Descrição de chapéu 3º Seminário Economia da Arte

Clubes do livro crescem e veem crise do varejo, não do produto

Modelo de negócio sustentado por assinaturas ganha visibilidade, mas representa só 0,55% do mercado

Dante Ferrasoli
São Paulo

Em um momento de crise no mercado editorial brasileiro, clubes de leitura atraem assinantes com a proposta de “surpreender” o leitor enviando à sua casa uma obra por mês. Junto dela, no mínimo um texto explicando o porquê da escolha, feita por um curador. Às vezes outros mimos integram o pacote.

O modelo de negócio, que está em crescimento desde 2014, vendeu mais de 2 milhões de livros em 2018, fazendo o filão faturar pouco mais de R$ 20 milhões, de acordo com números da CBL (Câmara Brasileira do Livro). 

A partir da esq., Tomás Susin, Arthur Dambros e Gustavo Lembert, sócios da TAG Experiências Literárias
A partir da esq., Tomás Susin, Arthur Dambros e Gustavo Lembert, sócios da TAG Experiências Literárias - Divulgação

O montante responde por 0,55% do mercado. Foi a primeira vez que os clubes foram incluídos numa pesquisa sobre o setor de livros, o que não permite comparar o desempenho com anos anteriores. 

As livrarias, por sua vez, viram sua participação no mercado, em termos de receita, cair 20,84% entre 2017 e 2018. Mesmo assim, ainda movimentam a metade do valor que circula no setor.

“Com as grandes cadeias do mercado do varejo de livros em dificuldades, é claro que surgiria uma nova forma de negócio. Nisso, os clubes de leitura se fortaleceram muito”, diz Vitor Tavares, presidente da CBL.

Arthur Dambros, um dos criadores do clube de leitura Tag Experiências Literárias, diz que o modelo adotado por sua empresa não surgiu para tomar o lugar de livrarias.

“Pensam que a gente está feliz com a queda do mercado, como se fôssemos uma resposta a isso, mas discordo. Ao participar de um clube, a pessoa não deixa de consumir livros no varejo. São propostas diferentes, e cada uma tem seu espaço na vida do leitor.” 

A Tag, fundada em 2014 no Rio Grande do Sul, tem cerca de 50 mil assinantes. Em julho, completou 1 milhão de livros enviados a seus leitores.

Dono do Leiturinha, clube com foco em literatura infantil, Guilherme Martins, 40, concorda com a avaliação e diz não encarar as livrarias como suas concorrentes.

“São dois modelos complementares. Eu cumpro um papel interessante, que é poder chegar a qualquer cidade, funcionando como uma ponte para quem não tem acesso à leitura. Duvido que haja uma livraria em cada município do Brasil”, afirma.

Dambros e Martins são categóricos em afirmar que não existe no Brasil uma crise do livro, mas apenas do modelo de negócio tradicional pelo qual a mercadoria é vendida, o varejo.

Martins afirma que até mesmo a pessoa que não costuma ler está se conscientizando sobre a importância do hábito, pelo menos entre quem participa do seu clube.

“Eu me arrisco a dizer que metade dos pais que assinam o Leiturinha não são leitores. Eles chegam à idade adulta sem o costume, e tentam fazer que o filho cresça com o hábito que não têm e nunca tiveram”, afirma. 

A iniciativa dos clubes tem dado tão certo que editoras já fecham a produção de tiragens inteiras especificamente para esse tipo de empresa.

“Os livros que enviamos são sempre exclusivos. Você não encontra na livraria. Negociamos essa exclusividade com a editora”, diz Dambros. A Tagdiz que segue em crescimento. Sua meta é chegar aos 100 mil leitores nos próximos anos. 

Para que o modelo siga crescendo, porém, é preciso que cada vez mais gente se interesse por ler. Nesse sentido, os clubes tentam fazer sua parte para incentivar a leitura no Brasil, não sem assumir que suas iniciativas —geralmente campanhas em redes sociais ou doação de livros para população carente— são ínfimas num país com mais de 200 milhões de pessoas.

“Nosso mercado tem muito a crescer porque o Brasil infelizmente ainda lê muito pouco. Muita gente precisa ser incentivada a criar o hábito, mas não acho que haverá políticas públicas nesse sentido nos próximos anos”, afirma Alexandre Fonseca, 42, dono do clube de leitura Panaceia, que tem cerca de mil assinantes, número que pretende dobrar no próximo ano.

Dambros, da Tag, lembra que há uma barreira educacional, de alfabetização, que deve ser transposta para que programas de incentivo à leitura cumpram bem seu papel.

“Quem não consegue ler e quem lê, mas não entende o que está escrito, obviamente não vai comprar livros. Mais do que criar desejo por essas obras, precisa-se criar condições para que as pessoas de fato consigam ler”, afirma.

Em 2015, 29% dos brasileiros eram analfabetos funcionais —pessoas que sabem encontrar informações explícitas em textos simples, mas não conseguem tirar conclusões sobre o que acabaram de ler. Os dados, divulgados em 2018, são do Inaf (Indicador de Analfabetismo Funcional). A pesquisa considera apenas quem tem entre 15 e 64 anos. 

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