Na Paulista, apoiadores de Bolsonaro atacam Congresso e STF e chamam coronavírus de 'mentira'

Apoiadores do presidente desafiaram pandemia do coronavírus e se concentraram em frente à Fiesp

São Paulo

Simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro em ato na avenida Paulista neste domingo (15) desafiaram a pandemia de coronavírus e se concentraram em frente à sede da Fiesp (federação das indústrias). Grande parcela dos manifestantes era de idosos, grupo de risco da doença. Parte do público usava máscaras.

manifestantes vestidos de verde e amarelo se concentram em esquina da avenida paulista
Manifestação pró-Bolsonaro na Avenida Paulista ataca Congresso e STF e chama coronavírus de 'mentira' - Bruno Santos/Folhapress

A manifestação ocorreu apesar de Bolsonaro ter sugerido adiamento dos atos e os grupos de direita em São Paulo terem desmobilizado a organização —apenas o Movimento Direita Conservadora (MDC) levou caminhão de som à Paulista.

Como mostrou a Folha, porém, o clima de conflagração e de convocação permaneceu nos últimos dias, o que acabou levando pessoas à Paulista. O próprio Bolsonaro participou do ato em Brasília e estimulou as manifestações pelo país neste domingo.

No auge, o protesto tomou conta de um quarteirão da avenida Paulista, mas com os manifestantes espaçados. Em meio à pandemia de coronavírus, o público, portanto, foi menor do que em atos em apoio a Bolsonaro no ano passado.

"Achei até bom não estar tão cheio", disse o aposentado Vicente Sanches, 76, que usava máscara. "Estou usando para me proteger por causa da idade", completou.

Manifestação pró-Bolsonaro ocupa cerca de um quarteirão na av. Paulista - Bruno Santos/ Folhapress

Após a manifestação, uma briga terminou com uma pessoa baleada na avenida Paulista. Segundo relatos de pessoas presentes, dois homens com camisa do Flamengo e carregando bandeira do Brasil se envolveram em uma briga com duas mulheres. Um deles teria puxado a arma e atirado. Uma pessoa ficou ferida e foi levada ao Hospital das Clínicas.

O tom da manifestação na Paulista foi de protesto contra o Congresso e o Judiciário. Cartazes pediam intervenção militar e AI-5. Do caminhão de som, o grito "intervenção" foi puxado.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), o presidente do STF, Dias Toffoli, e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), foram alvos. Houve gritos pedindo a prisão deles.

O coronavírus foi chamado de "mentira" por líderes que discursaram no caminhão de som. Eles insinuavam que a doença foi usada como desculpa pelo governador João Doria (PSDB), adversário de Bolsonaro, e pelas autoridades para cancelar a manifestação e questionaram por que o Carnaval não foi cancelado —no Carnaval a pandemia não estava declarada pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

No caminhão, o coronavírus era chamado de "comunavírus". O Movimento Direita Conservadora lançou máscaras com a bandeira do Brasil para os manifestantes. "Eu tenho mais medo dos políticos. Maia e Lula livre são os vírus do Brasil", disse a empresária Sofia da Conceição Pereira, 65, a respeito do coronavírus. Sem máscara, ela disse que quando a manifestação foi cancelada, pensou: "Vou nem que eu vá sozinha".

"Pensei a mesma coisa!", afirmou Sandra Ferri, 64, logo ao lado. "Sou Bolsonaro, não há corona que me segure", completou a professora aposentada, que também dispensou a máscara.

Para a dupla Ilana Vieira, 60, e Sueli Guidetti, 65, que também estava sem máscara, Bolsonaro apenas cancelou as manifestações por ser seu papel como chefe de estado. "Mas na verdade ele queria que o povo viesse, porque ele não consegue trabalhar", disse Guidetti.

