Briga ideológica alimenta disputa eleitoral e vira caso de polícia em Jaboticabal

Prints com supostas postagens de político local, que ele nega, são espalhadas em redes sociais

Jaboticabal (SP)

A disputa eleitoral em Jaboticabal (a 342 km de São Paulo) está sendo alimentada por uma batalha ideológica que envolve intenso compartilhamento de prints em redes sociais e críticas a uma troca partidária. O caso rendeu até polícia.

Com cinco candidatos à prefeitura, a cidade de 77 mil habitantes tem em sua eleição um ex-prefeito, a base governista dividida em dois candidatos, um postulante pela terceira vez ao cargo e um primo distante do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) estreando na política.

Candidatos a prefeito da cidade de Jaboticabal, SP.  Da esq. para a direta: João Roberto da Silva (DEM), José Giácomo Baccarin (PT), Vitorio de Simoni (MDB), Professor Emerson (Patriota) e Marcos Bolsonaro (PSL)
Candidatos a prefeito da cidade de Jaboticabal, SP. Da esq. para a direta: João Roberto da Silva (DEM), José Giácomo Baccarin (PT), Vitorio de Simoni (MDB), Professor Emerson (Patriota) e Marcos Bolsonaro (PSL) - Eduardo Anizelli/Folhapress e Facebook

Imagens de postagens atribuídas ao candidato Emerson Camargo (Patriota) passaram a ser compartilhadas em redes sociais na última semana, com conteúdo que vai de críticas a setores da imprensa a publicações em que ele se define como um político de esquerda. Todas têm datas entre 2014 e 2015.

Emerson afirma que somente uma das postagens é real —aquela em que defende Marina Silva na eleição presidencial de 2014— e que, por isso, foi à polícia pedir investigação do caso. Ele atribui as imagens divulgadas a retaliação política ligada a eleições passadas.

“A única coisa verdadeira [nos prints] é que eu apoiei a Marina. Eu era do PSB [partido da então candidata]. Grande parte ali é mentira. Sempre apoiei pautas progressistas, mas nunca me declarei de esquerda.”

Em vídeo publicado em suas redes sociais, Emerson afirma que é preciso pensar a sociedade como um todo e que, em alguns aspectos, tem “pensamento muito comum ao da direita”.

Como exemplo ele cita a defesa da propriedade privada e do desenvolvimento de setores como indústria e comércio, mas também acesso a melhorias de vida, educação e saúde.

Em 2015, porém, ele se declarou de esquerda em uma postagem. "Só o meu pai, por não saber o que é posição política, não sabe que EU EMERSON SOU DA POSIÇÃO POLÍTICA DE ESQUERDA" (sic), escreveu.

Postagem do candidato Emerson Camargo (Patriota) tem circulado em aplicativos de mensagens em Jaboticabal - Reprodução

Mas como os demais candidatos de Jaboticabal se comportam ideologicamente? Seguindo o primo famoso, Marcos Bolsonaro (PSL) participa do movimento de direita na cidade e defende bandeiras conservadoras.

Já José Giácomo Baccarin (PT), que governou a cidade de 1989 a 1992, atua no lado oposto, com ideias progressistas. Ambos vão para a disputa com chapas puras —prefeito e vice da mesma legenda— e sem nenhum partido coligado.

Para Vitório de Simoni (MDB), atual vice-prefeito e que disputa pela primeira vez o cargo, apenas sua candidatura pode ser considerada de centro-direita, enquanto as demais —exceto Bolsonaro— seriam esquerdistas.

“Sou independente e minha candidatura segue uma linha centro-direita, enquanto os outros três candidatos, obviamente Emerson, Baccarin e João Roberto, todos eles representam a esquerda”, disse ele, que tem outros quatro partidos em sua coligação (PSD, PTB, PSC e PRTB).

Na eleição presidencial de 2018, Jair Bolsonaro obteve 77% dos votos válidos no segundo turno em Jaboticabal, ante 23% de Fernando Haddad (PT). Integrantes das campanhas eleitorais afirmam acreditar num recall forte de votos de direita no pleito deste ano.

Emerson, com outras seis siglas em sua coligação (Rede, PL, PTC, Republicanos, Podemos e Solidariedade), refuta a afirmação de Vitório e diz ter postura conciliadora, de centro.

“Se olhasse na Europa, numa social-democracia, seria mais de centro, moderado, voltado a desenvolvimento econômico, liberdade da economia, mas também sem desamparar o trabalhador, todas as pessoas que precisam de ajuda.”

A situação de João Roberto (DEM), ex-secretário da Saúde, é emblemática. Até o início do ano passado ele presidia o diretório municipal do PT, partido que deixou após ser convidado pelo prefeito José Carlos Hori (Cidadania) para assumir o cargo.

Coligações rivais apontam falta de coerência na brusca mudança para um partido de espectro político antagônico, mas ele afirma trabalhar de forma equilibrada.

“Nunca achei que os extremos resolvessem algum problema, como de fato não resolvem. Até mesmo dentro do PT eu era contra as correntes, não sentia essa identidade de participar de uma corrente. Me defino como uma pessoa de centro.”

Ele afirmou ter deixado o partido antigo, pelo qual foi vereador, por ética, já que o prefeito é do Cidadania. “O partido tem restrições a algumas legendas, como o PT. Saí por decisão própria, não por imposição”, disse ele, que está à frente de uma coligação com PSDB, PDT, PP, Pros e Avante.

Conhecida como Athenas Paulista, mas também já chamada de Cidade das Rosas e de Cidade da Música, Jaboticabal terá cobertura completa da Folha durante as eleições municipais deste ano.

Uma campanha que promete ser parelha, problemas estruturais e a atuação restrita da imprensa profissional são alguns dos ingredientes que tornam interessante a cobertura jornalística nessa cidade de 77 mil habitantes.

Jaboticabal, ao contrário do que já ocorre em outras localidades menores, não tem uma TV (comunitária ou educativa) para a transmissão do horário eleitoral gratuito, o que faz com que a campanha seja diferente das disputas dos grandes centros.

Os candidatos, e a própria dinâmica local, serão acompanhados diariamente pelo jornal, assim como ocorre nas eleições em grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Jaboticabal brasileira

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