Trampolim para o desenvolvimento, acordo entre Mercosul e UE depende de agenda ambiental

Fórum de Agronegócio Sustentável debateu o tratado, considerado divisor de águas para o comércio exterior do país

Laura Castanho
São Paulo

O acordo assinado ao final de junho entre os países do Mercosul e da União Europeia representa uma oportunidade inédita de negócios para o Brasil, mas dependerá do compromisso do país com o meio ambiente e com o aprimoramento das cadeias produtivas para ser devidamente aproveitado.

Essa foi a conclusão do primeiro debate do 3º Fórum de Agronegócio Sustentável, nesta segunda-feira (26). Promovido pela Folha, o evento foi patrocinado pela BRF e teve o apoio da CNA (Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária) e do governo de Mato Grosso.

Para Annelise Vendramini, coordenadora do núcleo de pesquisa em finanças sustentáveis da FGV, o acordo é uma oportunidade única para o Brasil. Não só ele deve abrir portas para um mercado que o país tem condições de atender, mas tem potencial para reduzir desigualdades, impulsionar o desenvolvimento e diferenciar os produtos brasileiros. 

Grazielle Parenti (esq.), diretora de relações institucionais da BRF, Lígia Dutra, superintendente da CNA, Carlos Degrazia, da secretaria de comércio exterior do Ministério da Economia, Annelise Vendramini, coordenadora do núcleo de pesquisa em finanças sustentáveis da FGV e Everton Lopes Batista, repórter da Folha
Grazielle Parenti (esq.), diretora de relações institucionais da BRF, Lígia Dutra, superintendente da CNA, Carlos Degrazia, da secretaria de comércio exterior do Ministério da Economia, Annelise Vendramini, coordenadora do núcleo de pesquisa em finanças sustentáveis da FGV e Everton Lopes Batista, repórter da Folha - Reinaldo Canato/Folhapress

Para que isso se concretize, no entanto, o Estado e o setor privado deverão investir de vez em políticas de desenvolvimento sustentável e adaptar as cadeias produtivas a essa mentalidade. “Vamos ter que ir até o fim se a gente quiser, de fato, manter o Brasil nessa agenda competitiva —e há dinheiro na mesa para isso”, disse Vendramini.

Esse processo passa, necessariamente, por repensar toda a produção agrícola, das colheitas mais rudimentares às fazendas industriais. “Não importa o que você acredita em relação à mudança do clima. Pega um, pega geral, vai pegar você também.”

A pesquisadora ressaltou a necessidade de ver os recursos naturais brasileiros como bônus, e não como algo a ser combatido, e citou como bons exemplos os programas Agricultura de Baixo Carbono e o Crédito Ambiental Rural. “Precisa investir para ter retorno. É isso o que está faltando no Brasil.”

Para Lígia Dutra, superintendente da CNA, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia não só amplia as possibilidades para o agronegócio, como pode desenvolver cadeias subaproveitadas no país, como a fruticultura, a aquicultura e a produção de laticínios.  

“O Brasil ainda é um país muito fechado. O potencial do agro é pequeno perto do que podemos exportar e produzir”, afirmou. “Vamos finalmente poder concorrer em igualdade de condições.”

Dutra acredita que um alvo a ser combatido pelo setor, no futuro, são os subsídios agrícolas oferecidos aos produtores rurais da Europa, dos Estados Unidos e de países em desenvolvimento como China e Índia. 

“Tem que atacar os subsídios agrícolas. Eles afetam o produto brasileiro. Ninguém tem a pretensão de que em dez ou 15 anos o Estado brasileiro seja capaz de subsidiar qualquer setor.”

Questionada sobre a possibilidade de a França sair do acordo —aventada pelo presidente francês, Emmanuel Macron, como resposta às queimadas na Amazônia—, Dutra a descartou. “Seria esquisito do ponto de vista econômico. As empresas francesas têm muito a ganhar com o Brasil.”

Grazielle Parenti, diretora de relações institucionais da BRF, concordou com essas duas teses. E ressaltou: “Não se pode generalizar que agronegócio tem a ver com crime ambiental”.

Ela esteve presente nas discussões que conduziram ao acordo, em Bruxelas (Bélgica), e relatou que a experiência de diálogo constante com autoridades foi “emocionante”. 

“Temos uma expectativa muito positiva. Porque a gente está ali junto, especialmente do Ministério da Agricultura, abrindo esses mercados. É quase uma coisa meio bandeirante. De você ir a um lugar onde as pessoas não te conhecem e levar os nossos produtos.”

Parenti afirmou que vê uma oportunidade enorme de expandir o negócio da BRF, que já exporta para 140 países.

O coordenador-geral de negociações extrarregionais do Ministério da Economia, Carlos Degrazia, frisou a percepção do acordo como trampolim para o desenvolvimento econômico. Juntos, os países da União Europeia e do Mercosul representam um quarto da economia mundial. Além disso, a UE é a maior importadora e exportadora de produtos agrícolas do mundo. “É o acordo comercial mais ambicioso que o Brasil já celebrou”, resumiu. 

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