Saúde, mobilidade e obra antienchente se cruzam em teia de demandas nas 32 subprefeituras de SP

Moradores destacam antigos problemas nas cinco grandes regiões da capital paulista à espera de uma solução do próximo prefeito

Eduardo Silva Ana Beatriz Felicio
São Paulo | Agência Mural

Na zona leste de São Paulo, a população da Subprefeitura de São Mateus aguarda há 25 anos pela pavimentação da rua Santo André Avelino, que liga uma parte do distrito de São Rafael até a divisa com Mauá, município da região metropolitana.

Sem guias ou calçadas, é comum que em dias de chuva os moradores tenham que desviar da lama e das poças d’água ao caminhar pela via.

“A rua jamais foi pavimentada. O que foi feito foi jogar um cascalho grosso e, às vezes, uma fresa de asfalto”, conta a assistente jurídica Carmem Guilherme, 50. De acordo com a moradora, já foram feitas diferentes solicitações à prefeitura ao longo dos anos, mas a situação nunca foi resolvida.

Em Parelheiros, no extremo sul da cidade, moradores dos bairros Jardim Santa Cruz e Jardim Oriente precisam caminhar até dois quilômetros para embarcar em um ônibus municipal na Estrada da Barragem, a principal via da subprefeitura homônima.

“Muitas ruas são de terra, então isso prejudica quem não tem carro. Faltam investimentos em micro-ônibus que entrem nesses bairros”, diz a professora Aline de Alencar, 31.

Os dois cenários, apesar de estarem separados por cerca de 50 km, atravessam diferentes mandatos na capital paulista e ainda seguem como demandas da população para o próximo prefeito eleito.

O mesmo ocorre em outros distritos espalhados pelas 32 subprefeituras da cidade, que têm reivindicações em comum, como a construção de UBS (Unidades Básicas de Saúde) e problemas recorrentes com enchentes.

Nos últimos meses, a Agência Mural, por meio do portal 32xSP, ouviu moradores de todas as regiões de São Paulo sobre as necessidades locais, tendo em vista a eleição municipal deste ano, cujo primeiro turno acontece neste domingo (15).

Uma das principais bandeiras da gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB), candidato à reeleição, a área da saúde responde por grande parte das reivindicações.

A construção de UBSs e a reabertura de complexos hospitalares são demandas nas periferias da Brasilândia (zona norte), Butantã (oeste) e Ermelino Matarazzo (leste).

Morador do Jardim Damasceno, na Brasilândia, o ambientalista Quintino José Viana, 75, espera há 37 anos pela construção de um posto de saúde no bairro.

“Nós indicamos um terreno que já está mapeado pela prefeitura. Em uma conversa com o secretário municipal de saúde [Edson Aparecido], ele me falou que está apurando uma empresa para fazer o projeto do posto", conta.

Também são reivindicadas as UBSs do Jardim Brasília e Jardim Elisa Maria, na mesma região. Em maio deste ano, o Hospital Municipal da Brasilândia foi inaugurado para atender à população com suspeita ou confirmação de Covid-19.

Na zona oeste, na Subprefeitura do Butantã, a educadora socioambiental Maria Angélica Oliveira, 52, diz que a demanda por uma UBS no bairro Conjunto Promorar Raposo Tavares é histórica. “Não se constrói uma unidade básica de saúde aqui há 25 anos."

Do outro lado na cidade, a população da Subprefeitura de Ermelino Matarazzo, na zona leste, cobra a reabertura do Hospital e Maternidade Menino Jesus.

O equipamento, de uso privado no passado, foi comprado pela gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT) em 2014 com a proposta de se tornar um Hospital Dia, vinculado à Rede Hora Certa —o que nunca ocorreu.

“Infelizmente nós já estamos no final do governo que sucedeu o Haddad e nada foi feito em relação ao Menino Jesus”, lamenta o professor Waldir Augusti, 57.

