Racismo no Brasil é tão cruel que nos negamos a falar dele, diz senador Paulo Paim

Rara presença negra na Casa, o gaúcho diz que o Parlamento espelha desigualdade racial e defende cotas

Brasília

Aos 70 anos, Paulo Paim ainda embarga a voz ao recordar de um fato que marcou a sua infância. Foi em 1960, quando ele foi ao enterro do marido de uma prima, a qual o senador chama de irmã. O homem morto, um negro, havia se deparado com uma batida policial e optara por correr.

“Sempre ouvi na família que negro parado é suspeito, correndo é culpado. Ele decidiu correr. Levou um tiro na cabeça e caiu morto”, conta o senador (PT-RS). O episódio marcou a vida de Paim, que fez da política seu ambiente de transformação.

Senador Paulo Paim participa da sessão do Senado Federal - Alan Marques/Folhapress

Um dos poucos senadores negros no Congresso, o gaúcho afirma que o Parlamento espelha a desigualdade racial e defende a discussão de cotas para negros em campanhas políticas.

Para o ex-líder sindical e um dos idealizadores do Estatuto da Igualdade Racial (que completou dez anos de aprovação em julho), a presença de Sérgio Camargo à frente da Fundação Cultural Palmares é incompatível.

"O homem errado, na hora errada, e que a história há de contar como alguém que negou seu próprio povo."

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Por que ainda temos tão poucos negros na política brasileira? No Brasil, nunca tivemos financiamento público de campanha. É indiscutível que a pobreza tem cor no país: é preta. Se pegar todo esse cenário, 80% da população miserável é negra. Temos dificuldade para fazer uma campanha e ter os espaços de disputa em relação a tantos outros.

Na minha primeira campanha, em 1986, eu me elegi. Fiz a campanha com papel de pão. Aquele pão de meio quilo. O pessoal comprava o pão e sobrava o papel. O que eu fiz? Eu dizia: "Peguem o papel, cortem, escrevam o número dentro e passem de um para o outro". Foi a campanha do papel de pão.

Eu era líder sindical, já estava como secretário-geral da CUT, já tinha uma certa estrutura, mas não posso achar que uma exceção é regra. Foi meu caso, e o de outros, como a Benedita [da Silva]. Os negros todos chegaram a este ponto muito pobres, e conseguiram com muito esforço.

Há espaço nos partidos para os negros? Pobre e negro, devido ao preconceito, precisa romper duas barreiras. E dentro dos partidos não é fácil também. Estou falando do conjunto, não desse ou daquele partido. Não é fácil para que os negros tenham uma posição de destaque e avancem, quando sabemos que a disputa é interna, externa e legítima também. Assim é a democracia.

O Tribunal Superior Eleitoral inclusive está decidindo [sobre o tema]. Já temos dois votos favoráveis no sentido de que o financiamento público de campanha seja equilibrado entre negros e não negros.

O problema da falta de negros na política é restrito a falta de apoios? É muito mais falta de estrutura, não é falta de quadros. Eu, por exemplo, sempre soube que precisava ocupar os espaços com a graça e a coragem que Deus me deu. Tive uma estrutura familiar pobre, mas muito firme. Minha mãe e meu pai ganhavam salário-mínimo, e todos os dez filhos se encaminharam. É muito difícil negro e pobre romper todas as barreiras. É uma batalha desigual.

Há quatro legislaturas, o sr. continua sendo um dos poucos senadores negros. Para você ver. Por que a política de cotas mudou a cara das universidades? Porque lutamos. Fomos ao Supremo, eu defendi as cotas. Ganhamos, e hoje os negros já são 54% nas universidades públicas, porque eles precisavam de oportunidade. Nas privadas estão lá, 16%, 17%, devido à questão social e à pobreza do povo negro.

Na sua análise, o Parlamento espelha a desigualdade racial do país? Com certeza o Parlamento espelha a desigualdade racial. Tanto na Câmara quanto no Senado, nas Câmaras de vereadores, que há muitas em que não há negros. Eu vou fazer palestras, às vezes, e não tem nenhum negro. Prefeitos também são raras exceções, governador nem se fala.

Essa realidade está aí e nós sabemos que tudo passa pela política. Por que os negros não estão em espaços onde estão os outros? Porque o racismo é estrutural, passado de geração para geração. Quem não é racista é criança, é a juventude. À medida que os jovens iam entrando nas universidades, diziam que iria haver confronto entre os cotistas e os não, mas não vimos confronto nenhum.

Há um debate sobre o fato de ter se ampliado o acesso à universidade, mas faltado estrutura aos mais necessitados para isso. Como que se faz para mostrar que a cor não pode ser levada em consideração nesse sentido? Ela não pode ser levada em consideração. A cota não pode ser o meio, tem de ser o fim. Os Estados Unidos tiveram uma política de cotas durante um longo período. Depois chegou um momento em que ela não foi mais necessária.

Quando nós aprovamos e defendemos a política de cotas, sempre dizemos que ela precisa ser um meio, não um fim. Essa moçada que está se formando agora precisa ocupar o espaço no mercado de trabalho, ser empreendedor, porque aí vamos fazer o giro, e os espaços vão ser complementados a partir dessa visão de brancos e negros. É um processo de construção. É só pela educação, não tem outro meio.

