Descrição de chapéu Folhajus STF

Somente um presidente teve indicação para ministro do STF rejeitada pelo Senado

Senadores recusaram cinco candidatos de Floriano Peixoto; rejeição não ocorre há 127 anos

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São Paulo

Indicado por Jair Bolsonaro para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal), André Mendonça será sabatinado no Senado nesta quarta-feira (1º).

O ex-ministro da Justiça e ex-AGU, se dependesse somente do histórico do Senado, dificilmente teria sua indicação para a principal corte do país rejeitada pela Casa.

Há 127 anos que o Brasil não vê o Senado recusar uma indicação ao Supremo. O Marechal Floriano Peixoto (1891-1894) foi o único presidente que passou por essa situação. O seu governo teve cinco indicações ao STF recusadas pelos senadores, o que ocorreu em grande parte por questões políticas ligadas ao relacionamento do mandatário com os outros Poderes.

As rejeições das cinco indicações para ministro do Supremo Tribunal Federal ocorreram todas em 1894. Os indicados recusados foram: Barata Ribeiro, Innocêncio Galvão de Queiroz, Ewerton Quadros, Antônio Sève Navarro e Demosthenes da Silveira Lobo.

A justificativa encontrada nos arquivos do Senado foi dada na época pelos legisladores apenas em relação a indicação do médico Barata Ribeiro. Neste caso, o Senado entendeu que o candidato não tinha notável saber jurídico.

Na biografia de Barata Ribeiro no site do Supremo Tribunal Federal consta que "em decreto de 23 de outubro de 1893, foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal, preenchendo a vaga ocorrida com o falecimento do Barão de Sobral; tomou posse em 25 de novembro seguinte".

O texto complementa entretanto que "submetida a nomeação ao Senado da República, este, em sessão secreta de 24 de setembro de 1894, negou a aprovação, com base em Parecer da Comissão de Justiça e Legislação, que considerou desatendido o requisito de "notável saber jurídico".

Em consequência, Barata Ribeiro deixou o exercício do cargo de Ministro em 24 do referido mês de setembro. Na época, o escolhido podia assumir as funções antes de o Senado votar a indicação.

Barata Ribeiro chegou a atuar como ministro do STF por alguns meses antes de ter a indicação rejeitada - SFT

Além de Barata Ribeiro, outros dois rejeitados no governo Peixoto também não tinham formação em direito: Ewerton Quadros, general que atuou contra a Revolução Federalista, e Demóstenes Lobo, diretor-geral dos Correios.

Os outros recusados eram graduados em direito, mas não chegavam a ser expoentes do mundo jurídico: o general Galvão de Queiroz e o subprocurador da República Antônio Seve Navarro.

Segundo o Senado, não se sabe os motivos exatos que levaram os senadores da época a recusar as indicações já que as sessões eram secretas, e as atas se perderam. A divulgação do parecer sobre Barata Ribeiro foi uma exceção.

"Esses episódios [de recusa dos indicados] do Floriano Peixoto são muito atípicos. O governo Floriano Peixoto foi muito conturbado, marcado por um conflito muito grande com o próprio Supremo Tribunal Federal e com o Congresso", afirma Daniel Damásio Borges, professor do departamento de Direito Público da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo).

Segundo o jurista, Peixoto "era do Exército, tinha uma personalidade muito autoritária que não aceitava o sistema de freios e contrapesos. Ele convivia muito mal com o estado democrático de direito" o que gerava atritos políticos.

Damásio lembra que já ocorreram episódios com "uma certa resistência do Senado" como no caso da indicação do Dias Toffoli e de Edson Fachin "que havia lido aquele manifesto durante a campanha eleitoral em favor da então candidata Dilma Rousseff (PT) e quando ele foi indicado por ela ocorreu uma certa polêmica e um medo de que ele fosse submisso". Entretanto, nos dois casos os senadores acabaram aprovando as indicações.

Atualmente, estão aptos a receberem a indicação do presidente da República para o Supremo cidadãos brasileiros com mais de 35 anos e menos de 66 anos, que tenham notável saber jurídico e reputação ilibada, explica a professora de direito da USP (Universidade de São Paulo) Eliana Franco Neme.

"Essa é uma regra que a gente importou do modelo americano com o estabelecimento da república", explica a jurista.

"Depois que o presidente indica essa pessoa, ela precisa passar por uma sabatina no Senado federal e o indicado precisa ser aprovado com a maioria absoluta dos 81 senadores".

Segundo ela, se o Senado recusar Mendonça, como ocorreu com os indicados por Floriano Peixoto, ele não assume a vaga e o presidente Bolsonaro precisará indicar um outro candidato.

Ao todo, o STF é composto por 11 membros. Uma eventual recusa na indicação de Mendonça pode levar o colegiado a continuar com votações com dez membros, correndo o risco de um empate nas decisões.

Apesar de ter a seu favor o histórico do Senado, normalmente favorável aos indicados, Mendonça tem recebido críticas de juristas que questionam sua qualificação para um cargo no STF. Ele também não é bem visto por alguns grupos no Legislativo.

Nas últimas semanas, a situação de Mendonça piorou por conta do aumento da tensão entre Bolsonaro e o Supremo.

Segundo o Painel, ministros do Supremo e políticos afirmam que ficou inviável a aprovação de André Mendonça para a vaga aberta para o STF. Eles dizem que o envio do pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes, em agosto deste ano, acabou com qualquer chance que ainda existia.

Políticos afirmam que o senador Davi Alcolumbre (DEM-AP) já havia sinalizado que estava decidido a não dar seguimento a indicação feita por Jair Bolsonaro para o Supremo, mas o agravamento da crise entre Poderes dá o argumento perfeito para engavetar o caso de vez.

Alcolumbre trabalha para que Mendonça não seja aprovado —o senador é presidente da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), onde ocorre a sabatina do indicado.

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