Ataque hacker na eleição vira arma política de desinformação para bolsonaristas

Postagens questionando apuração e insinuando fraude foram rotuladas por redes sociais

São Paulo

Quase 500 grupos, perfis e páginas bolsonaristas e de outras correntes de direita se engajaram no Facebook no domingo (15) para defender o voto impresso e questionar a integridade das urnas eletrônicas e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

O movimento ganhou intensidade à medida que informações sobre um possível ataque de negação de serviço (DDoS) e um vazamento de dados antigos do tribunal começaram a circular no fim da manhã da votação, que registrou um atraso histórico.

Publicação do deputado Filipe Barros (PSL-PR) compartilhada em grupos de direita e pela deputada Alê Silva
Publicação do deputado Filipe Barros (PSL-PR) compartilhada em grupos de direita e pela deputada Alê Silva - Reprodução

De acordo com especialistas, o DDoS, alegado pelo TSE, a princípio não tem interferência direta com a lentidão da apuração.

"Nos anos anteriores, as urnas eram totalizadas localmente nos TREs que enviavam os dados consolidados para o TSE. Esse ano o procedimento mudou e os dados das urnas foram enviados individualmente", explica Fernando Amatte, diretor na Cipher, empresa de ciberssegurança.

A organização SaferNet, que investiga uma possível operação coordenada para os ataques hacker no dia das eleições municipais, monitorou um grupo de figuras bolsonaristas, incluindo investigados no inquérito das fake news, que se movimenta desde outubro em uma série de postagens que questionam a credibilidade do TSE e a segurança das urnas.

“Colocam em dúvida a apuração, o resultado que seria anunciado, como se construíssem terreno para sustentar a narrativa de que houve fraude e não reconhecer o resultado em algumas cidades”, afirma Thiago Tavares, presidente da organização que faz o monitoramento nas redes e fornece o material ao Ministério Público e ao TSE.

Páginas e grupos com apoio explícito ao presidente Jair Bolsonaro e a outras figuras da direita, como o escritor Olavo de Carvalho e o ex-ministro da Justiça Sergio Moro, replicaram centenas de vezes uma publicação que foi originada pelo perfil da parlamentar Bia Kicis (PSL-DF).

No post, é estampada a imagem de uma pessoa com a máscara do grupo hacker Anonymous e uma frase do empresário Winston Ling que diz: “Em dia de eleição, TSE é hackeado !? Hoje, 15/11, dia das eleições municipais, o grupo hacker Cyber Team anunciou que invadiu os servidores do TSE, e para comprovar o ator, expôs uma base de dados da entidade”.

Apesar de o grupo ter reivindicado o ataque e o TSE ter confirmado que houve vazamento de dados, mas que a ofensiva não comprometeu o pleito, agências de checagem julgaram que o conteúdo disseminado era parcialmente falso.

Rotulado no Facebook por muitos dos usuários que compartilharam a imagem de Bia Kicis e Ling, o aviso diz: “ataque de hackers no sistema do TSE não viola a segurança da eleição”.

Já no Instagram de Ling, um alerta abaixo da imagem diz “Falta de contexto. A mesma informação foi analisada por verificadores de fatos independentes em outra publicação”.

Procurados, Facebook e Twitter disseram que não têm um balanço sobre os posts rotulados para compartilhar. Ling não respondeu aos questionamentos da Folha sobre a postagem.

O Google afirmou que “em anúncios, não permitimos mensagens sensacionalistas ou que se vinculam a eventos de comoção nacional. Conteúdos que violam nossas políticas podem ser removidos imediatamente das nossas plataformas”.

A Folha identificou postagens insinuando fraude ou questionando a integridade das urnas eletrônicas em 492 grupos ou páginas do Facebook. A publicação da deputada Bia Kicis foi compartilhada em pelo menos 331 deles.

Em sua página pessoal, Kicis reclamou do aviso feito pelo Facebook de que a mensagem estava descontextualizada. Ela também fez ironia sobre a segurança da urna eletrônica e publicou hashtag pedindo o voto impresso.

Na noite de domingo, a publicação de Kicis havia recebido mais de 15 mil compartilhamentos e curtidas, além de 2.500 comentários.