“No início do ano houve a proposta que ele fosse transformado em um hospital de acolhimento para pessoas com Covid-19, mas nem isso foi feito.” Na região, os moradores contam atualmente com o Hospital Municipal Ermelino Matarazzo.

Situação semelhante ocorre na Vila Carrão, pertencente à Subprefeitura de Aricanduva/Formosa/Carrão, também na zona leste. O distrito abriga a estrutura abandonada do antigo Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Fátima, popularmente conhecido como Hospital e Maternidade Vila Carrão.

A unidade também era um hospital particular que foi adquirido pela prefeitura em 2014 com a promessa de virar um complexo de saúde no ano seguinte, reunindo uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) 24 horas, um CER (Centro Especializado em Reabilitação) e um Hospital Dia.

“A comunidade precisa muito que ele seja reaberto. Era um hospital muito bom”, diz a analista de sistemas Mônica Lopes, 56. “A gente não tem um Hospital Dia por aqui. Quando eu preciso da Rede Hora Certa, eu tenho que ir até São Mateus."

Na zona norte de São Paulo, as fortes chuvas provocam enchentes há anos na Subprefeitura de Jaçanã/Tremembé sempre que o córrego Tremembé transborda.

“O córrego costuma alagar com frequência e fica impossível se locomover pelos bairros”, conta o estudante de marketing Daniel Teixeira, 27.

Em agosto deste ano, a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana concluiu as obras do piscinão R3 para a canalização do córrego.

No extremo leste, o problema com as cheias do córrego Itaim atinge bairros de duas subprefeituras vizinhas: Vila Aimoré, na Subprefeitura de São Miguel Paulista, e Vila Alabama, no Itaim Paulista.

“Quando chove eu não consigo dormir direito durante a noite porque toda hora eu acordo para ver se está entrando água dentro de casa”, relata Aparecida de Lourdes, 63, moradora da Vila Aimoré há mais de três décadas.

No local, as obras de um pôlder —estrutura que funciona como um muro de contenção— contra as enchentes do córrego Itaim começaram em 2017, em parceria com o Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica), do governo estadual. A primeira parte do pôlder foi entregue em dezembro de 2019.

Em julho, moradores protestaram após a prefeitura cancelar o repasse de R$ 8,4 milhões para obras antienchente na região.

Rua sem pavimentação em Parelheiros, na zona sul de São Paulo
Rua sem pavimentação em Parelheiros, na zona sul de São Paulo - Luana Nunes/Agência Mural

As dificuldades para se locomover pela cidade também são questões pendentes que se repetem nas subprefeituras.

Entre elas está a Estrada do M’Boi Mirim, uma das principais ligações na zona sul da capital entre os distritos de Jardim Ângela e Jardim São Luís —que compõem a Subprefeitura do M’Boi Mirim— e cidades da região metropolitana, como Itapecerica da Serra.

Moradores ouvem tradicionalmente que a via será duplicada, mas sem avanços. No começo do ano, o governo do estado anunciou que a obra sairia do papel, em parceria com a gestão municipal, mas até agora o assunto não avançou.

A gestão João Doria (PSDB) diz que TCE (Tribunal de Contas do Estado) pediu esclarecimentos sobre o edital e que aguarda um retorno do órgão para retomar o projeto estimado em R$ 446 milhões.

Embora não seja uma competência da administração municipal, o distrito do Grajaú, na zona sul, tem uma obra de expansão da linha 9-esmeralda da CPTM atrasada há cinco anos.

A entrega das estações Varginha e Mendes-Vila Natal deveria ocorrer em 2015, mas segundo o governo estadual, a previsão é que elas fiquem prontas somente em 2022.

O atraso de obras do Metrô também se converteu em dilemas frequentes para subprefeituras nas periferias.

Os moradores dos distritos de Brasilândia, Freguesia do Ó, Aricanduva e Vila Formosa aguardam pela entrega da linha 6-laranja e da expansão da linha 2-verde —ambas com previsão de conclusão em 2025.

