Livros não são produtos feitos para a elite, concordam debatedores

Evento realizado pela Folha na quinta-feira (24) discutiu o perfil do leitor brasileiro

São Paulo

Se não fossem os mais pobres, a queda no número de leitores no Brasil seria ainda maior. Essa é uma das constatações da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, iniciativa do Instituto Pró-Livro e do Itaú Cultural que teve seus resultados divulgados neste mês.

Entre 2015 e 2019, a taxa de pessoas que leram pelo menos um livro, ou parte de um livro, nos três meses anteriores à realização do levantamento caiu de 56% para 52%. Enquanto a queda entre os mais ricos foi de 12%, nas faixas de menor poder aquisitivo (classes C, D e E), a redução ficou abaixo dos 4%.

“Essa ideia de que quem lê no Brasil é apenas a elite e, por isso, não tem problema tributar o livro, não corresponde à realidade”, afirmou João Leiva, diretor da consultoria JLeiva Cultura & Esporte e pesquisador da área cultural, em debate do seminário Impactos da Proposta de Reforma Tributária no Livro e na Leitura.

De acordo com Leiva, conforme a renda vai diminuindo, cai também o acesso a práticas culturais, mas a leitura é a atividade que menos apresenta redução.

Ana Paula Carneiro, coordenadora de leitura da Biblioteca Comunitária Sete de Abril, integrante da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias​, afirmou que há esperança na formação de jovens leitores.
“Nas periferias, vemos leitores que acompanham séries de livros, pedem obras de Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo”, disse Carneiro.

A coordenadora explicou que o acervo é obtido, em geral, por financiamento de empresas, que permitem que a gestão possa escolher os livros que serão comprados, diferentemente dos volumes enviados pelo poder público. “Queremos autonomia, assim como o jovem que chega à biblioteca pode pegar o livro que quiser”, afirmou.

Para Marisa Lajolo, pesquisadora e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, uma leitura sem autonomia de escolha prejudica o desenvolvimento do hábito de ler.

A pesquisadora criticou o programa Conta pra Mim, do Ministério da Educação. Segundo a página da pasta, trata-se de um “programa de estímulo à literacia familiar, ou seja, de leitura pela família para as crianças”.

Os livros disponibilizados pelo projeto em formato físico e digital (áudio e texto) são, em sua maioria, de contos tradicionais e estrangeiros, como “A Bela Adormecida” e “O Soldadinho de Chumbo”.

“É um projeto de inspiração estrangeira, com textos adaptados, escritos por não profissionais e com uma ilustração muito pobre. São textos higienizados. É uma tragédia para situação da leitura escolar no Brasil”, afirmou Lajolo.

Realizado pela Folha, com patrocínio da Abrelivros (Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares), da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), o seminário foi transmitido digitalmente na quinta-feira (24), mas as gravações dos debates estão disponíveis no site do jornal.

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