Nos grupos, muitas mensagens questionando a segurança da votação foram compartilhada antes mesmo do término do horário da votação e, portanto, do atraso na divulgação dos dados.

À Folha a deputada Bia Kicis afirmou que não insinuou fraude. “O que eu falo é que é vulnerável, fraudável, mas não disse que houve fraude."

“Minha postagem não emite opinião e aí o Facebook disse que era descontextualizada. Se no dia da eleição, o sistema é hackeado e a rede classifica isso como descontextualizado, então eu não sei o que quer dizer contextualizado. Fiquei indignada", afirmou.

Além de Kicis, mensagens de outros parlamentares bolsonaristas viralizaram nos grupos de direita. Publicação feita no Twitter pelo deputado Filipe Barros (PSL-PR) também ironizando a confiabilidade das urnas foi compartilhada em pelo menos 25 grupos e páginas no Facebook.

Replicado pela deputada Alê Silva (PSL-MG), a publicação e Barros foi compartilhada em pelo menos mais nove grupos.

Também pessoas investigadas pela Polícia Federal no inquérito das fake news e em inquérito que apura a articulação de atos antidemocrático tiveram suas mensagens circulando em grupos de direita.

O blogueiro e apoiador do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) Oswaldo Eustáquio, por exemplo, escreveu no Twitter, sem qualquer prova, que “a esquerda está decidindo quem vai para o segundo turno” acompanhada da hashtag fraudenaseleições.

Fotos com a mensagem de Eustáquio foram compartilhadas por outros internautas em grupos do Facebook. Em junho, o blogueiro foi preso no âmbito das investigações sobre atos antidemocráticos.

Publicação do blogueiro Oswaldo Eustáquio diz, sem provas, que eleições foram fraudadas
Publicação do blogueiro Oswaldo Eustáquio diz, sem provas, que eleições foram fraudadas - Reprodução

Entre as mensagens compartilhadas pelos internautas, há crítica às urnas eletrônicas, pedidos pelo voto impresso e acusações de fraude nas eleições.

“O discurso de questionar as eleições precede o pleito. As críticas ao sistema eleitoral começaram a surgir nas páginas de Facebook, nos canais de YouTube e nas contas de Twitter do campo bolsonarista antes da votação. Após o ataque hacker, esse discurso que já circulava nas redes pegou carona”, afirma Pablo Ortellado, professor da USP e colunista da Folha, que coordena o Monitor do Debate Político no Meio Digital, que também está monitorando esses casos.

A segurança das urnas eletrônicas brasileiras é tema de discussão na comunidade científica de computação há anos. O professor Diego Aranha, uma das principais referências do assunto, hoje associado no Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, diz que o debate técnico sobre o assunto está sendo esvaziado diante da "paranoia".

“Essa polêmica não é novidade. O fato é que existia um debate técnico de dar mais transparência, de abertura do código-fonte e esse debate está se esvaziando. De um lado você tem a loucura da paranoia e o mínimo evento já vira alegação de fraude e do outro lado você tem um TSE que precisa se preservar e isso é justificável, mas que peca por limitar a transparência”, afirma Aranha.

Segundo ele, grupo de conspiradores utilizam a crítica para fundamentar argumentos técnicos que não se sustentam, como se as urnas fossem compradas de China ou da Venezuela e que o país estaria sob influência internacional.

Aranha é defensor de um sistema que permita maior auditoria às urnas, mas afirma que baseado no conjunto de evidências que é possível coletar hoje, não houve fraude que tenha impactado eleição.

Reivindicado pelo grupo hackativista Cyber Team, os ataques cibernéticos ao TSE foram feitos por diversão e por miniprotesto sobre os estabelecimentos prisionais, conforme afirmou um dos líderes à Folha por email.

Conhecido como “Zambrius”, ele disse que o grupo não gosta do governo e que invadiu o TSE para demonstrar sua vulnerabilidade.

Publicação com citação de Wiston Ling e marca d'água da parlamentar Bia Kicis
Publicação com citação de Wiston Ling e marca d'água da parlamentar Bia Kicis - Reprodução
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