Em busca de vitrines além da vacina, Doria destrava obras, mas descumpre promessas

Projetos como Rodoanel e Tamoios falham; governador retoma obras do metrô, em meio a desejo de disputar a Presidência

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Duplicação da rodovia dos Tamoios, iniciada em 2013, segue com problemas

Duplicação da rodovia dos Tamoios, iniciada em 2013, segue com problemas Bruno Santos/Folhapress

São Paulo

Pressionado à esquerda por Lula (PT) e à direita por Jair Bolsonaro (sem partido) em sua intenção de concorrer à Presidência em 2022, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), tenta emplacar uma vitrine eleitoral variada —que vá além da vacina contra a Covid-19.

Caso seja candidato a presidente, Doria terá que deixar o cargo em abril de 2022. Resta ao tucano apenas um ano de mandato para deixar outras marcas. Até agora, ele conta com imbróglios históricos destravados, mas também com uma série de promessas não cumpridas.

​​Enquanto se projetou pelo país após viabilizar a vacinação pelo Instituto Butantan, o governador paulista viu suas metas no estado, como obras viárias e privatizações, atrasarem, emperrarem e sofrerem mudanças.

A busca pela agenda robusta serve ao sonho de concorrer ao Planalto, apesar da dificuldade em ser aceito entre o eleitorado e mesmo entre membros do PSDB. Mas um saldo político positivo é importante também no caso de disputar a reeleição, que Doria já admite, ou para emplacar como sucessor o vice, Rodrigo Garcia (DEM).

A vacinação e as ações de combate à pandemia são de longe a principal aposta de Doria para conquistar o eleitor, até porque grandes obras prometidas, como rodovias e linhas de metrô, seguem se arrastando e boa parte não deve ser entregue neste mandato.

Projetos como o Rodoanel Norte, os contornos e a duplicação da Tamoios , a ponte Santos-Guarujá e a linha 18-bronze do metrô, que foi engavetada na gestão Doria para dar lugar ao BRT (tampouco em construção ainda), passam longe das promessas feitas em 2018 pelo tucano, de entregar, retomar ou iniciar essas obras.

Nesse sentido, Doria não escapou dos atrasos e paralisações que marcam as gestões tucanas na área de mobilidade. A duplicação da Tamoios, por exemplo, foi prometida para 2020, mas a perspectiva atual é fevereiro de 2022, enquanto o modelo para retomar os contornos da rodovia ainda deve ser anunciado neste semestre —o último prazo para o retorno das obras era março, o que não foi cumprido.

Símbolo de corrupção em governos do PSDB e protagonista entre as metas de Doria, o Rodoanel Norte (44 km) não vai ficar pronto nesta gestão, como revelou a Folha, após uma série de adiamentos e a suspensão de uma licitação pelo TCE (Tribunal de Contas do Estado).

A conclusão do Rodoanel se arrasta há mais de 20 anos. A ideia anterior era retomar as obras em fevereiro passado e inaugurar ao menos um trecho até agosto de 2022. Agora, com um novo modelo de concessão, a previsão é de assinatura de contrato até o fim do ano e entrega de parte das obras um ano depois.

Como forma de compensação, Doria aposta num pacote de recuperação de estradas vicinais, o que lhe dá visibilidade política no interior, além de acionar prefeitos e deputados como cabos eleitorais na inauguração das obras.

Apesar de serem considerados prioridades, esses projetos sofrem com falta de verba. Em 2020, mais de 95% da verba prevista com Rodoanel, contornos da Tamoios e vicinais não foram executados. No Orçamento de 2021, o projeto das vicinais teve um corte previsto de 45%.

Ainda assim, para secretários do governo paulista, Doria tem entregas relevantes em diferentes pastas e está credenciado para concorrer à Presidência. Os auxiliares afirmam que o tucano mira um legado de longo prazo acima do benefício eleitoral.

"Considero João Doria o principal quadro do centro democrático para a retomada do Brasil", afirma o secretário de Desenvolvimento Regional Marco Vinholi, que também é presidente estadual do PSDB.

Entre os projetos lembrados pelos auxiliares estão o Vale do Futuro, de desenvolvimento econômico no Vale do Ribeira; a inauguração de batalhões da PM e a entrega de novas armas e viaturas; a concessão do lote Piracicaba-Panorama, com 1.273 km de rodovias; e a reabertura do Museu do Ipiranga, prevista para setembro de 2022.

