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Ao lado de Pazuello, Bolsonaro gera aglomeração no Rio após dizer que teve sintomas de Covid

Ex-ministro da Saúde, sem máscara, participa de ato em que presidente volta a criticar medidas restritivas para frear pandemia

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Aglomeração de pessoas saúda motociclistas, com caminhonete branca à frente

O presidente Jair Bolsonaro (ao centro) faz passeio de moto com aglomeração no Rio de Janeiro neste domingo (23) Pilar Olivares/Reuters

Rio de Janeiro

Três dias após dizer em live que voltou a ter sintomas da Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) gerou nova aglomeração durante passeio de moto neste domingo (23) no Rio de Janeiro. A prefeitura da cidade estimou que participariam do evento de 10 mil a 15 mil pessoas.

Sem máscara, o ex-ministro da Saúde general Eduardo Pazuello também esteve presente ao lado de Bolsonaro em cima de um carro de som.

Em discurso ao final do passeio, o presidente criticou as medidas restritivas adotadas para conter a pandemia da Covid-19 e disse que pode tomar “todas as medidas necessárias” para garantir a liberdade da população.

Sem máscara, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello participa de ato em apoio a Bolsonaro neste domingo (23) com motociclistas no Rio de Janeiro
Sem máscara, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello participa de ato em apoio a Bolsonaro neste domingo (23) com motociclistas no Rio de Janeiro - Reprodução

Bolsonaro tem ameaçado publicar uma norma para impedir que gestores locais fechem o comércio ou limitem a atividade econômica durante a crise sanitária. Ele também voltou a usar a expressão “meu Exército”, que gerou incômodo anteriormente entre militares.

“Meu Exército jamais irá às ruas para manter vocês dentro de casa [...] Nosso Exército são vocês. Mais importante do que os Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo, é o poder do povo brasileiro”, afirmou.

O presidente também voltou a atacar governadores e prefeitos, afirmando que eles ignoraram a maioria da população ao, sem comprovação científica, decretar lockdown. As medidas restritivas, na verdade, foram adotadas de acordo com a avaliação de comitês científicos e estudos que indicam que o distanciamento social é necessário para frear a disseminação do novo coronavírus.

Ameaçado pela volta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à corrida eleitoral de 2022, Bolsonaro aproveitou para criticar Fernando Haddad, candidato petista por ele derrotado em 2018. “Imagine se o poste tivesse sido eleito presidente, como estaria nosso Brasil no dia de hoje."

Bolsonaro também esteve acompanhado pelo ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, e voltou a sugerir que ele pode ser candidato ao Governo de São Paulo em 2022. "Vai fazer uma limpeza em São Paulo ou não vai? Acho que o pessoal de São Paulo vai ser premiado com o Tarcísio", disse.

Como já ocorreu em outros atos bolsonaristas, a imprensa voltou a ser alvo de hostilidade neste domingo. O repórter da CNN Brasil Pedro Duran foi xingado de “lixo” por dezenas de manifestantes e teve que ser escoltado por policiais militares. Ele deixou o local em uma viatura da PM.

Um vídeo da cena foi divulgado em redes sociais pelo vereador Douglas Gomes (PTC), de Niterói (RJ), que endossou o ataque dos manifestantes.

A CNN Brasil emitiu nota em que afirmou repudiar veementemente qualquer tipo de agressão.

"Acreditamos na liberdade de imprensa como um dos pilares de uma sociedade democrática. Os jornalistas têm o direito constitucional de exercer sua profissão de forma segura, para noticiarem fatos, dentro dos princípios do apartidarismo e da independência", afirmou a emissora.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro e a Federação Nacional dos Jornalistas, em comunicado, pediram respeito aos jornalistas e à liberdade de imprensa.

As entidades classificaram o episódio como "mais uma manifestação de truculência, intransigência, absoluto desrespeito com a atividade jornalística e a liberdade de imprensa e de expressão".

