Descrição de chapéu 7º Fórum A Saúde do Brasil

Erros de planejamento prejudicam o desempenho de hospitais de campanha

Avaliação aponta que certas estruturas foram criadas tardiamente e usadas de modo inadequado

Hospital de campanha montado no ginásio de esportes do Centro Educacional e Esportivo Edson Arantes do Nascimento - Pelezão, na Lapa, zona oeste de São Paulo

Hospital de campanha montado no ginásio de esportes do Centro Educacional e Esportivo Edson Arantes do Nascimento - Pelezão, na Lapa, zona oeste de São Paulo Eduardo Anizelli/ Folhapress

Iara Biderman
São Paulo

Falta de planejamento e uso inadequado são os principais problemas dos hospitais de campanha implementados no Brasil para combater a pandemia de Covid-19, segundo pesquisadores e profissionais de saúde pública.

Desde o início da quarentena, pelo menos 70 desses hospitais foram inaugurados pelo país, de acordo com dados de 23 secretarias estaduais de saúde —Amapá, Mato Grosso do Sul e Pernambuco não responderam até o fechamento desta edição. Os dados de São Paulo são apenas da Grande São Paulo.

“A maioria foi implementada às pressas, sem planejamento e, muitas vezes, tarde demais”, diz Jessem Orellana, epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz em Manaus.

Na capital do Amazonas, uma das mais atingidas pela pandemia, um hospital de campanha foi inaugurado, em 12 de abril, com 21 leitos, 18 deles de UTI. Segundo Orellana, além de aberto tardiamente, o erro estratégico foi destinar o local a pacientes graves.

“A experiência internacional mostra que esses hospitais são úteis para isolar infectados. Aqui foi distorcido: os pacientes chegavam em estado grave. O que poderia ser um local para conter a disseminação da Covid virou um morredouro de pessoas”, diz.

Da forma com que foram implementadas, essas estruturas caras e difíceis de manejar não valeram a pena, segundo o epidemiologista. “Não temos dados de quanto foi investido e quantas vidas salvou”, afirma.

O hospital de campanha de Manaus já foi desativado, embora os índices de internação na rede hospitalar continuem altos: cerca de 130 por dia, de acordo com Orellana.

“Num momento de crescimento dos casos, a estrutura pode ser necessária para isolamento e para pacientes que não podem ficar em casa, mas hospital de campanha não é UTI. Como o custo de implantação e manutenção é alto, talvez tivesse sido melhor investir no fortalecimento de hospitais existentes”, diz Gulnar Azevedo, presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva).

Carlos Eduardo de Oliveira Lula, presidente do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), considera os hospitais de campanha necessários por serem o meio mais rápido de equipar e dar uma resposta à rede de saúde.

Para ele, a avaliação de desempenho não pode ser feita de maneira geral. “É preciso ver hospital por hospital, região por região”, diz.

No Maranhão, estado onde Oliveira Lula é secretário de Saúde, a prioridade foi estruturar o sistema com meios permanentes. “Desde o começo da pandemia, dizíamos que hospital de campanha era o nosso plano C.”

Já Daniel Soranz, epidemiologista e professor da ENSP/Fiocruz (Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca) afirma que no Rio de Janeiro a estratégia não valeu a pena.

Enquanto hospitais de alta complexidade para cirurgias eletivas permaneceram fechados e poderiam ser adaptados para se tornarem centros de referência em Covid-19, investimentos foram destinados a locais de baixo desempenho.

“O hospital de campanha do Rio Centro, por exemplo, planejado para 500 leitos a um custo de cerca de R$ 100 milhões, teve em média 88 internados e 200 leitos desativados”, diz Soranz.

O baixo desempenho seria previsível por causa dos problemas inerentes a esses hospitais temporários, como estrutura física improvisada, dificuldade de organizar o corpo clínico, acessar prontuários eletrônicos ou manter o fluxo de informações, segundo o epidemiologista.

“No início, a informação foi um problema. A recomendação era que os familiares recebessem boletins diariamente, mas as equipes não conseguiam se organizar para isso, o que gerou muitas reclamações”, diz Azevedo, da Abrasco.

Normalmente, há horários para visitação dos pacientes pelo menos uma vez por dia em toda a rede hospitalar, mas, no caso da Covid-19, as visitas foram proibidas para evitar mais contaminação.
O presidente da Conass diz ter ouvido relatos de problemas na estruturação dos hospitais, como falta de lugar apropriado para o descanso dos profissionais de saúde.

“É hospital de guerra, no Brasil não estamos acostumados com essa situação. Mas a questão não é só trabalhar em um local onde a equipe não está acostumada, é o tempo para estabelecer as condutas para esse tipo de operação”, diz ele.

Para Orellana, como tudo foi feito de forma improvisada, não houve tempo para a capacitação de profissionais. Foi um erro não ter utilizado a experiência acumulada em outras pandemias, como a de dengue, zika ou H1N1, de acordo com Soranz.

As lições aprendidas são a necessidade de fortalecer a atenção primária à saúde e a rede de diagnósticos para evitar contaminação cruzada e organizar o fluxo de entrada no sistema de saúde.

Também é preciso uma coordenação central do Ministério da Saúde, para definir os insumos estratégicos, centralizar o processo de compras e distribuir conforme as necessidades de diferentes regiões. “Na atual pandemia, os Estados começaram a competir por respiradores, testes, proteção individual. Uma coordenação central serve para evitar isso”, diz Soranz.

Descentralização e disputas políticas também dificultam acesso a dados consolidados, como o número de hospitais e leitos ativos. Estas informações foram solicitadas ao Ministério da Saúde, que respondeu, por meio de sua assessoria de imprensa, que os hospitais de campanha são de responsabilidade dos estados.

A falta de informações dificulta o planejamento no caso de uma segunda onda do vírus e a forma como os hospitais estão sendo desmontados.

“Foi feito todo esse investimento em leitos, respiradores para o hospital de campanha na capital, mas os 61 municípios do interior do Amazonas continuam sem um leito de UTI”, afirma Orellana.
A decisão de já desmontar hospitais de campanha deve ser avaliada em cada estado, segundo Oliveira Lula.

“Em algumas regiões houve lotação muito grande da rede. Nesses casos, por cautela e prudência, deve-se aguardar, mesmo com leitos desativados, para que, no caso de uma segunda onda, o sistema de saúde não fique novamente sobrecarregado”, diz ele.

Em outras regiões, o desmonte é justificado, segunda a presidente da Abrasco. “Não dá para manter leitos ociosos para uma segunda onda que não sabemos se e quando vai chegar”, diz Azevedo.

Para ela, o legado dessas estruturas poderia ser a transferência de equipamentos e leitos para os hospitais já estruturados, gerais ou de alta complexidade. “Isso ajuda tanto para atender casos de Covid quanto para a demanda reprimida de internações por outras doenças.”

Para isso, é preciso avaliar se há leitos ociosos na rede de saúde que possam ser utilizados para pacientes de Covid-19 e se é possível montar estruturas permanentes que ficarão como legado pós-pandemia.

“A lição aprendida é encarar o hospital de campanha como a última alternativa e não a primeira, como infelizmente aconteceu em alguns casos”, diz o presidente do Conass.

Além disso, é preciso se preparar para quando a opção for necessária. “Não dá para ignorar agentes infecciosos desconhecidos. É preciso instalar estruturas temporárias antes da fase aguda de epidemias. Sem planejamento, hospital de campanha só serve para enxugar gelo”, diz Orellana.

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