Motos devem ser prioridade no combate a acidentes de trânsito

Especialistas culpam aplicativos e direção temerária por aumento de mortes

O jornalista Fabrício Lobel (esq.), Vivi Tiezzi, da Iniciativa Bloomberg, o consultor em segurança viária Horácio Figueira e o presidente do Sindimoto-SP, Gilberto Almeida
O jornalista Fabrício Lobel (esq.), Vivi Tiezzi, da Iniciativa Bloomberg, o consultor em segurança viária Horácio Figueira e o presidente do Sindimoto-SP, Gilberto Almeida - Reinaldo Canato/Folhapress
São Paulo

​​Um dos problemas mais graves de segurança no trânsito hoje são os motociclistas, apontam especialistas.

Os números de São Paulo comprovam o diagnóstico feito no 3º fórum de Segurança no Trânsito, Mobilidade e Inovação, promovido pela Folha: 366 motociclistas morreram no ano passado na cidade, aumento de 18% em relação a 2017, fazendo deles as principais vítimas do trânsito. É como se um Airbus 350 lotado tivesse caído, sem sobreviventes, com praticamente todos os lugares ocupados por homens jovens.

Entre as causas desse drama, os debatedores que participaram do evento apontam a proliferação de aplicativos de entrega. “Com a crise, as empresas colocaram motociclistas despreparados nas ruas, podendo provocar acidentes”, disse Gilberto Almeida, presidente do Sindimoto-SP (Sindicato dos Mensageiros, Motociclistas, Ciclistas e Mototaxistas Intermunicipal do Estado de São Paulo).

O prefeito Bruno Covas (PSDB) disse, no discurso de abertura do fórum, que já há negociação com empresas para criar uma regulamentação que garanta maior segurança aos entregadores. “Houve aumento nas mortes porque aplicativos estão compensando financeiramente os que fazem mais entregas”, afirmou.

Para Marcos Carvalho, diretor de engajamento da ABO2O, associação que representa aplicativos de entrega, é errado terceirizar a responsabilidade do poder público às empresas, já que faltam ações como adequação de sinalização nas vias e conscientização dos motoristas.

“A alegação do prefeito é um tiro no pé, porque mostra que a legislação e os meios de adquirir a carteira não são adequados. Pressupomos que o poder público forneça uma estrutura que eduque e permita que os motociclistas dirijam de forma segura”, afirmou.

Em resposta às críticas, as empresas Loggi e iFood disseram fazer trabalho interno de conscientização sobre segurança no trânsito. A Loggi afirmou que não atrela os pagamentos a tempo ou velocidade de entrega e que nunca registrou um acidente fatal com um de seus entregadores.

Outra medida discutida foi a restrição de motos em determinadas vias. Prevista no Plano de Segurança Viária 2019-2028 de São Paulo, a proibição de motos na pista expressa da marginal Pinheiros, sentido Castello Branco, está em vigor desde 20 de maio —o veto deverá se estender ao sentido contrário. Na marginal Tietê, a pista expressa é proibida para motos nos dois sentidos.

“É uma atitude radical e preconceituosa, só transfere o problema de lugar. A pista local é onde passam os ônibus, o trânsito é muito mais pesado. Protocolamos um documento sugerindo que, em vez de mudar a malha viária, a velocidade na marginal Tietê volte a ser de 70 km/h”, disse Gilberto Almeida, representante dos motociclistas.

Para Almeida, que não isentou de culpa os motociclistas por comportamentos temerários, falta ao poder público criar campanhas de conscientização para a categoria.

José Aurelio Ramalho, diretor-presidente do Observatório Nacional de Segurança Viária, criticou o que vê como deficiência na lei, que não exige que motociclistas façam aulas e exames de direção na rua.

Segundo a regra atual, as atividades podem ser feitas em locais fechados que se assemelhem a vias públicas. Para Ramalho, é insuficiente. “A autoescola dá atestado de óbito antecipado, não habilitação”.

Em março de 2018, uma resolução do Contran (Conselho Nacional de Trânsito) exigiu que as atividades fossem em vias públicas, mas a regra foi revogada pelo Ministério das Cidades na gestão Temer.

O consultor em segurança viária Horácio Figueira destacou o fato de as campanhas e políticas de segurança no trânsito não se concentrarem nos problemas principais, como acidentes com motos. “Estacionar em lugar errado ou desrespeitar o rodízio não mata ninguém, deveria ser a última prioridade da fiscalização, mas hoje é a primeira.” ​

Os debatedores concordaram que as medidas do poder público devem ser dinâmicas porque as cidades estão mudando rapidamente. O exemplo mais discutido foram as patinetes. “A explosão no uso desses veículos mostra que há uma demanda por microtransporte”, disse Francisco Pierrini, diretor-presidente da ViaQuatro e ViaMobilidade.

Para evitar acidentes, empresas estão investindo em dicas de segurança no aplicativo, afirmou João Sabino, diretor de assuntos institucionais da Grow, uma das responsáveis pela oferta das patinetes.
Segundo Sabino, 95% das ocorrências se dão nas cinco primeiras corridas, o que evidencia a falta de preparo de quem pilota. “Embora pareça lúdica, patinete elétrica não é brinquedo”.

O fórum, que teve patrocínio da CCR e apoio da Plural (associação nacional de distribuidoras de combustíveis), aconteceu no Rooftop 5 & Centro de Convenções, em São Paulo.

Os debates foram mediados pelos jornalistas da Folha Everton Lopes Batista e Fabrício Lobel.

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