Pandemia e investimentos impulsionam empreendedorismo de impacto

Recursos voltados para negócios com critério ESG em 2020 impulsionaram a bola da vez no mundo das startups

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Andrea Vialli
São Paulo

Bola da vez no mundo das startups, o empreendedorismo de impacto foi impulsionado em 2020 pelo crescimento, nos investimentos, do critério ESG —que analisa fatores ambientais, sociais e de governança de um negócio.

Empreendimento de impacto é o que busca dar, além de lucro, solução a um desafio social ou ambiental e transformar a sociedade via inovação.

De acordo com a Pipe Social, consultoria que mapeia esse tipo de empreendedorismo no país, tecnologias verdes, cidadania, educação, saúde, finanças e cidades sustentáveis são as principais vertentes.

Compõem o leque de financiadores dessas iniciativas os fundos especializados em negócios de impacto, capital de risco, ‘‘family offices’’ (escritórios que cuidam do patrimônio de famílias ricas), investidores-anjo e filantrópicos.

Primeira gestora brasileira a se dedicar ao tema, a Vox Capital já captou mais de R$ 134 milhões em dois fundos para investir em negócios de impacto. Foi a única do continente a receber destaque no relatório global de investimento de impacto, o GIIN (Global Impact Investing Network). No mundo, esse mercado movimenta US$ 715 bilhões, com taxa média de crescimento de 20% desde 2014.

Daniel Izzo, cofundador e CEO da gestora, diz que o interesse na modalidade cresce tanto do lado de investidores quanto de empreendedores. “O nível de atenção ao tema é inédito. Hoje vemos empreendedores de impacto idealistas, motivados por propósito, mas também pragmáticos, buscando resultados”.

Com patrimônio de R$ 50 milhões e taxa interna de retorno de 52,3%, o segundo fundo de impacto criado pela Vox em 2016 foi considerado um dos 25% mais rentáveis fundos de investimento em startups do mundo.

O dinheiro vem de órgãos de desenvolvimento, ‘‘family offices’’, filantropos e, agora, investidores institucionais, atraídos pelo movimento ESG.

Ao investir, a Vox se torna sócia do empreendedor de impacto e passa a auxiliar a empresa na gestão.

A startup Wecancer, fundada em 2017 no Rio, é um dos negócios do portfólio. O biólogo César Filho e o administrador Lorenzo Cartolano, que têm em comum a experiência trágica de perder suas mães para o câncer, criaram uma plataforma que faz monitoramento remoto de pacientes com a doença.

A ideia inicial era a extensão do cuidado humanizado para além dos hospitais. Os pacientes têm acesso, por meio de aplicativo, a orientação profissional sobre como lidar com efeitos colaterais da terapia, além de apoio psicológico e nutricional, evitando idas aos hospitais. O atendimento é prestado por especialistas, sem o uso de chatbots.

Na pandemia de Covid-19, o atendimento remoto se revelou uma necessidade para o paciente com câncer. “Com a priorização do combate à epidemia, milhares de consultas, exames e cirurgias deixaram de ser realizados. Ficou clara a importância da telemedicina, e os hospitais passaram a nos procurar”, diz César Filho.

Em 12 meses, a base de cadastrados saltou de 700 para 1.800, com nove contratos ativos com hospitais, clínicas e indústria farmacêutica. Prestam atendimento aos pacientes 25 profissionais, liderados pelo diretor médico Thiago Jorge, coordenador do programa de inovação em oncologia da Beneficência Portuguesa.

A startup, que começou com capital de R$ 60 mil, foi incubada no centro de inovação do hospital Albert Einstein, onde recebeu o primeiro aporte. Com a nova rodada de investimentos, vai aumentar os recursos em P&D, dar escala aos atendimentos e apoiar o setor público com sua base de dados, para gerar maior impacto.

Empresas de tecnologia que possam dar escala a soluções em energia limpa, saúde e educação estão no foco da Positive Ventures. A gestora, com escritórios em São Paulo e Mountain View, no Vale do Silício, já havia investido em negócios com esse perfil. Em março, captou R$ 55 milhões para seu primeiro fundo.

De acordo com Andrea Oliveira, cofundadora, o objetivo é investir até R$ 5 milhões em negócios inovadores, com vertente tecnológica e capacidade de gerar impacto positivo.

Pessoas das gerações millennial (nascidos de 1980 a 1990) e Z (a partir de 1995) entendem que consumir e investir são atos políticos, e buscam empresas alinhadas a isso, diz Fábio Kestenbaum, presidente do comitê de investimento da Positive Ventures. “Há 20 anos, as empresas de petróleo tinham o maior valor nas bolsas; hoje são as de tecnologia, e, nos próximos anos, negócios de impacto positivo serão os mais valiosos”, afirma.

Negócios de impacto também surgem em periferias e comunidades pobres. Assim nasceu em 2014 o Saladorama, que entrega refeições em favelas. O empreendedor Hamilton Silva, formado em administração, não se conformava com a pouca oferta de comida saudável nas comunidades.

Com R$ 220 de investimento inicial, recrutou cozinheiras e entregadores e montou o negócio no morro Vital Brasil, em Niterói (RJ). Depois expandiu para São Paulo e Recife.

O diferencial era um cardápio saudável a preços acessíveis —salada por R$7 e refeição com sobremesa por R$ 20.

Mas, em 2020, a pandemia atingiu em cheio o negócio: os restaurantes não puderam abrir por causa das restrições e os serviços tradicionais de delivery não entravam nas favelas, o que limitou as entregas.

A solução foi mudar o negócio: as refeições passaram a ser preparadas em dois restaurantes no formato “dark kitchen’’ —em que as cozinheiras, sempre da comunidade, preparam as refeições para o Saladorama e outros restaurantes, reduzindo custos. A alternativa para o delivery foi criar o Silva Entregas, recrutando jovens das próprias comunidades para fazer entregas de bicicleta.

O modelo chamou a atenção dos empresários André Szajman, cuja família fundou a VR, e Eduardo Mufarej, ex-sócio da gestora de fundos Tarpon. Interessados em montar portfólio de investimentos em negócios de impacto na periferias, em março fecharam negócio com o Saladorama.

O valor do investimento não foi revelado, mas vai ajudar a empresa a escalar —a ideia é saltar de duas para sete cozinhas e formar rede de distribuição para atender mais de 100 comunidades. “Meu time é 100% favela, são muitas vidas impactadas. Queria mostrar que alimentação saudável não é coisa de rico. Pela primeira vez, nos sentimos uma grande empresa, com sócios e planos para o futuro’’, diz Silva.

Szajman, que já empreendeu em várias frentes e faz parte do conselho de administração da VR, passou a mapear negócios de impacto que dialogassem com a realidade das periferias e percebeu que a grande lacuna é acesso a crédito. “Queremos contribuir para o avanço do empreendedorismo de impacto, e o filtro será o CEP, terá de ser de comunidade ou periferia”, diz.

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