O brasileiro desconhece a história do negro? A própria lei que manda contar a história de negros e índios nos bancos escolares, no Brasil, só 20% ou 30% dos municípios adotam. Não cumprem a lei. No fundo não se sentem à vontade para contar a história do negro que foi raptado, veio no navio negreiro, que quando houve a abolição não foi dado a ele o direito de estudar, de ter terra, ferramenta, como foi dado ao imigrante. Se você conta toda essa história verdadeira, você vai desestruturando essa visão racista de quem é mais preparado ou não. Então, as cotas precisam dar condições iguais de aprendizado nos limites que a própria miséria nos traz.

Eu tenho um projeto, e em parte o governo já assimilou, que os cotistas têm de ter uma ajuda, um auxílio, para se manter na universidade. Ele precisa ter condições de comprar um livro, ter roupa, alimentação.

Por que incomoda a presença do negro da universidade? No fundo, no Brasil, a gente fala muito menos do coletivo do que do individual, e cada um quer ocupar os espaços que entende no seu individualismo. A disputa é individual, não é coletiva, não é de país. Todo mundo tem direito a estar na universidade. Então por que não assegurar 50% a 50%? Há resistência porque eles pregam o individualismo.

O Brasil é um país racista? Infelizmente, não tenho a menor dúvida. Todos os dados mostram isso. Tentou-se aqui a tal de democracia racial, que nunca existiu. O Brasil nunca enfrentou esse debate verdadeiro e real que é o mundo das ruas, das favelas, das empresas. É um país racista. Tenho 70 anos, já tenho estrada. Se formos olhar, quem é minoria nas universidades? É o negro. Se formos olhar os cargos de ponta de qualquer empresa, quem é minoria? É o negro. Se olhar para o Congresso, somando tudo vai dar 10%. Qual é a desculpa?

O sr. acredita que vai chegar um momento em que será possível viver num país sem racismo? Tenho visto coisas muito bonitas. Aquele movimento a partir do jovem que morreu nos EUA assassinado [George Floyd]. Vi movimento no mundo todo de brancos e negros, jovens, lutando, brigando e dizendo não ao racismo, ao preconceito, pela liberdade. E isso nos cinco continentes. Isso está repercutindo no mundo e tenho esperança de que cresça no Brasil.

O racismo no Brasil, ele é tão forte, tão cruel, que eu tenho de dizer que todo negro que disser que nunca sofreu um ato de racismo está faltando com a verdade. Independentemente da classe social dele. O racismo é tão cruel, dói tanto, que tu te negas a falar dele. Tu nem quer falar que você não está naquele espaço que poderia ocupar, não por falta de competência, mas por ser negro.

É como se você estivesse admitindo que o racismo está te inibindo, então tu não fazes o debate de desestruturar o racismo estrutural. Dói tanto que não se quer falar. Se fala tem gente que vai sempre dizer que está lamentando. Vai à luta, vai à luta. Mas não é fácil. É uma questão desigual pela questão estrutural.

A Fundação Palmares hoje está sendo presidida por uma pessoa que nega a existência da escravidão e é contra o movimento negro. Como o sr. avalia isso? Ele [Sérgio Camargo] sentou na cadeira e se mostrou o homem errado, na hora errada, e que a história há de contar como alguém que negou seu próprio povo, num departamento que deveria ser em homenagem ao grande defensor da comunidade negra. Tem pessoas que eu prefiro não citar o nome. Essa é uma dessas pessoas. É uma pessoa preconceituosa, racista, que nega sua própria história.

Como surgiu a ideia de criar o Estatuto da Igualdade Racial, em um país em que boa parte da população é negra ou parda? O Estatuto da Igualdade Racial surgiu no momento em que os constituintes assinaram uma carta para levarmos à África do Sul, pedindo a liberdade do [Nelson] Mandela, contra o apartheid que existia lá. Éramos eu, o Edmilson Valentim, a Benedita da Silva, o João Hermes, o Carlos Alberto Caó. Na época, todos jovens, todos animados para irmos lá.

Recebemos das mãos da Winnie Mandela [esposa do ativista] a Carta da Igualdade e, baseados nisso, começamos a fazer algo no Brasil, entendendo que o Estatuto da Igualdade Racial podia ser a nossa carta de liberdade.

O que temos ainda a avançar para que o Estatuto da Igualdade Racial seja respeitado? O Estatuto foi uma obra completa. Só vamos avançar no Brasil quando conseguirmos sensibilizar o outro lado da moeda, brancos e negros. Aí o Brasil vai ser de fato um país de primeiro mundo. O Estatuto da Igualdade Racial é uma bússola. Ele orientou as cotas, ele orientou legislação, a questão quilombola está ali assegurada, tem tudo ali para dar certo.

Mas eu diria que, para dar mais certo, é preciso aprovar uma PEC [proposta de emenda constitucional] com um fundo de combate ao racismo e ao preconceito. Temos que romper esses obstáculos que são o racismo e o preconceito. Não existe lei pronta e perfeita. Sempre ela será aperfeiçoada.

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RAIO-X

Paulo Renato Paim, 70

  • Ex-metalúrgico e ex-sindicalista, o gaúcho de Caxias do Sul filiou-se ao PT (Partido dos Trabalhadores) em 1985, foi deputado federal (1987-2002) e é senador desde 2003
  • É autor da lei que instituiu, em 2010, o Estatuto da Igualdade Racial
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