Bolsonaro perde parte da direita, mas mostra resiliência após discurso

Moro é chamado de traidor por bolsonaristas e acusado de não ser suficientemente conservador

São Paulo

Os ataques do ex-ministro Sergio Moro (Justiça) tiraram mais uma lasca do bloco conservador de apoio ao presidente Jair Bolsonaro, mas não foram suficientes para provocar uma debandada em massa.

O pronunciamento para rebater Moro no final da tarde estancou, ao menos momentaneamente, perda de prestígio de Bolsonaro e mostrou sua resiliência na direita.

O presidente Jair Bolsonaro, acompanhado de seus ministros, durante pronunciamento à imprensa para falar sobre as acusações feitas pelo ex-ministro da Justiça Sérgio Moro ao pedir demissão. - Pedro Ladeira/Folhapress

Um exemplo da perplexidade vivida pelos bolsonaristas ao longo desta sexta-feira (24) foi a reação do ex-deputado Roberto Jefferson, recém-convertido à tropa de choque do presidente.

No início da tarde, em conversa com a Folha, ele se mostrava disposto a dar o benefício da dúvida a Moro.

“Se o Moro sustentar que houve tentativa de intervenção do presidente para descobrir relatórios da Polícia Federal no caso do inquérito das fake news, por exemplo, pode criar real motivo para o impeachment, ser o crime de responsabilidade”, declarou.

Após o discurso de Bolsonaro, no entanto, voltou a cerrar fileiras em torno do presidente e acusou o ex-juiz de ser desleal.

“Moro pode ser honesto, honrado, um grande juiz. Mas ele enfraqueceu o governo num momento terrível. Foi mais nefasto que o [presidente da Câmara] Rodrigo Maia”, afirmou.

Outro exemplo de vaivém veio da deputada Carla Zambelli (PSL-SP), de quem Moro é padrinho de casamento.

Pela manhã, escreveu que o ex-ministro sempre teria sua “profunda admiração, bem como a gratidão de todos os brasileiros de bem”. À tarde, contudo, estava no Palácio do Planalto junto com o presidente em seu pronunciamento.

Ao longo do dia, passado o choque inicial, partidários de Bolsonaro passaram a incluir no discurso a versão de que Moro nunca foi um quadro ideológico da direita, o que teria levado ao distanciamento dele e do presidente.

“O Moro não é de direita, não é conservador. Houve um descasamento ideológico. Ele é um representante da Justiça, que é tomada por muitos quadros progressistas”, afirmou o deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP).

Segundo ele, um dos problemas da gestão de Moro foi não ter combatido no ministério a influência dos servidores de carreira, dentre os quais há poucos conservadores. “Todo ministério tem um aparelhamento ideológico de esquerda, mas nem todo ministro sabe lidar com isso”, afirmou.

Da mesma forma, o deputado federal Carlos Jordy (PSL-RJ) escreveu, no Twitter: “Moro é técnico, mas nunca foi conservador”.

Além da acusação de não ser confiável do ponto de vista ideológico, Moro passou a ser chamado simplesmente de traidor por parte da tropa de choque digital do presidente.

“De herói a chantagista”, disse Italo Lorenzon, do site Terça Livre, pró-Bolsonaro.

Para o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), o pronunciamento de Bolsonaro cristalizou sua percepção de que Moro foi desleal. “Ouvindo o presidente Jair Bolsonaro, tenho certeza, Sergio Moro me enganou”, escreveu

Paulo Eneas, editor do site bolsonarista Crítica Nacional, chamou Moro de “traidor profissional”.

“Existem traidores amadores, como Joice, Santos Cruz, o falecido Bebianno e o ator pornô. Existem os traidores profissionais. Moro é profissional, e fez hoje seu primeiro discurso de campanha”, afirmou.

O fato de parte da base de Bolsonaro ter sido reagrupada com o discurso, no entanto, não evitou defecções.

Uma das que mais tiveram repercussão no dia foi a de Xico Graziano, um ex-tucano que vinha dando apoio a Bolsonaro. Importante líder ruralista, ele anunciou o rompimento com o presidente.

“Se o Moro sai, saio junto”, anunciou, embora não tivesse cargo no governo.

Mais do que isso, imediatamente declarou apoio a Moro como candidato a presidente em 2022.

Em troca de mensagens com a Folha, Graziano afirmou que Moro “pode ser a verdadeira terceira via” na próxima eleição.

Site bolsonarista muito influente, o Jornal da Cidade Online disse que a demissão de Moro “enfraquece extremamente o governo”. “É lamentável. O governo perde um herói”, escreveu.

Outro a ficar do lado do ex-ministro foi o general da reserva Paulo Chagas, para quem “Moro é a visão clara do estadista que se tornou conhecido e admirado por sua coragem física e moral, pela determinação com que estudou suas missões pela competência com que as executou”.

Principal empresário que apoia o presidente, Luciano Hang, da rede de lojas Havan, chamou Moro de herói nacional e o agradeceu de forma efusiva.

“Obrigado por tudo que você fez pelo nosso país. Gerações e gerações lembrarão do seu legado. O povo brasileiro estará sempre ao seu lado. Estamos juntos”, afirmou.

Já o pastor Silas Malafaia tentou se equilibrar entre as duas figuras. Disse que segue dando sustentação ao presidente, mas criticou-o pela saída do ex-ministro.

“Continuo apoiando o presidente, mas discordando 100% da saída do Moro. Erro político total”, afirmou.

Entre os momentos inusitados de um dia histórico, houve um raro mea culpa do líder de um dos mais importantes grupos que mobilizam apoiadores para ir à rua apoiar o presidente.

Edson Salomão, presidente do Movimento Conservador, pediu desculpas à imprensa por ter colocado em dúvida as notícias sobre a saída de Moro.

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