A nota lembrou o relatório da Fenaj que apontou o aumento de 168% nos casos de agressões a jornalistas no país em 2020, por influência de ações de Bolsonaro e apoiadores. "Os ataques que profissionais de imprensa vêm sofrendo por parte de grupos de apoiadores do presidente passaram a ser frequentes e, lamentavelmente, são alimentados pela pessoa que ocupa o mais alto cargo da nação", disseram.

O sindicato e a Fenaj afirmaram ainda que, "diante dos graves fatos", cobram das autoridades locais "as providências necessárias no sentido de punir os responsáveis pela manifestação, que desrespeitou todas as medidas sanitárias de combate à pandemia e pôs em risco a vida de milhares de cidadãos cariocas".

A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) se solidarizou com o jornalista da CNN e disse, em nota, que a hostilidade o impediu de realizar a cobertura do evento.

"A intimidação de repórteres por políticos e militantes ligados a Jair Bolsonaro tem como objetivo impedir a cobertura de fatos de interesse público e, portanto, é uma violação à liberdade de imprensa", afirmou.

Para a Abraji, "tal comportamento é incentivado pelo presidente da República, que frequentemente propaga teorias conspiratórias, ofensas e discursos estigmatizantes contra jornalistas".

"A obstrução do trabalho da imprensa é antidemocrática e se espera dos Poderes Legislativo e Judiciário uma posição firme em defesa dos direitos humanos e da civilidade na convivência entre cidadãos de diferentes opiniões", concluiu.

O presidente chegou ao Parque Olímpico da Barra da Tijuca, zona oeste, por volta das 9h30. Lá, sem máscara, cumprimentou apoiadores que o aguardavam.

Na última quinta-feira (20), Bolsonaro afirmou que poucos dias antes havia se sentido mal e tomado cloroquina, medicamento comprovadamente ineficaz no tratamento da Covid e associado a efeitos adversos. Ele também disse que seu exame deu negativo —o que não exclui a possibilidade de que estivesse infectado.

Decreto em vigor do Governo do Rio de Janeiro prevê o uso obrigatório de máscara em qualquer ambiente público, assim como distanciamento mínimo de 1,5 metro. Já o decreto da Prefeitura do Rio mantém proibida a realização de eventos em áreas públicas.

A Folha questionou se a prefeitura multaria os participantes do evento por desrespeito às normas em vigor, mas não obteve resposta. O governo de Cláudio Castro (PSC), aliado de Bolsonaro, respondeu que a fiscalização de eventos durante a pandemia é de competência das vigilâncias sanitárias municipais.

De máscara, Castro esteve no evento e cumprimentou o presidente. Sua assessoria afirmou que ele recepcionou Bolsonaro, mas não acompanhou o ato.

Na última sexta-feira (21), o Governo do Maranhão autuou Bolsonaro por gerar aglomeração com mais de cem pessoas sem controle sanitário e por não usar máscara em evento em Açailândia (a 560 km de São Luís).

Médicos e especialistas da saúde têm alertado sobre a possibilidade de uma terceira onda da pandemia no Brasil. A cidade do Rio está neste momento com 95% dos leitos de UTI públicos ocupados.

O passeio de moto teve início por volta das 10h no Parque Olímpico em direção ao aterro do Flamengo, zona sul do Rio, a 40 quilômetros de distância. Diversas vias da cidade foram fechadas para a passagem de Bolsonaro.

O governo do Rio de Janeiro mobilizou mais de 20 unidades da Polícia Militar, com cerca de 1.000 agentes, para o evento com Bolsonaro, "a fim de garantir a ordem e a segurança da população durante o ato".

No dia 10 de maio, o presidente já havia realizado um passeio de moto pela periferia do Distrito Federal, durante o qual também desrespeitou as regras sanitárias. O mesmo ocorreu no dia 9 de maio, também em Brasília, em novo trajeto com centenas de motociclistas.

Na ocasião, Bolsonaro afirmou que queria fazer passeios semelhantes no Rio, em São Paulo e Belo Horizonte.

Um dia depois, o presidente prometeu, em conversa com apoiadores, que em futuras concessões de rodovias federais colocará como um dos itens do edital a isenção de pedágio para motos​, uma das pautas da categoria.

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