Livro narra trajetória de Edir Macedo da fundação da Universal ao império de hoje

Obra aborda a construção do poder religioso, político e empresarial do bispo e suas polêmicas

São Paulo

As eleições de Donald Trump nos Estados Unidos e de Jair Bolsonaro no Brasil despertaram uma maior busca pelo conhecimento sobre as igrejas evangélicas e seus fiéis, tidos como importantes fatores da chegada dos dois conservadores ao poder.

A proximidade de Bolsonaro com o líder religioso da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, explicitada em eventos públicos nos últimos meses, e a fala do presidente de que pretende indicar alguém “terrivelmente evangélico” para uma futura vaga no STF (Supremo Tribunal Federal) chamaram ainda mais a atenção para o assunto.

Lançado nesta semana, o livro “O Reino - A História de Edir Macedo e uma Radiografia da Igreja Universal” usa as ferramentas do jornalismo profissional para levar ao leitor uma melhor compreensão sobre o tema.

Em tempos de polarização, o livro não defende nem trata Edir Macedo e a Universal como vilões.

É um relato jornalístico que foge do maniqueísmo e busca, a partir da escuta de várias fontes, mostrar diferentes aspectos do desenvolvimento da Universal e de seu criador.

O autor é Gilberto Nascimento, jornalista com 40 anos de carreira dedicados à cobertura de temas de política, religião e direitos humanos.

Nascimento foi o primeiro a revelar, em reportagem na revista IstoÉ, o teor de gravações de vídeo nas quais Macedo orientava pastores sobre como obter doações dos fiéis, usando expressões como “ou dá, ou desce”.

A experiência em reportagens em veículos como a Folha, O Globo, O Estado de S. Paulo, IstoÉ e Rede Record deu ao autor a consciência sobre o didatismo necessário para abordar o tema das igrejas evangélicas, que são alvo de preconceitos e incompreensões em um país de maioria católica.

Assim, a obra explica as diferentes denominações evangélicas e esclarece, por exemplo, que a Universal não é aquela com maior número de seguidores no Brasil, posto ocupado pela Assembleia de Deus.  

No campo dos costumes, mostra que a Universal é mais tolerante que a maioria das igrejas evangélicas em relação à homossexualidade e ao aborto, mas também descreve os ataques de Macedo às religiões afro-brasileiras e as recentes manifestações do bispo de que as atividades de comando das famílias e instituições devem ser exercidas pelos homens, e por isso as mulheres não devem se preocupar em estudar.

A história da atuação de Macedo e seus seguidores em busca de poder político é um dos pontos altos da obra. O jornalista trata das relações do líder da Universal com os presidentes da República desde Fernando Collor de Mello (1990-1992) e das ações da igreja para a ampliação da bancada evangélica no Congresso.

As principais polêmicas ligadas à Universal são tratadas sob diferentes perspectivas e posições dos envolvidos, como manda o jornalismo profissional. 

A maior delas ocorreu no dia 12 de outubro de 1995, quando o bispo Sérgio von Helde deu chutes e socos em uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante o programa “Despertar da fé”, na Rede Record.

O livro também relata que em 2007 a jornalista Elvira Lobato, então na Folha, foi alvo de 111 ações judiciais após o jornal publicar uma reportagem dela sobre a evolução do patrimônio de dirigentes da Universal. Os processos foram movidos por fiéis e pastores da igreja.

Quanto às várias investigações e ações penais iniciadas contra Macedo, a obra traz um levantamento extenso e atualizado, uma vez que cita a reportagem da Folha de 19 de outubro deste ano que revelou a prescrição de ação penal contra o líder da Universal, na qual ele foi acusado de lavagem de dinheiro, em razão da lentidão da Justiça.

Ao abordar os vários processos, Nascimento não se esquece de esclarecer que Macedo nunca foi condenado criminalmente pela Justiça.

Uma parte do livro é dedicada a detalhar o conglomerado de empresas ligado a o bispo, com destaque para o processo de compra da emissora de TV Rede Record, que tinha como um dos donos o apresentador Silvio Santos.

Os conflitos com a Rede Globo e a Igreja Católica, as disputas internas de poder e a expansão internacional da Universal também são abordados na obra.  

A reportagem procurou Macedo e a Universal por meio da assessoria de imprensa da igreja evangélica, que se manifestou por meio de nota.

“Universal não responderá as perguntas da Folha de S.Paulo porque não conhece o teor do livro e não foi procurada pelo autor para relatar a verdade dos fatos que seriam narrados. Além disso, pelas perguntas do jornal, tudo indica que o livro traz apenas notícias requentadas, falsas e já desmentidas inúmeras vezes. É lamentável que algum veículo de imprensa se preste a levar tal conteúdo a sério”, diz a nota.

“Por fim, informamos que os abusos e eventuais crimes contra a honra praticados pelo autor da obra serão levados pelo Poder Judiciário, para que ele seja punido na forma da lei”, completa.

O Reino - A História de Edir Macedo e uma Radiografia da Igreja Universal

  • Autor Gilberto Nascimento
  • Editora Companhia das Letras
  • Páginas 384
  • Preço R$ 59,90
 

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