Empresas aceleram infraestrutura para veículos elétricos no Brasil

Rodovias de SP devem receber até o final de 2020 rede com 30 postos de recarga rápida

Graciliano Toni
São Paulo

O que vem antes, o carro elétrico ou a infraestrutura para abastecê-los? No Brasil, aparentemente, a rede de recarga vai chegar antes.

No dia 22 de outubro, a empresa do setor energético EDP anunciou, em conjunto com Volkswagen, Audi, Porsche, ABB, Electric Mobility Brasil e Siemens, um investimento de R$ 32,9 milhões na instalação de uma rede de recarga rápida com 30 postos espalhados ao longo de rodovias do estado de São Paulo —o primeiro desses postos deverá ser entregue ainda este ano. 

Quando a rede estiver implantada, até o final de 2020, vai se juntar a 34 pontos de abastecimento já existentes no Rio de Janeiro, no Espírito Santo e no Paraná, permitindo assim que veículos elétricos percorram até 2.500 quilômetros sem risco de não ter onde abastecer.

Herman Tacasey

A rede planejada pela EDP faz parte de um pacote de investimentos aprovado em setembro pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que é responsável pela regulamentação do setor. 

São 30 propostas, em um projeto chamado Desenvolvimento de Soluções em Mobilidade Elétrica Eficiente, que prevê a injeção de R$ 463,8 milhões. Desse valor, R$ 72,2 milhões serão aportados por empresas do setor de energia e R$ 391,6 milhões serão provenientes do Programa de Pesquisa e Desenvolvimento gerido pela Aneel.

Hoje, 80% dos veículos elétricos que rodam no país são recarregados em casa ou no escritório, explica Nuno Miguel Pinto, head de Negócios B2C e Mobilidade Elétrica da EDP Smart. “Os outros 20% são fora de casa, por exemplo em viagens, e esses, a EDP pretende cobrir em parte”, diz.

“Nossa expectativa é que haja alguma ociosidade no início, mas que se reduzirá ao longo do tempo. Veremos um dia em que haverá filas, e então, teremos que fazer novos postos. Com milhões de carros circulando no Brasil talvez seja uma realidade.” A expectativa da empresa é que até 2030 existam 2 milhões de veículos elétricos no Brasil.

Segundo a Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE), foram licenciados 4.172 carros e veículos comerciais leves de janeiro a agosto deste ano, número já superior ao total de 2018 (3.970). 

Desde 2012, foram emplacados 14,8 mil elétricos. A associação estima um crescimento da frota de ônibus elétricos e híbridos no Brasil de quase 600% até 2030, passando das atuais 891 unidades licenciadas para mais de 6.000, graças aos programas de troca da matriz de combustível no transporte público em várias cidades do país, e especialmente em São Paulo.

Até o final da próxima década, o volume de venda de elétricos ainda será restrito, de 3% a 5% do mercado, calcula Henry Joseph Jr., diretor técnico da Anfavea (associação de fabricantes de veículos). 

A eletrificação é cara, exige infraestrutura, e os carros têm preço acima da média dos modelos mais vendidos no Brasil, argumenta. Mesmo assim, ele afirma que, até por uma questão de imagem, em dois ou três anos praticamente todas as empresas automobilísticas venderão modelos elétricos no país. A infraestrutura e a vinda dos carros devem crescer de forma mais ou menos simultânea, analisa.

Joseph Jr. lembra que a dificuldade é maior no caso dos veículos comerciais. “Caminhões de uso urbano, como os empregados na coleta de lixo, tudo bem, mas nossa malha para atender a área agrícola teria que ser gigantesca.”

Além disso, frisa o diretor, transporte na estrada é problema, por perda de capacidade de carga, devido ao peso das baterias e ao tempo para abastecimento.

Marco Marini, diretor superintendente da ABB Eletrificação do Brasil, fornecedora da rede de recarga ultrarrápida da EDP, afirma esperar que “dobre no próximo ano” o mercado de carregadores elétricos, sem citar o total de equipamentos hoje. 

Principal fornecedora de carregadores rápidos de eletropostos de rodovias, a ABB tem equipamentos utilizados por diversas empresas de energia, como a CPFL (primeira eletrovia do país, nas rodovias Bandeirantes e Anhanguera), a Copel (730 km de eletrovia, de Porto de Paranaguá a Foz do Iguaçu, no Paraná) e a EDP, em sua rede de recarga rápida e ultrarrápida.

“A infraestrutura não vem mais a reboque da venda de carros elétricos”, diz Renato Povia, gerente de inovação e transformação da CPFL Energia. Ele acredita que não haverá dificuldade de abastecimento para os carros elétricos que estão vindo. 

Entre os projetos aprovados pela Aneel está um da CPFL, que pretende desenvolver novo conceito de estação de recarga, com painel solar para geração de energia e bateria acoplada, o que reduz a exigência extra sobre a rede elétrica e pode facilitar a instalação de eletropostos. 

Outra proposta aprovada é a eletrificação de metade da frota operacional da empresa em Indaiatuba, para permitir a comparação entre a operação de caminhões movidos a combustível e a dos elétricos. 

Mais difícil que saber o número de veículos elétricos em circulação é descobrir o total de postos de recarga. Segundo o aplicativo Plugshare, que tem seus números usados como estimativa aproximada por entidades como a ABVE, são cerca de 200 espalhados pelo Brasil, com grande concentração em São Paulo. A CPFL estima que sejam 270.

Nas áreas urbanas, há locais que oferecem recarga de graça, como supermercados e estacionamentos de shoppings.

A startup Zletric anunciou a instalação de 50 estações de recarga em estacionamentos de Porto Alegre (RS) e Florianópolis (SC), e pretende implantar mais 400 em 2020. A empresa também fornece redes de carregadores para residências e empresas.

Algumas construtoras instalam pontos de recarga nas vagas de garagem de novos prédios. Também é possível fazer o abastecimento de eletricidade em casa, mas o processo é lento —normalmente leva em torno de oito horas. 

Uma alternativa é instalar carregadores rápidos, que reduzem à metade o tempo de abastecimento. Há produtos a partir de R$ 5.500.

Em cada posto previsto pela EDP para as estradas paulistas haverá uma estação ultrarrápida (capaz de reabastecer 80% da bateria de um carro entre 25 e 30 minutos) e uma semirrápida, podendo abastecer três carros ao mesmo tempo.

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