Pesquisador critica fetiche pelo novo e o 'discurso ilusório' do Vale do Silício

Em entrevista à Folha, Lee Vinsel argumeta que inovação nem sempre é positiva, já que pode criar expectativas irreais

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São Paulo

‘Mova-se rápido e quebre as coisas”. O mote da gigante de tecnologia Facebook resume o tom que dita a conversa sobre inovação hoje: é importante ser disruptivo. A hipervalorização dessa abordagem, comum ao modelo de startups, porém, nem sempre produz inovação de fato e pode prejudicar setores da economia e profissionais que não se pautam pela ruptura para medir o sucesso.

Essa é a leitura que faz Lee Vinsel, historiador especializado em tecnologia, no livro “The Innovation Delusion: How Our Obsession with the New Has Disrupted the Work That Matters Most” (“A ilusão da inovação: como nossa obsessão pelo novo corrompeu o trabalho que mais importa”, em tradução livre), publicado em 2020 nos Estados Unidos.

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Lee Vinsel, professor assistente de Estudos de Ciência e Tecnologia no Stevens Institute of Technology - Leslie King/Virginia Tech

Vinsel argumenta que é importante distinguir entre inovação real e o discurso sobre inovação —marcados pelo léxico e por valores da indústria da tecnologia que incluem destruição criativa, velocidade e uma mente brilhante por trás das novidades . Para o pesquisador, a inovação nem sempre é positiva, já que pode destruir empregos e criar expectativas irreais.

Como distinguir inovação de verdade de ilusão de inovação? Existe a diferença do que chamo no livro de inovação de fato e o discurso da inovação. O primeiro seria a introdução de novos métodos, produtos e tecnologias na sociedade. O discurso de inovação, por outro lado, é a forma como falamos e pensamos sobre essas mudanças. Quando pensamos na história da palavra inovação, ela não era tão usada antes da Segunda Guerra e os anos 1960.

Como esse discurso de inovação se tornou dominante na vida cotidiana? Parte da minha teoria sobre o assunto é que o discurso sobre disrupção é um produto dos anos 1990. Acredito que essa forma de falar ascendeu junto com a internet. Existem áreas de disrupção clássica que vieram com a internet, como o streaming, que acabou com as grandes redes de locação de filmes. Houve uma fase em que se pensava que todos os aspectos da vida seriam alterados pela internet. E é um processo ligado ao Vale do Silício, justamente porque são pessoas interessadas em usar a internet para quebrar uma ou outra indústria. Mas hoje já vimos que nem todas podem sofrer esse processo. É difícil pensar na disrupção via aplicativo da indústria de aço e de biocombustível. Houve muito hype envolvido nesse discurso. A geração constante de novidades em métodos e produtos não se aplica a todos os campos de produção.

No livro você menciona a importância da manutenção e do cuidado, setores importantes, mas desvalorizados, caso dos serviços de enfermagem, cuidado com idosos, reparos em estruturas físicas. Como a pandemia impactou as percepções sobre os trabalhos de cuidado e manutenção?A pandemia trouxe à tona a importância dos trabalhos essenciais. O discurso nos Estados Unidos é a favor dos trabalhadores essenciais. Porém, não há conversas sobre mudanças estruturais capazes de melhorar a vida dessas pessoas, e muitos desses trabalhos são mal pagos. Existe um impacto maior disso nas mulheres e minorias étnicas. É um problema profundamente conectado com a desigualdade. Quando falamos em cuidado, estamos falando em mulheres, especialmente pertencentes a minorias. Seria possível usar o discurso dos trabalhadores essenciais para discutir essas desigualdades.

Empresas de tecnologia não têm interesse em investir em manutenção? É um desinteresse movido por razões econômicas ou ligado à ideia de manter inovações em curso? As empresas não apenas não estão interessadas em manutenção, como fecham as iniciativas que aparecem. Com certeza isso é movido por lucro, mas em um nível mais profundo é uma questão cultural. Nós nos tornamos uma sociedade ‘‘throw-away’’ (do desperdício). Existe uma conspiração entre consumidores e as grandes empresas que sabotam o reparo e a manutenção. Consumidores não querem se incomodar com o reparo, preferem comprar um item novo.

