Articulação do Planalto para CPI tem disputa entre ministros e deixa minoria governista sem munição

Parlamentares têm recebido informações trocadas sobre quem coordena a operação no governo federal sobre a comissão

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Ativistas fazem protesto contra o governo federal e denunciam os mais de 400 mil mortos pela pandemia da Covid-19 no Brasil, marca atingida nesta quinta-feira (29)

Ativistas fazem protesto contra o governo federal e denunciam os mais de 400 mil mortos pela pandemia da Covid-19 no Brasil, marca atingida nesta quinta-feira (29) Pedro Ladeira/Folhapress

Brasília

A articulação do Palácio do Planalto para blindar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na CPI da Covid se tornou palco de disputa entre ministros palacianos. Além disso, senadores governistas têm ficado desabastecidos de informações para usar como arma contra a maioria do colegiado.

Apesar de a coleta e tabulação de dados estar mobilizando servidores de Casa Civil, Secretaria de Governo, Secretaria-Geral e Secom (Secretaria de Comunicação), senadores se queixam de não estarem sendo municiados com dados para atuar nas sessões da comissão parlamentar de inquérito.

Por enquanto, o senador Marcos Rogério (DEM-RO) minimiza a relevância da falta de dados. "Até agora, não foram encaminhadas informações porque não começou [a fase de depoimentos]. O governo tem que estar pronto para levantar informações e entregar. Se agiu corretamente, não há o que temer."

Um outro integrante da tropa de choque de Bolsonaro na CPI disse reservadamente à reportagem que a ausência do governo vem desde o início, quando da indicação dos membros pelos partidos que deixou a defesa do Executivo com apenas 4 das 11 vagas de titular na comissão.

Um parlamentar disse que ainda não ocorreu uma reunião entre todos os senadores governistas da CPI e os ministros palacianos, apenas conversas individuais, enquanto a maioria crítica ao governo na comissão faz encontros frequentes —na quinta-feira (29), por exemplo, ocorreu um no apartamento do senador Eduardo Braga (MDB-AM).

A CPI EM CINCO PONTOS

  • Foi criada após determinação do Supremo ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG)

  • Investigará ações e omissões de Bolsonaro na pandemia e repasses federais a estados e municípios

  • Terá um prazo inicial (prorrogável) de 90 dias para realizar procedimentos de investigação

  • Relatório final será encaminhado ao Ministério Público para eventuais criminalizações

  • É formada por 11 integrantes, com minoria de senadores governistas

Assessores da Secretaria de Governo e ministros têm procurado os senadores para se colocar à disposição, mas também há relatos de ruídos provocados pela disputa entre os ministros Onyx Lorenzoni (Secretaria-Geral) e Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil).

A relação dos dois não é boa desde o início do ano passado. Auxiliares civis do presidente atribuem ao general Ramos, então titular da Secretaria de Governo, a saída de Onyx da Casa Civil no início de 2020.

À época, a Casa Civil foi ocupada por um militar, o general Walter Braga Netto, agora titular do Ministério da Defesa.

No fim de fevereiro deste ano, Onyx foi empossado ministro da Secretaria-Geral. Ao retornar a um gabinete no Planalto, ficou evidente para servidores que a mágoa com Ramos ainda não foi sanada, e os dois travam uma disputa de poder e influência.

Alheia à briga, está a ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda, estreante no Executivo que, até a semana passada, trabalhava na costura de um acordo entre o Congresso e Bolsonaro que permitisse a sanção do Orçamento 2021.

Convocados na CPI da Covid

  • Luiz Henrique Mandetta (terça-feira, 04.05)

  • Nelson Teich (terça-feira, 04.05)

  • General Eduardo Pazuello (quarta-feira, 05.05)

  • Marcelo Queiroga (quinta-feira, 06.05)

  • Antonio Barra Torres (quinta-feira, 06.05)

Enquanto isso, servidores do Planalto levantam pontos sensíveis, elaboram estratégias e elencam nomes para serem oferecidos como sugestão de convocação para os senadores que estão na CPI.

Pouco disso, porém, chegou aos parlamentares. Há queixas de que não houve nem mesmo ajuda na avaliação dos mais de 200 requerimentos e o clima é de barata-voa, como definiu mais de um governista.

Na avaliação de congressistas e assessores do próprio governo, a falta de apoio é extremamente prejudicial porque, não bastasse a tropa de choque ser minoria no colegiado, à exceção do senador Ciro Nogueira (PP-PI), os outros três são senadores de primeiro mandato.

Nesta primeira semana de CPI, foi necessária a intervenção de dois não-membros do colegiado.

Filho do presidente da República, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) fez um desabafo na sessão inaugural da comissão. Ele criticou duramente o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), por ter criado a CPI da Covid durante a pandemia.

"Rodrigo Pacheco está errando, está sendo irresponsável, porque está assumindo a possibilidade de durante os trabalhos dessa CPI acontecerem mortes de senadores, assessores, morte de funcionários, porque em algum momento a sessão vai ter que ser presencial", afirmou.

O filho mais velho do presidente disse também que o governo se preocupa com a população brasileira durante a pandemia e que a CPI vai atrapalhar as ações de enfrentamento. Afirmou ainda que a população vai julgar quem "subir nos caixões dos quase 400 mil mortos" para fazer política.

Os colegas de Flávio dizem preferir que ele não atue muito no colegiado para que a presença do filho do presidente não contamine ainda mais o ambiente.

Os senadores afirmaram à Folha ainda não terem entendido qual será o papel do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), na comissão, mas dizem que a presença dele nas reuniões é importante para fazer um contraponto diante de seu partido, que tem dois críticos da gestão Bolsonaro como membros da CPI —Eduardo Braga e o relator, Renan Calheiros (MDB-AL).

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