Descrição de chapéu 2º Seminário Economia da Arte

Plano de doações diretas quer estimular público a protagonizar o incentivo à dança

Cobertor curto dos financiamentos afeta companhias e festivais de dança

Iara Biderman
São Paulo

Com pouco espaço para apresentações e baixa visibilidade, a dança é a prima pobre das artes. Não é de hoje que a área tem dificuldade em encontrar patrocínios.

Responsável pela curadoria de dança do Centro Cultural São Paulo, Sonia Sobral diz desconhecer companhias de dança, no Brasil ou no exterior, que vivam só de bilheteria. 

Isso acontece até com grupos como o mineiro Corpo, que lota temporadas em teatros de mais de 1.000 lugares e faz turnês internacionais todo ano, desde 1979. 

Claúdia Ribeiro, diretora de programação do grupo, explica que uma companhia grande precisa ter funcionários com carteira assinada, pagar planos de saúde, manter um espaço. “Os custos fixos são muito altos. Para que a bilheteria pagasse tudo, o preço do ingresso seria proibitivo”, diz. 

Uma temporada lotada cobre os custos de produção e apresentação de espetáculos, mas não sobra para a manutenção da companhia. O restante costuma sair de patrocínios públicos e privados.

No caso do Corpo, por muitos anos a Petrobras cobriu 80% do orçamento. Hoje, a empresa paga 25% do custo, de R$ 15 milhões por ano. A complementação é feita com patrocínios do governo mineiro, do Itaú Cultural e das empresas Unimed e Magazine Luiza. Cerca de R$ 5 milhões vêm da bilheteria e da escola particular de dança do grupo. 

Para não viver só desses aportes, a companhia criou um programa de doações diretas, com contribuições a partir de R$ 350 por ano. “O resultado financeiro ainda é pequeno, mas é um movimento para a sociedade civil assumir maior protagonismo no incentivo à arte”, diz Ribeiro. 

Além de reduzidos, os incentivos à dança colocam todos no mesmo balaio, segundo Gabi Gonçalves, da produtora Corpo Rastreado. “Grandes e pequenos disputam o mesmo montante”, diz. Para a maioria, o dinheiro é obtido de programas de fomento e editais, quase todos públicos. 

O cobertor curto dos financiamentos afeta também os festivais de dança, é claro. “Para patrocinadores, apoiar esses eventos é um grande negócio, porque têm mais exposição, mídia espontânea. Mas há alguns anos eles são produzidos com orçamento mínimo”, diz Gonçalves.

Com maior suporte financeiro, a Bienal Sesc de Dança consegue contemplar um número maior de grupos e artistas. O Sesc é considerado por muitos grupos uma tábua de salvação. Com uma programação contínua de dança, dá espaço para os artistas ganharem algum dinheiro e um pouco mais de público. 

Uma instituição privada que também tem incentivado a dança é o Itaú Cultural. O instituto patrocina a arte com recursos diretos, por meio de programas como o Rumos. Já o Grupo Itaú apoia, por exemplo, o Corpo, a Associação Pró Dança, o Festival de Joinville e o Balé de Paraisópolis via Lei Rouanet, de incentivo fiscal.

Mas essas instituições são uma gota na secura de recursos. “O sistema cultural brasileiro tem como principal espaço de financiamento o poder público. Ele é feito, na maior parte, pelos municípios; em escala um pouco menor, pelos estados e a menor parte vem da União”, diz Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural.

“Ao meu ver, não há política para as artes no Brasil. Muito menos para a dança.”

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