Também existe o projeto do monotrilho da linha 17-ouro, que teve as obras iniciadas em 2012. A proposta é conectar a região do aeroporto de Congonhas à estação Morumbi da linha 9-esmeralda da CPTM.

Segundo o Metrô, o contrato para execução das obras está prestes a ser assinado, o que vai possibilitar a elaboração de um cronograma de conclusão dos trabalhos e entrega da linha. No plano original, o monotrilho sairia de Congonhas, atravessaria o rio Pinheiros, passaria pela região de Paraisópolis e do Morumbi e seria entregue a tempo da Copa do Mundo de 2014.

O que são as subprefeituras?

As subprefeituras (chamadas de “prefeituras regionais” de 2017 a 2018, na gestão Doria) foram implantadas a partir de 2002 pela lei nº 13.999, substituindo as antigas administrações regionais, criadas em 1965. Cada uma tem orçamento próprio anual e é responsável por atender às demandas locais, receber reclamações e realizar ações de zeladoria urbana. São administradas pelos subprefeitos, nomeados pelo prefeito

32 desafios em 32 subprefeituras

  • Vila Mariana, em uma região de classe média, tem 14 mil pessoas vivem na extrema pobreza
  • Itaim Paulista tem baixa disponibilidade de áreas verdes
  • Cidade Ademar conta com alto índice de gravidez na adolescência
  • Na Freguesia/Brasilândia, população pede a construção de mais postos de saúde
  • Moradores de Aricanduva/Carrão/Formosa aguardam novo hospital desde 2014
  • Por causa da falta de opções de transporte, Santo Amaro convive com trânsito pesado
  • Ermelino Matarazzo só tem um hospital público para mais de 200 mil moradores
  • Moradores do Ipiranga sofrem com a falta de vagas de trabalho
  • A tem os piores índices de violência de motivação homofóbica e transfóbica da cidade
  • No M'Boi Mirim, moradores do Jardim Ângela e Jardim São Luís aguardam duplicação da estrada homônima
  • São Miguel sofre com enchentes e acidentes de trânsito
  • Jaçanã/Tremembé tem diversas linhas, mas ônibus estão sempre lotados
  • Vila Prudente teme avanço da especulação imobiliária
  • Em Santana/Tucuruvi, faltam piscinões para combater alagamentos
  • Moradores da Penha reclamam de obras de saneamento que se arrastam há anos
  • Lapa precisa lidar com trânsito pesado e transtornos pós-eventos
  • Itaquera registra falta de zeladoria e acessibilidade; idosos vivem riscos
  • Em Parelheiros, falta pavimentação e saneamento
  • Pirituba convive com falta de espaços públicos de cultural
  • Bom para compras, o Brás, parte da Mooca, não tem estruturas de lazer e cultura para os moradores
  • São Mateus não tem um cinema ou teatro sequer
  • Butantã convive com contrastes entre áreas ricas e ocupações por moradia
  • Casa Verde/Cachoeirinha tem os piores índices de acesso a consultas de pré-natal na capital
  • Jabaquara se destaca em transporte, mas sofre com esgoto a céu aberto
  • Com problemas de mobilidade, Grajaú, parte da Capela do Socorro, tem obra da CPTM atrasada desde 2015
  • Moradores da Vila Maria/Vila Guilherme reclamam da falta de hospitais
  • Guaianases tem diversidade e cultura pujantes, mas falta acessibilidade
  • Pinheiros tem 6.000 pessoas vivendo na pobreza e convive com poluição sonora
  • Perus sofre com enchentes e não tem nenhum hospital
  • Moradores de Cidade Tiradentes levam até três horas para chegar ao trabalho
  • Sapopemba é a subprefeitura com o menor orçamento na cidade
  • No Capão Redondo, parte do Campo Limpo, descarte irregular de lixo é um dos maiores problemas
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