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Bolsonaro admite delinquência e tenta colocar país refém de seu medo de ser preso

Atos foram grandes, mas menores do que o desejado pelo presidente, e sugerem um pastiche de 'Götterdämmerung'

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São Paulo

Os protestos do 7 de Setembro juntaram grandes quantidades de apoiadores de Jair Bolsonaro, mas nada avassalador e sugerindo um ato final de sua Presidência —ao menos no desejo farsesco do mandatário de transformar seu medo de ser preso em cativeiro político da nação.

É um "Götterdämmerung", um crepúsculo dos deuses sem divindades envolvidas, num pastiche tropical de fazer corar os fãs de Wagner na Alemanha dos anos 1930.

Manifestação em favor de Jair Bolsonaro na avenida Paulista, em São Paulo
Manifestação em favor de Jair Bolsonaro na avenida Paulista, em São Paulo - Amanda Perobelli/Reuters

Os dois discursos do presidente neste feriado, particularmente o realizado na avenida Paulista, mostram um Bolsonaro pintado para uma guerra pessoal: seria mais fácil colocá-lo num ringue com Alexandre de Moraes para definir o destino do país, na visão apresentada sem nenhum pudor pelo mandatário.

A anomia vem se desenhando desde 2019, mas obviamente ganhou contornos dramáticos nas últimas semanas. Bolsonaro agora é um presidente em estado de delinquência anunciada: afirmou que não respeitará decisões do ministro do Supremo a quem elegeu como inimigo.

Na prática, isso não diz nada, exceto que ele mande a Polícia Federal ignorar a corte. Mas é uma sinalização de desespero terminal.

Nesta terça, o presidente não se satisfez em repetir os itens abertamente golpistas de sua fala. Sugeriu, ao inventar uma reunião extraordinária do Conselho da República, que poderia tomar alguma medida que poderia requerer a presença do colegiado: estado de sítio, de defesa, intervenções federais.

E o fez elencando todo o rosário de condução ilusória da crise institucional que ele mesmo criou: a suposta ditadura dos estados no manejo da pandemia, o torniquete do inquérito das fake news sendo apertado pelo Supremo e, com todas as letras, seu temor maior.

"Nunca serei preso", esbravejou na Paulista. É um recibo cândido apresentado aos apoiadores de Bolsonaro pelo seu "mito", aspas obrigatórias, sobre o que realmente apavora o presidente: a reação tocada pela caneta de Moraes no Supremo.

Exceto que ele se pretenda um Salvador Allende sofrendo um golpe imaginário com metralhadora nas mãos, é curioso imaginar qual hombridade que seus discípulos veem no líder.

Pouco importa: ele mantém o seu público raiz fidelizado, esperando chegar até 2022 com alguma viabilidade. E esperando que os rombos no seu dique (inflação, crise energética, paralisação do governo etc.) não o afoguem.

Havia gente na rua, claro, mas para quem esperava colocar 2 milhões na Paulista os 125 mil aferidos pela Polícia Militar são um balde de água fria relativa.

Menos mal que, até o fim da tarde, as ameaças de confusão protagonizadas pelos manifestantes em Brasília viraram fumaça. O problema para o país, noves fora a confusão estimulada por seu presidente, é que novamente a classe política é desafiada. Bolsonaro conseguiu subir o tom, se é que isso era possível.

A reação ensaiada pelos candidatos a encarnar uma alternativa a Bolsonaro na disputa contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no ano que vem foi colocada na mesa imediatamente: impeachment.

Saindo do campo da esquerda, a quimérica solução agora está na boca do PSDB —do jeito típico do partido, com o presidenciável João Doria pedindo a cabeça de Bolsonaro e a sigla marcando reunião para debater o caso, com a previsível oposição da ala do deixa-disso aliada ao centrão.

Seja como for, também de forma esperada, os atos divididos da esquerda não fizeram sombra à Paulista de Bolsonaro, mas nem tampouco foram desprezíveis.

Resta saber o que acontecerá na próxima parada da crise, nos protestos da antiga direita que ajudou a derrubar Dilma Rousseff (PT) em 2016, marcados contra Bolsonaro para o domingo (12). Até aqui, ela tem sido a franja no campo conservador, enquanto as exceções que pediam intervenção militar cinco anos atrás agora são o "mainstream" em termos de barulho.

As peças, de todo modo, se mexem. Mais de um ator importante do mundo político disse que a construção do caso jurídico contra Bolsonaro, em especial no Tribunal Superior Eleitoral, ganhou tração.

Isso tudo gera um caldo de pressão sobre o centrão que carrega as chaves da sobrevivência política de Bolsonaro com a Procuradoria-Geral da República. A proverbial Faria Lima não ficará contente com o arrazoado desta terça, e isso cobrará um preço que talvez até os aliados de Bolsonaro terão de aceitar.

Os movimento dos militares desgastados pela associação com Bolsonaro de se distanciar dos atos deste dia 7, inclusive com a chamativa ausência do pitbull Walter Braga Netto (Defesa) na Paulista, foram notados com inquieto alívio por políticos e membros da cúpula do Judiciário.

Mas é pouco. A partir desta quarta (8), o país tem um líder que se declara em desobediência civil. Isso não é trivial, por mais vulgar que Bolsonaro torne a situação.

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