Sínodo da Amazônia reenergiza teorias da Teologia da Libertação

Em encontro, religiosos de esquerda preveem revalorização das Comunidades Eclesiais de Base

Fabiano Maisonnave
Vaticano

Símbolo da adesão à Teologia da Libertação, os anéis de tucum (espécie de palmeira) adornam os dedos de diversos participantes do Sínodo para a Amazônia.

Não por acaso, a reunião de três semanas que termina neste domingo (27) endossa temas importantes da esquerda católica latino-americana, como as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e o respeito às culturas dos povos indígenas.

Para participantes ligados a essa teologia, as propostas para aumentar a presença da igreja em regiões distantes convergem com as CEBs, que se espalharam nos anos 1970 tentando envolver leigos católicos na reestruturação da igreja nas periferias e nas zonas rurais.

Além disso, a orientação da interculturalidade na relação com os povos indígenas, presente no sínodo e já defendida pelo papa Francisco, reforça as diretrizes do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), ligado à teologia e que defende a o apoio aos povos indígenas independentemente de sua conversão ou não ao catolicismo.

Pesa também a favor da Teologia da Libertação, influenciada pelo marxismo e que teve o seu auge nos anos 1960 e 1970, o fato de a Amazônia ter permanecido como um reduto dos religiosos dessa corrente, que perdeu espaço principalmente no Sul e no Sudeste.

“Nós, como missionários, estamos na Amazônia desde 1980”, diz o padre paranaense José Boeing, 58, que atua na região de Trairão (PA), onde também é advogado de assentamentos. “Agora, o sínodo está dizendo: estamos reforçando a nossa maneira de ser igreja na Amazônia.”

“As CEBs têm se fortalecido pelo anúncio do Evangelho: vivendo a fé, mas também defendendo a vida. E defender a vida, no contexto da Amazônia é dizer: somos também solidários com as vítimas da violência, com as lutas dos povos e de seus territórios”, afirma Boeing, que participa como padre sinodal.

“Tenho certeza de que as CEBs vão se fortalecer com este documento. Será uma igreja muito mais presente. Alguns setores da igreja vão questionar, haverá alguma resistência, mas isso é normal”, diz.

Para o padre capixaba Paulo Sérgio Vaillant, mesmo a defesa da ecologia integral, defendida na encíclica Laudato si, publicado por Francisco em 2015, já havia aparecido antes nos trabalhos do teólogo Leonardo Boff, um dos expoentes da Teologia da Libertação.

“As últimas obras de Leonardo, como A Carta da Terra, são sobre ecologia integral. Tanto que, nas conferências que tem dado em Vitória, ele quase chora quando lê Laudato si. Ele diz: ‘Este é o papa que gostaria de ter tido quando era o teólogo da libertação”, afirma Vaillant, que em breve trocará Vitória (ES) para Lábrea (AM). 

Em 1985, o ex-frade franciscano foi punido por um ano com “silêncio obsequioso” pela Congregação da Doutrina da Fé do Vaticano quando era comandada pelo então bispo Joseph Ratzinger, futuro papa Bento 16. 

Por outro lado, o sínodo foi marcado por questionamentos de alas conservadoras da igreja sobre a influência da esquerda e sobre a inclusão de temas como a ordenação de homens casados e o diaconato de mulheres.

Em entrevista coletiva na última sexta-feira (25), por exemplo a jornalista Diane Montagna, da publicação conservadora LifeSite, perguntou ao bispo de Marajó, Evaristo Spengler, “sobre o propósito de seu encontro, na semana passada, com deputados socialistas e comunistas brasileiros”. Ela também afirmou que Jesus Cristo estabeleceu que o sacerdócio está reservado aos homens.

O religioso refutou a informação de que tinha havido esse encontro e citou uma alteração da lei canônica promovida pelo papa Bento 16, que, segundo ele, abriu a possibilidade para o diaconato de mulheres.

Questionamentos como esse refletem teorias da conspiração que se espalharam pela direita católica, segundo as quais o sínodo esconde um plano para infiltrar a igreja de comunistas. Os conservadores também têm criticado o uso de imagens religiosas indígenas —algumas chegaram ser vandalizadas nos últimos dias.

O sínodo está ampliando o espaço de representantes da corrente teológica no Vaticano do papa Francisco, o primeiro latino-americano a liderar a Igreja Católica. Trata-se de uma inversão após décadas de marginalização dessa corrente ao longo dos papados de João Paulo 2º (1978-2005) e, menor grau, de Bento 16 (2005-2013). 

Dois dos quatro brasileiros eleitos pela assembleia do sínodo neste sábado (29) para o conselho pós-sinodal são identificados com a Teologia da Libertação: o bispo emérito do Xingu, dom Erwin Kräutler, e o presidente do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e bispo de Porto Velho (RO), dom Roque Paloschi. 

Ao todo, foram escolhidos 13 conselheiros. Os outros dois brasileiros são o cardeal Cláudio Hummes, relator-geral do sínodo, e o bispo de Belém, dom Alberto Taveira. O papa Francisco ainda nomeará mais três membros do organismo encarregado de monitorar a implantação das decisões do sínodo, que, após aprovação pelos padres sinodais, dependerão da sanção final do sumo pontífice.

A maior visibilidade chegou até aos museus do Vaticano, uma das atrações turísticas mais visitadas da Europa, com uma média de 6,5 milhões de pessoa por ano. Nesta segunda-feira (28), será aberta a exposição Mater Amazonia, que dedica parte do espaço para homenagear lideranças assassinadas na região.

Entre outros, estão na mostra, com fotos e vídeos, a missionária norte-americana Dorothy Stang, ligada a movimentos camponeses e assassinada em Anapu (PA) em 2005, e o líder guarani-caiová Marçal de Souza Tupã’i,  ligado ao Cimi, morto a tiros em Bela Vista (MS), em 1983.

O repórter Fabiano Maisonnave viajou a Roma a convite da Burness Communications 

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