Bolsonaro blindado, vacinas da Pfizer e crise em Manaus; veja sete pontos da fala de Pazuello na CPI

Ex-ministro mentiu em ao menos quatro vezes durante depoimento

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São Paulo e Brasília

No depoimento mais aguardado até aqui da CPI da Covid no Senado, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello buscou em diferentes momentos blindar o presidente Jair Bolsonaro.

O general evitou nesta quarta-feira (19) atribuir ao presidente a responsabilidade pelas decisões no enfrentamento da pandemia do coronavírus, inclusive negando tentativa de interferência do chefe do Executivo para ampliar o uso da hidroxicloroquina —questão apontada à CPI pelos seus dois antecessores no cargo.

A sequência do depoimento de Pazuello à CPI reforçou as acusações de omissão do governo federal para enfrentar o colapso do sistema de saúde no Amazonas, durante a primeira e a segunda ondas da pandemia do novo coronavírus.

Durante a sessão desta quinta-feira (20), o presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), também solicitou que um relatório parcial das investigações seja concluído pelo relator, o senador Renan Calheiros (MDB-AL). O texto vai englobar a apuração dos 30 primeiros dias de atividades da comissão.

Veja, abaixo, sete pontos do depoimento.

Bolsonaro blindado

Pazuello evitou atribuir ao presidente a responsabilidade pelas decisões no enfrentamento da pandemia inclusive negando tentativa de interferência do chefe do Executivo para ampliar o uso da hidroxicloroquina —questão apontada à CPI pelos seus dois antecessores no cargo.

O general afirmou que nunca recebeu ordens específicas de Bolsonaro nem mesmo a respeito da hidroxicloroquina. "Em hipótese alguma. O presidente nunca me deu ordens diretas para nada", respondeu a Renan Calheiros (MDB-AL), relator.

Pazuello também buscou tirar o foco da comissão dos filhos do presidente. Em depoimentos anteriores, surgiram indícios de um "ministério paralelo" para aconselhar Bolsonaro na pandemia, fora da estrutura do Ministério da Saúde.

"Não havia nenhuma influência dos três filhos políticos do presidente e volto a colocar: Eu achava que eu ia me encontrar mais com eles, tanto com o próprio presidente, mas não houve isso", afirmou.

Pazuello disse que nunca recebeu ordens de Bolsonaro para não comprar a vacina Coronavac, produzida pelo Butantan e alvo de disputa do governo federal com o governador João Doria (PSDB), de São Paulo.
A fala de Pazuello contraria vídeos públicos do próprio presidente que havia mandado cancelar acordo de intenção de compra.

Em outubro, por exemplo, o Ministério da Saúde anunciou que compraria 46 milhões de doses da Coronavac. No dia seguinte, o presidente falou a apoiadores que não iria comprar, e a pasta voltou inicialmente atrás na negociação.

"Vou explicar para o senhor: uma postagem na internet não é uma ordem. Uma ordem é uma ordem direta verbal ou por escrito. Nunca foi dada. Nunca", afirmou Pazuello à CPI.

Em entrevista a jornalistas durante a pausa na sessão, Renan afirmou que ficou claro que Pazuello estava blindando Bolsonaro. "Foi tudo que ele tentou fazer, inclusive divagando, faltando com objetividade nas respostas das perguntas que fazíamos", disse.

Consórcio de vacinas

Pazuello afirmou que o Brasil só adquiriu junto ao consórcio Covax Facility vacinas para apenas 10% da população porque o "risco era muito grande". "A Covax Facility não nos dava nem data, nem cronograma e nem garantia de entrega", afirmou o general.

O ex-ministro também afirmou que o preço inicial das vacinas era muito alto, em torno de US$ 40 a dose, que acabou caindo posteriormente para US$ 10. "Quem responde a órgãos de controle não pode achar que o preço é irrelevante", afirmou. O Brasil adquiriu 42 milhões de doses junto ao Covax Facility.

Bate-boca com senadores

Houve momentos de tensão. Pazuello entrou em bate-boca com senadores da CPI depois de subir o tom ao ser indagado pelo relator sobre a demora na negociação das vacinas com a Pfizer.

Pazuello se irritou ao dizer que não poderia participar diretamente das reuniões com a empresa e disse que Renan "sabe disso".

O general chegou a pedir que perguntas simplórias não fossem feitas a ele durante a oitiva, após ser alertado pelo relator de que alguns questionamentos eram mais diretos, portanto desejava que as respostas também fossem dessa forma.

Nesse momento, acabou repreendido pelo presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM). "Vossa Excelência não vai dizer o que temos de perguntar ou não", rebateu o presidente da comissão.

