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Eleições 2020

Resultado em SP alça Guilherme Boulos a ator indispensável em costura da esquerda para 2022

Mesmo derrotado, candidato do PSOL saiu vitorioso ao mobilizar nomes que antes relutavam em dar apoio ao PT

Marina Merlo

Doutoranda em ciência política na USP, cofundadora do Grupo de Estudos de Gênero e Política e pesquisadora associada do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)

Guilherme Boulos pode ter perdido a chance de ocupar o edifício Matarazzo, sede da Prefeitura de São Paulo. O resultado eleitoral, porém, o eleva junto ao PSOL como um dos atores políticos indispensáveis na costura de uma eventual frente ampla de esquerda contra a reeleição de Jair Bolsonaro no pleito de 2022.

Ainda que derrotados no segundo turno por uma diferença de quase 20% dos votos válidos, Guilherme Boulos, Luiza Erundina e PSOL ainda têm o que comemorar.

Guilherme Boulos (PSOL) aparece na varanda de sua casa após reconhecer derrota na eleição para a Prefeitura de São Paulo
Guilherme Boulos (PSOL) aparece na varanda de sua casa após reconhecer derrota na eleição para a Prefeitura de São Paulo - Danilo Verpa/Folhapress

A vitória inicial foi ter a segunda colocação no primeiro turno, desbancando papel representado pelo PT desde 1992 como opção à esquerda nas disputas de segundo turno na cidade.

Boulos já era conhecido por parte do eleitorado devido à sua liderança do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e sua candidatura à Presidência em 2018, e conseguiu um espaço muito maior para apresentar quem é e o que propõe ao avançar para o segundo turno.

Seus 2.168.109 votos na maior cidade do país não poderão ser ignorados como força eleitoral em 2022.

A segunda vitória foi ter conseguido mobilizar apoios de ex-presidenciáveis de projeção nacional como Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e o ex-presidente Lula (PT).

Nas últimas eleições gerais, essas três figuras e seus partidos não raro relutaram em dar apoio ao PT pela cobrança de uma autocrítica dos seus anos como governo. Ainda novato na política institucional, Boulos representa uma alternativa com pouco desgaste —e, portanto, menos custosa— entre potenciais aliados e apoiadores.

Se, por um lado, sua falta de experiência num cargo eletivo público pode depor contra a eficiência de uma futura gestão, por outro representa uma renovação dos principais quadros das forças de esquerda do país e a possibilidade de implementar políticas diferentes das já conhecidas.

Persiste o problema da formação de consenso em torno de uma chapa e programa de governo que abarque todos os partidos dessa frente.

Essas disputas começam ainda dentro de cada partido, quando forças e correntes diversas competem pela candidatura que sairá nas eleições. Na formação de coligações, essa conversa envolve uma queda de braço entre partidos grandes e pequenos pela concessão de recursos, definição de que partido teria a vice ou, ainda, o comando de pastas no caso de uma vitória.

A proibição de coligações para cargos proporcionais parece ter dificultado essa conversa, gerando como efeito um aumento nas candidaturas a prefeito, em especial em grandes cidades.

Se antes partidos pequenos conseguiam garantir alguma representação às custas da votação de partidos maiores, com essa nova regra foram incentivados a conduzir campanhas próprias para o pleito majoritário como forma de puxar votos para seus candidatos à vereança.

Esse mesmo fenômeno pode se repetir para a disputa nacional, dificultando a reunião de diferentes partidos de esquerda desde o primeiro turno.

A isso, somam-se as constantes reclamações de lideranças de legendas como PSB e PDT de uma postura hegemônica do PT em não abrir mão de uma candidatura do partido. Mesmo com o desgaste pós-mensalão e Lava Jato, o PT ainda figura como partido relevante e conta com uma máquina partidária e eleitoral bem estabelecida.

Entre a pandemia da Covid-19, crise econômica e arroubos autoritários do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o cenário para 2022 ainda é bastante incerto.

Mesmo que a maioria dos candidatos apoiados diretamente pelo presidente tenha perdido em 2020, os maiores vencedores deste ano foram partidos de centro e centro-direita como MDB, PP, PSD, PSDB e DEM.

Para além de conseguir se formar, ainda faltaria a essa frente ampla de esquerda conseguir dialogar com algumas dessas forças —e seus respectivos eleitores— para que vença nas urnas.

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