Jaboticabal encara eleição sem transporte coletivo, e 'torre de Pisa' vira símbolo da falta de água

Caixa-d'água ao lado de nova estação de tratamento entorta e deixa de ser abastecida

Jaboticabal (SP)

De longe, a imagem chama a atenção, mas não por ser algo positivo. Ao lado da nova estação de tratamento de Jaboticabal, uma caixa-d’água torta ganhou a alcunha de Torre de Pisa e passou a simbolizar um problema do município paulista, a falta de água.

Mas a caixa-d’água, que entortou em julho após a inauguração da estação de tratamento, é só a parte mais visível de um problema histórico na cidade da região de Ribeirão Preto, que é a falta da água em boa parte dos bairros, situação que se torna mais grave em meio à pandemia do novo coronavírus.

O assunto virou tema de discussão dos candidatos à prefeitura na eleição deste ano, assim como a ausência do transporte coletivo, que deixou de ser oferecido à população há mais de quatro meses.

Conhecida como Athenas Paulista, mas também já chamada de Cidade das Rosas e de Cidade da Música, Jaboticabal terá cobertura completa da Folha durante as eleições municipais deste ano.

Uma campanha que promete ser parelha, problemas estruturais e a atuação restrita da imprensa profissional são alguns dos ingredientes que tornam interessante a cobertura jornalística nessa cidade de 77 mil habitantes.

Jaboticabal, ao contrário do que já ocorre em outras localidades menores, não tem uma TV (comunitária ou educativa) para a transmissão do horário eleitoral gratuito, o que faz com que a campanha seja diferente das disputas dos grandes centros.

Os candidatos, e a própria dinâmica local, serão acompanhados diariamente pelo jornal, assim como ocorre nas eleições em grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Além dos ingredientes políticos colocados na disputa deste ano, Jaboticabal foi escolhida pela Folha por ser uma cidade com forte peso educacional, com quatro universidades ou centros universitários, e também se destacar economicamente na agricultura e nas indústrias de alimentação e cerâmica.

Mas o que levou a cidade à situação de não ter água em tempo integral? Desperdício na rede é um dos motivos. A estimativa é que 40% da produção de água seja desperdiçada antes de chegar às casas dos moradores, composta muitas vezes por encanamentos antigos, de amianto.

“O problema não é a falta de água, mas a distribuição. A produção é para uma população de 100 mil pessoas, mas temos 80 mil e falta água”, disse o candidato à prefeitura João Roberto da Silva (DEM).

Emerson Camargo (Patriota), que tenta pela terceira vez chegar ao posto, propõe que se use o conhecimento local da Unesp (Universidade Estadual Paulista) para estudos que tratem de manejo de recursos hídricos e proteção de bacias, entre outros pontos, para solucionar a questão.

“Desde a criação do Saaej [autarquia de água e esgoto] ele teve reformas conjunturais, não estruturais, e a irresponsabilidade governamental gerou o problema de hoje parte da cidade ter água e outra parte não ter”, disse.

Atual vice-prefeito, Vitorio de Simoni (MDB) defende que até no máximo 2023 o problema tenha sido resolvido com a construção de poços profundos na cidade. “Não há outra possibilidade. A construção de poços é o que deve ser feito.”

Hoje, cerca de 70% da captação é feita no córrego Rico, enquanto o restante é proveniente de poços artesianos, com captação no aquífero Guarani —um dos maiores mananciais de água doce subterrânea do mundo.

Marcos Bolsonaro (PSL), por sua vez, disse que a falta d’água é um dos problemas históricos da cidade, assim como o transporte coletivo. “De longas datas, heranças de gestões passadas que não priorizaram em seus planos e ajustes nos orçamentos para que investimentos pudessem ser implementados nos pontos críticos.”

carro passa na rua e ponto de ônibus está vazio, com árvore ao fundo
Ponto de ônibus vazio no centro de Jaboticabal, que está sem transporte coletivo há mais de quatro meses - Eduardo Anizelli/Folhapress

Os ônibus não estão circulando na cidade por que a prefeitura rompeu o contrato com a empresa permissionária e não conseguiu fazer um novo ou colocar ônibus próprios nas ruas. Ela alega que a pandemia atrapalhou.

Com isso, as paradas de ônibus espalhadas por toda a cidade estão servindo apenas como abrigos para os moradores descansarem, especialmente na região central.

“Foram cometidos muitos erros no transporte coletivo e no abastecimento de água, como a caixa-d’água quase caindo. Ela não se inclinou à toa, mas por terem feito obra correndo [da estação de tratamento, ao lado]”, disse o candidato José Giácomo Baccarin (PT).

Segundo ele, faltou planejamento também quando a prefeitura não conseguiu colocar os ônibus de volta às ruas.

A prefeitura diz que fará licitação para retomar o transporte o quanto antes. O prefeito José Carlos Hori (Cidadania) afirmou que a intenção é não cobrar mais tarifa na cidade e que, quando ia implantar o sistema, a pandemia da Covid-19 impediu que fosse feita a licitação.

“Vou alugar ônibus com motorista e combustível, contratar 9 ou 10 veículos. No início, acho que por questão de ser ano eleitoral, não poderei dar [tarifa] zero. Então teria tarifa no início e seria de graça após a eleição”, disse.

O prefeito, em seu terceiro mandato e que não irá disputar a reeleição, não anunciou apoio a nenhum dos candidatos.

Candidatos à prefeitura, porém, estimam que, ainda que a licitação saia do papel, o transporte coletivo dificilmente será retomado neste ano.

Sobre a água, Hori afirmou que construiu a maior estação de tratamento do interior, compacta, para substituir a antiga, que tinha 58 anos, mas que avanços recentes na administração não aparecem devido à pandemia da Covid-19.

A caixa-d’água torta foi esvaziada por segurança pela empresa local de água e esgoto. Ela, segundo funcionários, era usada para atender serviços internos da própria autarquia, que está orçando o custo para os reparos necessários.

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