Descrição de chapéu Eleições 2020

Órfão, eleitor bolsonarista é disputado por maioria dos candidatos a prefeito de SP

Com presidente alheio à disputa, concorrentes buscam reforçar credenciais conservadoras na maior cidade do país

São Paulo

Na cidade de São Paulo, berço de expressões da política conservadora como adhemarismo, janismo e malufismo, a direita desta vez está órfã.

Sem um líder político expressivo neste campo e com a promessa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de se manter afastado da eleição municipal de novembro, o eleitorado direitista passou a ser alvo de cobiça de praticamente todos os candidatos.

Apenas as legendas da esquerda mais tradicional, como PT, PC do B e PSOL, não nutrem esperanças de abocanhar algum pedaço do eleitorado destro, que foi energizado na cidade e no país nos últimos anos.

O presidente Jair Bolsonaro e a deputada Joice Hasselmann (PSL), em evento no Planalto em 2019
O presidente Jair Bolsonaro e a deputada Joice Hasselmann (PSL), em evento no Planalto em 2019 - Pedro Ladeira/Folhapress

No congestionado campo da direita há por enquanto quatro candidatos declarados. Dois buscam alinhamento a Bolsonaro: Filipe Sabará (Novo) e Levy Fidelix (PRTB).

Outros dois fazem oposição a Bolsonaro. Joice Hasselmann (PSL) e Arthur do Val (Patriota) apresentam-se como uma espécie de “direita sensata”, que partilha dos valores conservadores defendidos pelo presidente, mas sem seus métodos agressivos e discurso antidemocrático.

O campo da direita ainda pode ter o acréscimo do PTB, cujo presidente nacional, Roberto Jefferson, está na linha de frente da defesa de Bolsonaro. O diretório regional escolheu o ex-presidente da OAB-SP Marcos da Costa como candidato, mas Jefferson defende um nome mais claramente conservador para a disputa.

Outros nomes especulados são os de Celso Russomanno (Republicanos) e dos emedebistas Paulo Skaf, aliado de Bolsonaro, e José Luiz Datena. A maior probabilidade, no entanto, é que eles fiquem fora da disputa ou concorram a vice.

Candidato do Novo e ex-aliado do governador João Doria (PSDB), Sabará fez um movimento forte de aproximação ao presidente desde que iniciou sua pré-campanha.

“Sou de direita, com princípios e valores conservadores. Os temas que defendo são privatização, enxugamento da máquina e empreendedorismo, os mesmos que o presidente colocou na eleição de 2018”, afirma ele, que recentemente elogiou a conduta do presidente no combate ao coronavírus.

“Se o eleitorado que votou no Bolsonaro entender que a gente tem as mesmas pautas, pode me apoiar”, diz Sabará.

O pré-candidato do Partido Novo a prefeito de São Paulo, Filipe Sabará, que se alinhou ao presidente Bolsonaro - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Líder nacional do PRTB, Levy Fidelix disputará a prefeitura pela quarta vez. Nas tentativas anteriores, obteve no máximo 0,37% dos votos. Agora, acredita que chega mais forte, justamente porque pode ser a opção dos desgarrados do bolsonarismo.

“Sou o candidato que defende Deus, pátria e família. Eu incorporo o espírito dos que apoiam o presidente. Seria natural ele me apoiar.”

Entre suas credenciais, estão ser do partido do vice, Hamilton Mourão, e ter filiado ativistas que apoiam Bolsonaro, como Edson Salomão, presidente do Movimento Conservador e que disputará a eleição para vereador.

Na direita que rompeu com Bolsonaro, o desafio é conseguir atrair votos de conservadores mesmo fazendo ataques diários ao presidente e a seus aliados.

“O cara que é muito bolsonarista hoje é minoria, nem 10% de quem votou nele. É o que defende intervenção militar, faz parte de uma bolha tensa, barulhenta, mas pequena”, aposta o deputado estadual Arthur do Val (Patriota), conhecido por seu apelido de youtuber, Mamãe Falei.

