Descrição de chapéu 4º Fórum Inovação Educativa

Até as instituições mais inovadoras passam por fases de reestruturação

Com filosofia libertária e modelos flexíveis, Âncora e Lumiar mudam para seguir transformando a aprendizagem

A aluna Wandra Vitoria, 10, participa de atividade circense no Projeto Âncora, escola sem séries nem provas, em Cotia, Grande São Paulo

A aluna Wandra Vitoria, 10, participa de atividade circense no Projeto Âncora, escola sem séries nem provas, em Cotia, Grande São Paulo Zé Carlos Barretta/Folhapress

Luciana Alvarez
São Paulo

Protagonismo do aluno, aprendizado por projetos, atividades maker são termos adotados recentemente por muitas escolas para descrever linhas pedagógicas.

Há muito tempo, no entanto, as atividades se baseiam nessas premissas em dois colégios de São Paulo: Lumiar e Projeto Âncora. As duas instituições acabam de passar por transformações, mas mantêm seus modelos.

Na escola do Projeto Âncora, em Cotia, que oferece ensino infantil, fundamental 1 e 2, nunca houve aula propriamente dita, com um professor na frente explicando conteúdos para vários alunos.

O aprendizado se dá com base em projetos: com a ajuda dos educadores, cada criança escolhe um tema e cria seu plano de estudo individual. “A ideia é dar autonomia no processo de aprendizagem. O educador é aquele que vai junto, que colabora”, resume a coordenadora pedagógica Marisa Montrucchio.

Não há provas, notas, tampouco a possibilidade de repetência. Tutores (equivalente a professores no modelo de ensino tradicional) avaliam constantemente o desenvolvimento de cada um e indicam pontos a serem aprimorados.

A Âncora tem 135 alunos matriculados, e todos estudam gratuitamente, embora seja uma instituição privada.

Na escola paulistana Lumiar, com 16 anos de existência, o sistema de acompanhamento do aprendizado também é individual. Lá, usa-se o chamado currículo em mosaico.

"Temos uma lista de habilidades e conhecimentos necessários, que a gente mapeia e acompanha para garantir que tudo seja abordado. Todo mundo vai aprender, mas não ao mesmo tempo, não da mesma forma”, diz Graziela Lopes, diretora.

Filosofia inovadora e modelos de ensino flexíveis não livraram essas escolas transformadoras da necessidade de reinvenção com o passar dos anos.

No Projeto Âncora, as crianças continuam sem ter aulas, mas houve uma reestruturação profunda de 2018 para 2019, que separou a escola da ONG que a fundou.

Antes de haver uma escola oficial, a ONG Âncora, fundada em 1995, oferecia atividades educativas extracurriculares. A escola do Âncora nasceu em 2012. “A escola nasceu de uma ONG. Agora, as duas se tornaram independentes. Para a família, oferecemos o pacote inteiro: se a criança vem para a escola, fica aqui no contraturno também, com atividade sob responsabilidade da ONG”, explica Montrucchio. 

Depois de vários anos sem receber novos alunos, a instituição vai abrir 20 novas vagas no ensino infantil. Pela primeira vez, a escola poderá cobrar mensalidades —mas só de famílias com boas condições financeiras.

A mudança da organização sofreu resistência, houve uma saída em massa de tutores no final do ano letivo de 2018. Agora, os quadros já estão completos. 

Na Lumiar, cuja metodologia atende hoje mil alunos, a mudança também é profunda, mas de outra natureza. O colégio se encontra em transição para o bilinguismo português-inglês. “Não é o inglês pelo inglês. É o idioma como ferramenta de desenvolvimento, para dar mais possibilidades de descoberta, para agir de forma mais ampla no mundo, para dar mais autonomia”, explica Lopes. 

Outra mudança é do espaço físico. A escola vai sair do centro de São Paulo para um prédio na zona oeste. O novo endereço, com salas modulares e laboratórios interdisciplinares, abre a possibilidade de a escola oferecer a etapa do ensino médio a partir de 2021. Hoje, a Lumiar —cujo preço é de 13 parcelas de R$ 4.150— vai da educação infantil ao fundamental 2. 

Para as famílias, independentemente das mudanças, o trabalho das duas instituições continua inovador. “Quando perguntam para minha filha mais nova onde ela estuda, ela fica confusa. Ela sabe que tem aulas de skate, culinária, circo”, conta Gabriele Jacobete, 43, mãe de Marcela, 6, aluna da escola do Âncora. 

Segundo ela, alguns parentes se assustam com a proposta do colégio. “Acham que assim ela não aprende. Mas se eu peço a ela três quartos de um copo d’água, ela sabe. Aí, as pessoas ficam impressionadas, dizem que ela é muito nova para saber frações”.

A filha mais velha de Gabriele, hoje com 19 anos e cursando faculdade de química, começou no Âncora quando ainda havia apenas atividades no contraturno. “Na hora que virou escola, a gente não teve dúvidas em matriculá-la”, diz. 

Há 12 anos, Cilene Soares, 48, escolheu a Lumiar para seu filho por motivos práticos. “Precisava de uma escola em período integral e perto de casa.”

A metodologia foi conquistando a família com o passar dos anos. “Na escola, o Érico sempre pôde ficar descalço, subir em árvore e nunca soube o que é aquele medo de uma semana de provas. Ainda assim, hoje vejo a ótima capacidade que ele tem de argumentar, para um menino de 12 anos”, afirma.

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