Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Acordo EUA-Brasil depende de desfecho com UE, diz secretário de comércio americano

Wilbur Ross recomenda que Brasil veja se não há 'pílula com veneno' no texto final acertado com europeus

Arthur Cagliari
São Paulo

Um acordo de livre-comércio entre o Brasil e os Estados Unidos não pode destoar de aliança do Mercosul com europeus, disse o secretário de Comércio dos EUA, Wilbur Ross, em evento da Amcham (Câmara americana de Comércio para o Brasil) nesta terça-feira (30).

“É importante que nada nesse acordo [com europeus] seja contraditório com um acordo com os EUA. Por exemplo, nós temos questões com a UE sobre padrões no setor automotivo, farmacêutico e alimentício”, disse o secretário.

Ross alertou também sobre possíveis armadilhas em resolução fechada com a UE (União Europeia).

“Tomem cuidado antes de acertar o acordo para ter certeza que não há nenhuma ‘pílula com veneno’ nela”.

Ainda segundo o secretário, a discussão sobre um livre-comércio com os EUA só vai começar após os países avançarem em outros pontos.

“Desde a visita de Bolsonaro a Washington, nós nos movimentamos nessa direção [de um acordo]. Mas há questões antes disso. Nós nunca finalizamos um acordo bilateral de investimento. Então há muito o que se fazer no diálogo comercial antes do livre-comércio”, disse o secretário.

Nesta terça-feira o presidente americano, Donald Trump, anunciou que vai trabalhar por um acordo comercial com o Brasil

"Vamos trabalhar em um acordo de livre-comércio com o Brasil", disse Trump a repórteres na Casa Branca sem dar mais detalhes.

Apesar da sinalização, corroborado pelo secretário americano, ainda não há previsão de quando isso deva ocorrer.

“Um acordo assim tem milhares e milhares de páginas e pode levar muito tempo para ser feito. O importante é que o Brasil e nós já temos demonstrado nossos propósitos”, disse Ross.

No evento desta terça-feira, a câmara americana entregou ao secretário o documento "Brasil-EUA: 10 propostas para uma parceria mais ambiciosa".

Entre as medidas defendidas para aprimorar a relação comercial Brasil-EUA está o acordo gradual de livre-comércio entre os países.

A proposta da Amcham para uma parceria comercial, no entanto, deixará para um segundo momento a questão tarifária.

De acordo com o documento, a ideia do acordo comercial é focar inicialmente em negociações de facilitação de comércio eletrônico, serviços, compras públicas, investimentos, barreiras técnicas, sanitárias e fitossanitárias.

Um acordo com tarifas foi defendido pelo presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, na segunda-feira (29), após encontro com o secretário americano.

"Temos que ter, sim, um acordo de livre-comércio, incluindo as tarifas. Pode ser discutido e ter um cronograma, mas tem de ter tarifa", afirmou Skaf na ocasião.

Outra medida do programa é voltar a trabalhar em um acordo para evitar a bitributação de lucros, dividendos e royalties. 

O apoio do governo americano para o processo de adesão do Brasil à OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) também foi colocado como medida para estreitar a parceria entre os países.

Propostas para avançar nos temas de propriedade intelectual, entrada de executivos brasileiros nos EUA e práticas regulatórias também estão presentes no documento.

Acordo especial, 5G e infraestrutura

Durante o evento, o secretário americano disse que o Brasil deveria ter um papel mais importante no espaço devido sua localização geográfica. 

Ele afirmou que uma cooperação entre os brasileiros e os americanos nessa área deve ser trabalhada.

“Assinamos um acordo entre a NASA e a agência especial brasileira para o lançamento de um satélite em 2020.”

Depois de quase 20 anos de negociação, os países concluíram em março deste ano as tratativas para o novo acordo de salvaguardas tecnológicas, que permite o uso comercial da base de Alcântara, no Maranhão, para o lançamento de satélites, mísseis e foguetes.

A base maranhense é visada porque fica próxima à linha do equador e permite economia no consumo de combustível nos lançamentos.

Ao comentar sobre questões de inovação, o secretário também sinalizou que a parceria entre os países pode avançar na questão da tecnologia 5G.

“Isso tem um poder de transformar a forma como as pessoas vivem e como as empresas funcionam, mas também tem um poder muito perigoso, se as redes não tiverem segurança.”

O 5G é a quinta geração das comunicações móveis, conhecida como "a internet das coisas" por oferecer velocidades muito superiores às atuais para a interconexão de tudo o que a tecnologia permitir. 

China e Estados Unidos disputam a primazia deste mercado. Em maio, o governo de Donald Trump subiu um degrau na guerra comercial com Pequim ao colocar a Huawei (uma das empresas mais fortes com essa tecnologia) numa lista de empresas que não podem comprar equipamentos americanos.

Aportes americanos na infraestrutura brasileira também entrou em debate.

Durante coletiva de imprensa após o discurso de Ross, a presidente-executiva da câmara americana, Deborah Vieitas, disse haver “interesse muito grande dos EUA” por esse segmento.

O assunto já havia sido abordado na segunda-feira (29) pelo presidente da Fiesp em encontro com o secretário. Segundo Skaf, ele teria alertado que os americanos não estiveram presentes nos últimos leilões e que haveria novas oportunidades.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.