Sua linha de campanha, afirma, é falar para o eleitor de direita mais pragmático, que não quer a volta da esquerda, mas rejeita os arroubos ideológicos do presidente. “O cara que é sensato não apoia as atrocidades que o Bolsonaro fala. A maior parte do eleitorado não tem um voto ideologizado, tem um voto pragmático.”

Na mesma linha, Joice, que se apresentava como a candidata do presidente antes de romper com ele, promete falar para um público conservador sensato. “Vou me colocar como uma direita racional, não uma direita estúpida, burra, intervencionista, uma direita que só quer confusão e não quer de fato realização”, disse em entrevista à Folha em 16 de julho.

Candidatos que não são obviamente ligados à direita também avaliam que têm argumentos para seduzir parte desse eleitorado.

Descendente de uma família de industriais da cidade, o ex-vereador Andrea Matarazzo (PSD) aposta na sua origem como um ativo eleitoral junto aos conservadores. “Meu nome diz muito sobre a minha origem. Venho de uma família de empreendedores. Mas o apoio deste eleitorado mais à direita se dará em cima de projetos, não de oportunismo.”

Ele promete uma campanha sem ideologização, com foco em questões práticas da cidade. “Buraco não é nem de direita nem de esquerda. Ele só tem de ser consertado”, diz.

Mesmo Márcio França (PSB), cujo partido tem a palavra “socialista” no nome, vê possibilidade de arrebanhar um naco do eleitorado simpático ao presidente. Para isso, pretende se cacifar como o candidato anti-Doria, adversário comum dele e dos bolsonaristas.

Já o prefeito Bruno Covas (PSDB), que busca a reeleição, tenta neutralizar a imagem de esquerdista, que vem sendo explorada por adversários.

Para isso, segundo um estrategista de sua campanha, ele tem como trunfos o programa municipal de privatização, que inclui parques, mercados e símbolos como o estádio do Pacaembu, além de ações para coibir pancadões nas periferias e disciplinar o comércio de ambulantes, bandeiras populares entre conservadores.

O cientista político Fernando Abrucio, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas), calcula que o eleitorado conservador ideológico na cidade de São Paulo, mais alinhado a Bolsonaro, é de até 20%.

Outros 20%, segundo sua estimativa, são conservadores não-ideológicos, que rejeitam a esquerda, mas podem ser atraídos por candidatos de discurso mais pragmático, como Covas ou Matarazzo.

“O malufismo e o janismo eram movimentos conservadores, mas que tinham mais relação com questões da cidade e fenômenos específicos de bairros mais tradicionais, do que com ideologias de direita”, afirma Abrucio.

Para ele, o bolsonarismo em São Paulo tende a se diluir entre diversas candidaturas na eleição municipal. “Do ponto de vista do presidente, isso não é ruim. Assim, ele não corre o risco de ser responsabilizado pela derrota de ninguém”.

As armas dos candidatos para atrair o voto de direita

Filipe Sabará (Novo)
Busca se alinhar a Bolsonaro, a quem tem elogiado pelo combate à pandemia; diz que compartilha com ele valores conservadores

Joice Hasselmann (PSL)
Apresenta-se como a “direita racional”, sem os excessos do bolsonarismo, de quem já foi aliada

Andrea Matarazzo (PSD)
Diz ter perfil empreendedor, fruto da história empresarial de sua família, uma das mais tradicionais da cidade

Márcio França (PSB)
Afirma encarnar o voto anti-Doria, que na cidade se confunde com o eleitorado bolsonarista

Arthur do Val (Patriota)
Outro a adotar o discurso da “direita sensata”, defende o liberalismo na economia e usa a seu favor o fato de ser do MBL, grupo que ajudou no impeachment de Dilma (PT)

Bruno Covas (PSDB)
Diz ter feito o maior programa de privatização da história da cidade e apregoa medidas de apelo conservador, como combate aos pancadões e regras para trabalho de camelôs

Levy Fidelix (PRTB)
É do partido do vice-presidente, Hamilton Mourão, e filiou ativistas bolsonaristas

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