Como é construída a relação entre as ocupações ligadas a cuidados e as características sociais desses trabalhadores —principalmente mulheres? O trabalho é desvalorizado por causa do grupo que o realiza ou os grupos que o realizam têm acesso a ele por já ser culturalmente desvalorizado? Existe uma hierarquia de status de trabalho e, a partir disso, criamos ideias de quais tipos de pessoas realizam cada tipo de trabalho.

Existe um discurso da manutenção da mesma forma que existe um discurso da inovação? No livro, decidimos não fazer uma lista de recomendações de políticas para manutenção. Trabalhamos com níveis diferentes: nacional, de organizações e individual. Fazer com que líderes de organizações pensem mais a longo prazo, respeitem mais os responsáveis por manutenção. Precisamos de melhorias na infraestrutura e na manutenção dela, precisamos de mudanças de legislação que encorajem organizações a pensar no longo prazo. Existem estruturas hoje que nos fazem pensar em crescimento e lucro. Precisamos do pensamento a longo prazo.

O discurso de inovação, no livro, é focado no gênio, no indivíduo que tem sozinho novas ideias. É uma figura nova? Mesmo no início do século 20 era possível identificar alguns CEOs carismáticos, como Henry Ford. Mas após a Segunda Guerra Mundial, que é quando a obsessão com crescimento emerge, companhias estão sempre procurando aquela novidade que vai colocá-los na frente de todo mundo. Existe um sistema de recompensa que incentiva esse comportamento. Mas existe uma performance do inovador, e se forma uma estrutura de trabalho na qual pessoas precisam se apresentar dessa forma. Tem até um visual, um código de conduta.

Você diz que a relação entre inovação e crescimento não é quantificável e que talvez não deveríamos incentivar tanto o crescimento. Pode aprofundar essa análise? O avanço tecnológico é ligado ao crescimento econômico. Mas, embora falemos cada vez mais em inovação, não é verdade que estejamos inovando cada vez mais. Talvez seja até possível falar em redução da inovação desde os anos 1970. Existe uma desconexão entre o discurso e a coisa em si, mesmo em negócios que querem ser grandes inovadores. Só o discurso não vai levá-los à inovação.

Na política, é mais importante inaugurar projetos do que fazer manutenção dos antigos? Vivemos uma cultura de cortar o laço: inauguramos estradas, pontes. É fácil receber crédito fazendo coisas novas, e não é tão fácil receber crédito por manter o bom funcionamento. É um incentivo ao pensamento a curto prazo.

Existe um descompasso entre a forma como o discurso da inovação aparece na educação e as funções que os jovens de fato vão realizar na vida profissional? Quando olhamos para disciplinas STEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemática), tudo ali é voltado a inovação. Estudantes de engenharia fazem competições de robôs. Essa abordagem pode ser prejudicial para a autoestima dos jovens, pois esse não é o tipo de trabalho que eles vão fazer quando se formarem. Vemos muito burnout nesses campos, não surpreende que esses jovens fiquem deprimidos. Precisamos de uma representação mais fiel do tipo de trabalho que existe. Além disso, a figura do inovador é excludente para grupos como mulheres e minorias raciais. Se apostássemos nas figuras do cuidador, do provedor, em detrimento do inovador seria mais apelativo. É o cuidado com o mundo. Talvez não seja tão sexy quanto a figura do inovador, mas é muito importante.

De fato, numericamente nem todos podem ser líderes inovadores. Mas o discurso do que é desejável profissionalmente é voltado para a inovação. Com certeza. É matematicamente impossível que todos os estudantes em uma sala sejam CEOs. Ignorar que os trabalhos são majoritariamente de manutenção é a ilusão de inovação da qual falo no livro. É ignorar o lugar de onde estamos falando, ignorar o mundo ao redor. Temos que lidar com desigualdade, mudança climática. E não vamos conseguir sem olhar para as coisas pequenas. Por exemplo, se uma estrada está se deteriorando, se vamos envelhecer com conforto... Precisamos colocar os pés no chão.


Raio-x

Lee Vinsel, 41
Professor da universidade Virginia Tech, nos EUA, onde leciona sobre sociedade, ciência e tecnologia. Fundou o grupo The Maintainers (Os mantenedores), dedicado à pesquisa sobre manutenção e trabalho cotidiano com tecnologia. É autor de “Moving Violations” (Johns Hopkins University Press, 2019) e “The Innovation Delusion’’ (Currency, 2020), este com Andrew L. Russell.

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