Vacinas da Pfizer

Pazuello afirmou que não se reuniu com funcionários da Pfizer para negociar vacinas porque "ministro não pode receber as empresas". Porém ele se encontrou com o empresário Carlos Wizard, principal defensor da vacinação privada.

Ele disse à CPI que o empresário era um amigo pessoal a quem vem "ouvindo de maneira informal ao longo da vida" e que o ajudou durante um mês no ministério, sem remuneração.

Pazuello também afirmou que TCU (Tribunal de Contas da União), CGU (Controladoria-Geral da União), AGU (Advocacia-Geral da União) e "todos os órgãos de controle" disseram que a proposta da Pfizer para o fornecimento de 8,5 milhões de doses no primeiro semestre não deveria ser assinada. "Mandamos para os órgãos de controle, a resposta foi: não assessoramos positivamente. Não deve ser assinado", disse.

Porém, em nota, o TCU negou a afirmação e disse que "em nenhum momento seus ministros se posicionaram de forma contrária à contratação da empresa Pfizer para o fornecimento de vacinas contra a Covid, e tampouco o tribunal desaconselhou a imediata contratação em razão de eventuais cláusulas contratuais".

O ex-ministro também contrariou informações divulgadas à CPI pelo ex-secretário de Comunicação da Presidência Fabio Wajngarten e pelo gerente-geral da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, em relação à oferta de vacinas.

Pazuello afirmou que a carta com oferta de vacinas da empresa não permaneceu parada por dois meses. Afirmou que a negociação se deu a todo momento e que há documentação no Ministério da Saúde que comprova esses contatos.

Crise em Manaus

Sobre a iminência da falta de oxigênio em Manaus, o general disse que só foi informado no dia 10 de janeiro deste ano à noite. Porém ele admitiu no dia 18 de janeiro que soube da possibilidade no dia 8 de janeiro, uma semana antes do dia mais grave de mortes por asfixia em leitos do estado.

"No dia 8 de janeiro, nós tivemos a compreensão, a partir de uma carta da White Martins, de que poderia haver falta de oxigênio se não houvesse ações para que a gente mitigasse este problema", disse Pazuello em uma entrevista em que respondeu perguntas de apenas quatro jornalistas em janeiro.

Senador pelo Amazonas, Eduardo Braga (MDB) rebateu o ex-ministro, afirmando que mortes por falta de oxigênio foram registradas até o fim do mês.

Na segunda parte do depoimento, nesta quinta-feira (20), Pazuello afirmou que a decisão de não intervir na saúde amazonense em abril do ano passado não foi dele, e sim tomada em uma reunião ministerial, com a presença de Bolsonaro.

"Foi levado à reunião de ministros com o presidente. E o governador, presente, se explicou, apresentou suas observações. E foi decidido pela não intervenção. Foi dessa forma que aconteceu", completou.

Em relação à crise posterior no Amazonas, em janeiro deste ano, Pazuello se eximiu de responsabilidades pelos problemas, principalmente pela falta de oxigênio, que resultou em mortes por asfixia. O general disse que a responsabilidade pela aquisição dos insumos e suprimento dos cilindros era do governo local e também culpou a empresa fornecedora.

Ele manteve a versão de que só ficou sabendo do problema na noite do dia 10 de janeiro.

Ao ser confrontado com um documento oficial, encaminhado pelo Ministério da Saúde para a Câmara, de que teria tratado de oxigênio no dia 7 do mesmo mês, Pazuello afirmou que conversou sobre o tema, mas com uma perspectiva diferente, sobre transporte de tubos de oxigênio.

Posições de Bolsonaro

Em alguns momentos do depoimento nesta quinta, o general tentou se descolar do presidente, afirmando não concordar com algumas de suas posições, em especial em relação à hidroxicloroquina.

"Na minha visão, as ações dele não mudaram a minha visão. Eu não fiz e não faria e não deixei fazer. Se aconteceu em outro nível do ministério, foi sem a minha autorização. Eu não concordo com isso. Eu não comprei nenhuma grama de hidroxicloroquina, não fomentei o uso", completou, afirmando que apenas distribuiu o medicamento pedido.

Aplicativo TrateCov

Também nesta quinta, outro assunto foi o aplicativo criado pelo governo que receitava hidroxicloroquina até para bebês e é um dos pontos mais polêmicos da gestão Pazuello, sendo um dos motivos pelo qual ele é alvo de inquérito.

O ex-ministro afirmou que o aplicativo TrateCov foi divulgado em fase de protótipo e que acabou hackeado, sendo colocado indevidamente no site do Ministério da Saúde. "No dia que descobrimos que foi hackeado, eu mandei tirar do ar imediatamente"

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