Hiperexposição à pornografia abre caminho para compulsão

Com internet rápida e material gratuito online, adolescentes podem assistir a muito conteúdo em pouco tempo

Naná DeLuca Otávio Nadaleto
São Paulo

“Dos 13 aos 16 anos, já estava totalmente afundado, parei de sair com os amigos, e até de casa, só para ver pornô.” Pedro (nome fictício), 17, começou a consumir pornografia online aos 12 e sabe identificar o momento em que ela passou a ocupar espaço demais em sua vida.

Ele conta que era um “bom aluno, tinha vários amigos e brincava na rua”, até a separação de seus pais. O garoto passou a ficar mais tempo sozinho e encontrou na pornografia uma fonte rápida de prazer. “Acabei virando uma pessoa solitária e triste. Foi aí que o vício me atacou.”

O consumo excessivo de pornografia não se caracteriza pelas horas diante do computador, mas pela importância que o hábito ganha na vida do adolescente, podendo levar a desinteresse pelo cotidiano, isolamento, queda no rendimento escolar e impotência sexual.

Desenho feito por Zoe (nome fictício), 14, que sofreu estupro virtual aos 11
Desenho feito por Zoe (nome fictício), 14, que sofreu estupro virtual aos 11 - Reprodução

Esses sintomas são consequências da hiperestimulação, que gera excesso de dopamina no organismo, afirma Fábio Caló, terapeuta comportamental do Instituto de Psicologia Aplicada.

Quando a exposição à pornografia é compulsiva, o cérebro passa a entender níveis normais de dopamina como baixos. Na prática, o indivíduo fica desinteressado em relação aos estímulos cotidianos. 

O excesso de pornografia também transmite uma ideia enviesada do que é sexo, como são os corpos e como deve ser uma relação normal, diz a sexóloga Carmita Abdo, coordenadora do programa de estudos em sexualidade (Prosex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP (IPq/HCFMUSP).

A superexposição ao pornô é particularmente preocupante quando se trata de adolescentes. “Quando começar a fazer sexo, o jovem vai falhar não só por não se ver valorizado, mas também porque é a masturbação que ele entende como sexo. Não consegue ter prazer em ser acariciado e em tocar uma pessoa.”

Foi o que ocorreu com Gabriel, 18, que começou a ver pornô aos 12. O consumo obsessivo o deixou anestesiado durante o ensino médio e o afastou de relacionamentos. 

Com internet rápida e material gratuito à disposição, adolescentes podem entrar em contato com muito conteúdo em pouco tempo. É aí que pode virar uma compulsão.

Levantamento do site Pornhub mostrou que, em 2018, o Brasil estava na lista dos 15 países que mais consomem pornografia no mundo. 

Nem todo consumo de pornografia leva à compulsão. Mas os adolescentes podem ter dificuldades para reconhecer esses limites, além de não saber lidar com a culpa e o tabu envolvidos.

Segundo o psiquiatra Marco Scanavino, do IPq/HCFMUSP, depois de 2013 houve um aumento nas pesquisas na área da desregulação do comportamento sexual, o que levou a Organização Mundial da Saúde a incluir a descrição do Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo em sua Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID). 

O transtorno atinge de 2% a 6% da população e é descrito como a incapacidade de controlar impulsos sexuais repetitivos no período de seis meses, com prejuízos na vida sexual, nos estudos e trabalho.
Em alguns casos, por estar associado a transtornos primários, como ansiedade e depressão, o tratamento envolve remédios. 

“Fazemos uma avaliação para entender o nível de dependência e verificar se existe algum transtorno associado e se a tecnologia —no caso, a pornografia— acaba sendo uma fuga”, diz Eduardo Guedes, coordenador do Instituto Delete, grupo de pesquisa ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro que oferece tratamento para consumo exagerado de tecnologia.

Muitos jovens não expõem sua situação aos pais nem buscam tratamento. “Quem vai procurar ajuda é um indivíduo adulto que já teve consciência do prejuízo que ele tem com o consumo de pornografia nesse nível”, diz Caló. 

É o caso de Pedro, que buscou ajuda apenas por meios digitais. Na internet, conheceu o chamado “reboot”, um período de 90 dias sem pornografia ou estímulos sexuais.

Após o “reboot”, Pedro diz fazer um uso mais consciente do pornô. “Passei a praticar atividades físicas porque comecei a ter tempo livre. Voltei a fazer amigos na escola.”

Gabriel, por sua vez, nunca conseguiu concluir o “reboot”, mas há mais de um ano não acessa sites pornográficos diariamente. No dia da entrevista, contou o que considerava uma pequena vitória: estava havia 16 dias sem nenhum acesso a pornografia.

 

Como identificar a dependência

Sinais de alerta, segundo o Instituto Delete da UFRJ 

Sensação de segurança  
O hábito passa a ser o refúgio e a única fonte de prazer e segurança

Relevância  
O consumo de pornografia passa a ser o aspecto mais relevante da vida do paciente e ele deixa de fazer outras atividades

Tolerância  
A pessoa não consegue ficar longos períodos longe do hábito

Abstinência  
O paciente apresenta comportamentos negativos quando não consome pornô

 Conflitos na vida real 
O consumo excessivo passa a provocar problemas reais, como brigas de família, mau desempenho escolar e abandono dos compromissos

Prejuízos para os adolescentes

 Impotência sexual

 Desânimo e desinteresse por atividades cotidianas

 Isolamento social

Maus hábitos alimentares

 Sono desregulado

 Queda no rendimento escolar e profissional


Fonte: Carmita Abdo, coordenadora do programa de estudos em sexualidade (Prosex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP (IPq/HCFMUSP); Marco Scanavino, responsável pelo Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo do IPq/HCFMUSP; e Fábio Caló, terapeuta comportamental do Instituto de Psicologia Aplicada

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