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Governo Bolsonaro

Desafio do governo passa por otimismo econômico e controle da comunicação

Enxergam avanços na economia principalmente os homens, os mais escolarizados e com maior renda

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) completa um ano de governo com popularidade mais baixa do que a verificada no início do mandato, porém com oscilações positivas, dentro da margem de erro, em relação à pesquisa realizada no final de agosto, quando a polêmica sobre as queimadas na Amazônia assumiu proporção de crise internacional, em confronto direto com o presidente da França, Emmanuel Macron.

A leve variação se dá principalmente pelo refluxo de parte do apoio que Bolsonaro havia perdido por conta do episódio, inclusive em segmentos da população que o elegeram.

A bandeira do meio ambiente e a inadequação do presidente brasileiro ao lidar com essa e outras questões da gestão havia atingido não só estratos que historicamente o rejeitam —mulheres, os mais pobres e os que vivem no Nordeste— como também alcançado parcela dos que mais o apoiam, como homens, moradores do Sul e os mais escolarizados.

Agora, ele recupera pontos tanto nestes subconjuntos quanto entre os mais ricos, onde quase a metade o considera ótimo ou bom. Como são estratos de baixo peso quantitativo na composição do eleitorado, as alterações não se projetam significativas para o total da amostra.

Com base nos dados, os fatores que melhor explicam o resultado são pequenas mudanças de percepção da opinião pública sobre o comportamento do presidente e também sobre o desempenho da economia.

A taxa dos que dizem que Bolsonaro nunca age como um presidente da República caiu quatro pontos percentuais nos últimos três meses. O fato coincide com maior controle da comunicação oficial, depois de arroubos belicosos nas redes sociais em função da divulgação do envolvimento de seu nome nas 
investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco.

Sobre a economia, nenhuma outra área do governo apresentou crescimento de popularidade mais expressivo —o índice dos que aprovam o setor subiu cinco pontos percentuais nos últimos três meses, enquanto o combate à corrupção, mote do marketing eleitoral bolsonarista e um dos itens melhor avaliados do governo em agosto, caiu em proporção equivalente.

Outras variáveis apontam para a mesma direção —a taxa dos que acham que a crise econômica do Brasil deve demorar para acabar sofreu queda de quatro pontos, e o índice dos que percebem melhoras na economia nos últimos meses subiu cinco. Enxergam avanços na economia principalmente os homens, os mais escolarizados e com maior renda familiar mensal.

O período de campo do levantamento coincide com a divulgação dos números de alta do PIB no terceiro trimestre deste ano, alavancado principalmente por investimentos do setor privado, assim como com a liberação de recursos do FGTS e pagamento da primeira parcela do 13º.

Interessante notar que a aprovação ao ministro Paulo Guedes oscila um ponto positivo, enquanto a de Sergio Moro oscila um negativo, dentro dos limites da margem de erro, o que remete a estudos futuros a confirmação ou não das tendências detectadas agora.

O mesmo raciocínio vale para a imagem do presidente Jair Bolsonaro. Não só as variações de sua avaliação ficaram dentro da margem de erro, como também as oscilações no índice de afinidade dos brasileiros com o presidente.

Segundo a escala elaborada pelo Datafolha, a taxa de bolsonaristas “heavy”, isto é, eleitores do presidente que o aprovam e confiam em tudo que ele diz, passou de 12% para 14% na população, índice que chega a 37% entre empresários, 31% entre habitantes mais ricos do Sul e 29% entre os homens com renda superior a 5 salários mínimos.

No extremo oposto, detratores “heavy”, que não votaram, o reprovam e não confiam em Bolsonaro, oscilaram negativamente dois pontos nos últimos três meses —de 30% para 28%. São principalmente entrevistados que se auto classificam indígenas (42%) e negros (35%). Também ocorrem com mais frequência entre os que se dizem desempregados (39%), estudantes (37%) e entre as mulheres de menor renda (32%).

Sobre o futuro, o desafio do governo passa por manter o controle da comunicação oficial e gerar expectativa positiva quanto à economia, tarefa mais difícil diante do crescimento de pessimismo sobre a inflação.

Mauro Paulino e Alessandro Janoni

Diretor-geral do Datafolha e Diretor de Pesquisas do Datafolha

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