai conversar com a outra ala? Tem conversa com Luciano Bivar (presidente do PSL)? Eu conversaria com ele, estou conversando com todo mundo. A nossa profissão aqui, político, a gente engole muito sapo. A gente não precisa morrer de amores um com outro, tudo que for preciso para colocar adiante as pautas que interessam aos brasileiros vai contar comigo, com minha atenção, com minha paciência. E ontem [terça (22)] mesmo eu iniciei um trabalho de ir conversando com os deputados que assinaram a lista do Waldir. Falei com o coronel Tadeu, falei com o Francischini, com o delegado Pablo, delegado Freitas, enfim, Charlles Evangelista. Não dá para a gente ficar aqui, como eu falei, fazendo política com o fígado. Tem que ter um clima bom de trabalho.

Futuro é no PSL ou o futuro da família Bolsonaro é em outro partido? Não sei, vai depender do decorrer dos dias.

Como senhor vê o documento em que Bivar diz que o senhor e seu irmão não têm condições de comandar diretórios? Prefiro alguns assuntos tratar internamente para não dar margem à elevação da temperatura novamente. Se ele falou isso ele vai ter as fundamentações dele e eu vou certamente responder no foro adequado.

Qual a marca do PSL na sua gestão? A marca da paz.

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