Veto à 'chinesa', 'dia D', 'vacina do Brasil'; veja vaivém de Bolsonaro e Pazuello na imunização contra Covid

Governo federal perdeu queda de braço com João Doria pelo início da aplicação de doses

São Paulo

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou neste domingo (17) o uso emergencial das vacinas Coronavac e Oxford/AstraZeneca. Em seguida, pouco mais de cem pessoas foram vacinadas no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, na presença do governador João Doria (PSDB-SP).

Na sexta (15), o Ministério da Saúde solicitou a entrega imediata de 6 milhões de doses da Coronavac e disse que o governo de São Paulo não poderia separar a quantidade que seria destinada ao estado no plano nacional de imunização contra a Covid-19. Segundo a pasta, cabe a ela o plano de operacionalização.

Antes mesmo da decisão da agência, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, havia assinado em outubro protocolo de intenções para adquirir 46 milhões de doses da Coronavac, parceria do Instituto Butantan com a farmacêutica chinesa Sinovac. Em rede social, Jair Bolsonaro (sem partido) afirmou, no entanto, que não compraria o imunizante chinês. "Tudo será esclarecido hoje. Tenha certeza, não compraremos vacina chinesa. Bom dia", disse em resposta a um internauta.

Apesar de o presidente ter negado a compra do imunizante, em sua primeira manifestação sobre o aval da Anvisa ele afirmou, nesta segunda-feira (18), que a vacina pertence ao Brasil. "Então está liberada a aplicação no Brasil. E a vacina é do Brasil, não é de nenhum governador não, é do Brasil", disse, em referência a Doria, seu principal adversário durante a crise sanitária.

Bolsonaro tem minimizado a pandemia do coronavírus desde seu início e colocado em dúvida a eficiência dos imunizantes. Já as falas de Pazuello foram marcadas por idas e vindas em relação ao início da vacinação, com críticas sobre a condução da crise pela pasta.

Relembre, abaixo, episódios que terminaram na derrota do governo federal na corrida pela vacina.

"Vacina do Butantan será vacina do Brasil" (20.out.20)

"A vacina do Butantan será vacina do Brasil", disse Pazuello em reunião com governadores em que anunciou a compra de 46 milhões da Coronavac. "O Butantan já é o grande fabricante de vacinas para o Ministério da Saúde, produz 75% das vacinas que nós compramos."

"Não será comprada" (21.out.20)

Bolsonaro desautorizou o ministro da Saúde, que havia anunciado acordo com São Paulo para a compra de doses da Coronavac.

Ao responder ao comentário de um internauta que pediu que a vacina não fosse comprada porque ele tem 17 anos e diz querer ter "um futuro, mas sem interferência da ditadura chinesa", Bolsonaro negou a compra.

"NÃO SERÁ COMPRADA", escreveu Bolsonaro em letras maiúsculas.

"Qualquer vacina, antes de ser disponibilizada à população, deverá ser COMPROVADA CIENTIFICAMENTE PELO MINISTÉRIO DA SAÚDE e CERTIFICADA PELA ANVISA" e que "o povo brasileiro NÃO SERÁ COBAIA DE NINGUÉM", acrescentou.

Não transmite segurança (21.out.20)

"Da China nós não comparemos, é decisão minha. Eu não acredito que ela [vacina] transmita segurança suficiente para a população pela sua origem", declarou o presidente, em entrevista à rádio Jovem Pan, em referência à Coronavac.

Testes suspensos (10.nov.20)

Em novembro, a Anvisa suspendeu os testes da Coronavac devido à morte de um dos voluntários, que não teve relação com a vacina, Bolsonaro escreveu nas redes: "Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar todos os paulistanos a tomá-la. O presidente [Bolsonaro] disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha".

Bate-boca entre Pazuello e Doria (8.dez.20)

Em encontro virtual tenso com governadores, Pazuello bateu boca com Doria, sobre o que o tucano qualificou de falta de interesse do governo federal na Coronavac,

Na época, o ministro afirmou que a Anvisa levaria 60 dias para aprovar o uso de qualquer vacina contra a Covid-19.

O ministro provocou o tucano, que na véspera apresentara um plano de imunização com início de 25 de janeiro: "Tentar acelerar é justo, mas não podemos abrir mão de segurança e eficácia. Nós é que seremos responsabilizados por nossos atos", afirmou.

Além disso, afirmou: "Não é com o Butantan, é com todas as vacinas". Houve réplica de Doria, e o general subiu o tom também. "Não sei como o senhor fala tanto que ela é do estado. Ela é do Butantan". E repetiu que ela seria estudada se houver "demanda e preço".

"Virar um jacaré" (17.dez.20)

Em discuro em Porto Seguro (BA), Bolsonaro afirmou que não tomaria a vacina.

“Ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina. Eu não vou tomar. Eu já tive o vírus. Já tenho anticorpos. Para que tomar vacina de novo?”, questionou.

O presidente disse ainda que a Pfizer, uma das fabricantes mundiais de vacina contra a doença, não se responsabiliza por efeitos colaterais. “Se tomar e virar um jacaré é problema seu. Se virar um super-homem, se nascer barba em mulher ou homem falar fino, ela [Pfizer] não tem nada com isso”, afirmou.

"Dia D" (11.jan.21)

"A vacina vai começar no dia D, na hora H no Brasil. No primeiro dia que chegar a vacina, ou que a autorização for feita [pela Anvisa], a partir do terceiro ou quarto dia já estará nos estados e municípios para começar a vacinação no Brasil. A prioridade está dada, é o Brasil todo. Vamos fazer como exemplo para o mundo", afirmou Pazuello em visita a Manaus.

Atraso na vacina de Oxford (15.jan.21)

Bolsonaro admitiu, em entrevista à Band, que a operação para trazer doses da Índia seria atrasada.

"Foi tudo acertado para disponibilizar 2 milhões de doses [da vacina Oxford/AstraZeneca]. Só que hoje, neste exato momento, está começando a vacinação na Índia, um país de 1,3 bilhão de habitantes. Então resolveu-se aí, não foi decisão nossa, atrasar um ou dois dias até que o povo comece a ser vacinado lá, porque lá também tem pressões políticas de um lado e de outro. Isso daí, no meu entender, daqui dois, três dias no máximo nosso avião vai partir e vai trazer essas 2 milhões de vacinas para cá"​, afirmou.

Doria "desmoralizado" (15.jan.21)

Na mesma entrevista, falou sobre a eficácia geral da Coronavac —50,35%, acima, portanto, dos 50% requeridos universalmente— e atacou o governador paulista.

"Vou tomar tempo dessas pessoas para fazer uma ação contra esse cara de São Paulo que foi desmoralizado pela baixa taxa de sucesso na sua vacina, que ele tanto defendeu", disse, ao ser questionado se processaria Doria por ter sido chamada de facínora.

Retorno da "vacina do Brasil" (18.jan.21)

Ao romper o silêncio sobre a aprovação dos imunizantes pela Anvisa, Bolsonaro afirmou que a Coronavac é "vacina do Brasil", em crítica a Doria.

"Então está liberada a aplicação no Brasil. E a vacina é do Brasil, não é de nenhum governador não, é do Brasil", disse em conversa com apoiadores na entrada do Palácio da Alvorada.

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