Desde o início do mandato, Doria tem adotado o estilo de explorar eleitoralmente suas inaugurações por meio de anúncios (não só das entregas em si, mas antes, dos projetos), entrevistas à imprensa e viagens —o que turbina sua agenda pública. No caso da vacina, inovou no marketing com teaser e interações no Twitter.

Aliados do governador afirmam que ele encerrará o mandato visto como "alguém que resolveu", com obras concluídas e outras em andamento, o que irá alimentar a imagem de trabalhador que ele cultiva.

Questionado pela Folha sobre as marcas e prioridades para a eleição de 2022, Garcia, que é também secretário de Governo, afirmou que a gestão será conhecida por ter viabilizado a vacinação e apontou a questão do emprego e da renda como central para o próximo ano.

"A implementação do Plano SP permitiu que a economia paulista não parasse mesmo com as medidas restritivas de isolamento social. O governo é comprometido com o enxugamento da máquina pública e com as parcerias da iniciativa privada, atraindo investimentos que geram empregos e crescimento econômico", disse.

Espécie de gerente de Doria e também interessado em apresentar uma plataforma eleitoral, Garcia é quem controla a execução dos projetos da gestão.

Para obter marcas e vitrines em 2022, Doria fez promessas em relação a projetos historicamente travados, o que pode vir a cobrar seu preço em alfinetadas de adversários e ceticismo de eleitores.

A gestão anunciou a implantação do trem expresso até Campinas, ideia que já completou 17 anos sem sair do papel. O secretário de Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, afirma que a operação pode começar em 2022.

Outra meta ambiciosa de Doria exposta na eleição passada foi a de melhorar a qualidade das águas dos rios Tietê e Pinheiros. Ao menos em relação ao segundo, o objetivo do Novo Rio Pinheiros é entregar até 2022 o rio sem odor e com parque linear, ciclovia, além de área com cafés e restaurantes.

Já outras promessas de Doria nessa área estão distantes, como a de implantar transporte turístico e de cargas nos rios Pinheiros e Tietê. ​

No balanço geral de grandes empreendimentos, Doria tem avanços a apresentar. Sua gestão se propôs, ainda no primeiro ano, em 2019, a destravar obras faraônicas e conseguiu fazer andar algumas delas, como as linhas 5-lilás (extensão até o Jardim Ângela) e 6-laranja do metrô.

Nenhuma das duas, porém, deve servir para atrair eleitores —a linha 6 está prevista para 2025, com geração de 9.000 empregos apenas no ápice, em 2024. Já a extensão da linha 5 foi anunciada no mês passado e só o prazo dos estudos é de 24 meses.

O mesmo pode ser dito da extensão da linha 2-verde, que Doria prometeu levar até Guarulhos em seu mandato, mas entregará em obras, com perspectiva de inauguração em 2026. A gestão, contudo, conseguiu viabilizar o projeto que estava parado.

A pasta de Baldy promete ainda entregar em pleno funcionamento os monotrilhos 17-ouro e 15-prata, linhas que também dependem de obras.

Para o secretário dos Transportes Metropolitanos, os dois monotrilhos em operação e as linhas 6, 5 e 2 com canteiros em atividade pela cidade são um bom cartão de visita na área da mobilidade. Baldy afirma ainda que todos os projetos mapeados pelo governo tiveram andamento, mas a entrega de parte deles ultrapassa o período de um mandato.

​Já outras propostas não devem sair do papel na gestão Doria por estarem travadas no governo federal. A disputa política entre o governador e Bolsonaro atrasou a ponte Santos-Guarujá, o transporte da CPTM ao aeroporto de Guarulhos e a construção de piscinão na Grande SP, além de outras cinco obras.

Segundo o TCE, o estado tem 620 obras paralisadas e 519 atrasadas, num valor total de R$ 46,3 bilhões.

Para Rafael Calabria, coordenador do programa de mobilidade urbana do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), grandes obras custam a ser concretizadas porque são ancoradas em concessões e empréstimos, modelo que Doria adotou de maneira mais agressiva, mas que foi ineficiente em muitos casos, repetindo gestões tucanas passadas.

Calabria afirma que mobilidade é um ponto fraco de Doria e lista entre as principais vidraças a linha 18 e a extinção da EMTU.

"Não tem como fazer a mesma coisa e esperar um resultado diferente. Doria vem dessa linha de investimento com retorno, financerista, de querer conceder sem preocupação com a qualidade, mas em reduzir custos. O Brasil precisa criar uma espécie de fundo para viabilizar obras importantes", diz.

Colaborou Klaus Richmond, de Santos

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