A aposentada afirmou "não estar acreditando muito nisso" de coronavírus e estimou que 90% do público na Paulista estivesse sem máscara. Para Vieira, que é fonoaudióloga, a China pode ter fabricado a crise para se aproveitar economicamente. "Esse vírus é mais fraco que gripe. O STF tem que ser preso em peso, por ser comunista."

A princípio, a Prefeitura de São Paulo havia determinado que a avenida Paulista não fosse fechada para pedestres como ocorre todo domingo. A ideia era evitar aglomeração em meio à pandemia de coronavírus.

A Polícia Militar, no entanto, fechou a via por volta de meio-dia, quando os manifestantes começaram a se concentrar na Fiesp.

No início da manifestação, o Movimento Direita Conservadora, responsável pelo caminhão de som, estacionou o veículo na alameda Pamplona na esquina com a Paulista e passou a pressionar a PM para liberar a entrada do caminhão na avenida.

As pessoas endossaram a pressão e chegaram a cercar policiais, mas líderes do MDC colocaram panos quentes: "pessoal, vamos aplaudir a PM, eles estão apenas cumprindo ordens". Um líder chegou a dizer no caminhão que estava realizando "um ato de desobediência civil pacífica".

Por volta das 15h30, o movimento desobedeceu ordem da PM e levou o caminhão à Paulista. Antes disso, porém, os organizadores pediram dinheiro aos manifestantes para pagar a multa de, segundo eles, R$ 5.800, pela infração.

Os manifestantes passaram a levar dinheiro para os organizadores, que recolhiam as notas ao lado do caminhão. "É o maior ato de desobediência civil da história do país", disse um líder do MDC.

O grupo aproveitou para fazer propaganda, afirmando ter sido o único a encarar a manifestação —os demais atenderam a orientação de evitar aglomeração.

Wagner Cunha, líder do MDC, em cima do caminhão de som na av. Paulista
Wagner Cunha, líder do MDC, em cima do caminhão de som na av. Paulista - Carolina Linhares/Folhapress

O presidente do MDC, Wagner Cunha, 56, psicólogo, ativista e autor de 11 livros, saiu de Uberlândia (MG) para se manifestar com o caminhão de som, alugado em Campinas (SP). "É pelo Brasil que estamos aqui. É um movimento espontâneo do povo", disse ele, que é pré-candidato a prefeito da cidade mineira pelo PRTB.

"Temos medo é do comunavírus. O metrô está funcionando, o cinema, o shopping, o aeroporto... E aqui é um ambiente aberto", respondeu ao ser questionado sobre sentir-se irresponsável diante do pedido de autoridades de saúde para evitar aglomerações.

Cunha disse ser contra o orçamento impositivo, o parlamentarismo, a ideologia de gênero, a lei de abuso de autoridade e a favor da prisão em segunda instância. Ele defendeu no caminhão a criminalização do comunismo.

Outro tema lembrado nos discursos foi a alegação, sem provas, de Bolsonaro sobre fraude eleitoral —as pessoas defenderam o voto impresso. E também houve um momento em que os manifestantes se ajoelharam para rezar o Pai Nosso na avenida.

O advogado Antônio Ribas, 70, da União Nacionalista Democrática, foi outro líder a falar no caminhão. Se apresentando como líder de um movimento intervencionista há 30 anos, ele disse defender o intervencionismo civil, da sociedade, "porque o crime tomou conta das instituições".

Ribas afirmou que uma pessoa tentou empurrá-lo do caminhão de som, e a polícia interveio para controlar a situação.

Nos arredores da Paulista, a concentração de policiais militares era alta, semelhante ao efetivo visto em dias de manifestações previamente acordadas com o poder público. Ao final do ato, os manifestantes aplaudiram a PM.

A avenida, porém, não foi completamente interditada para os carros —ficou fechada em quatro quarteirões, da alameda Ministro Rocha Azevedo até a alameda Campinas. O trecho com concentração manifestantes, porém, era menor: da alameda Casa Branca até a alameda Pamplona.

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