Descrição de chapéu ESG

Sem certificação de boas práticas, exportador pode até perder financiamento

Maiores empresas do mundo já divulgam seus resultados em questões de sustentabilidade

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Belo Horizonte

Grandes exportadores brasileiros vêm sofrendo pressão de clientes estrangeiros, acionistas e instituições financeiras para serem transparentes sobre os danos ambientais e sociais que suas operações podem causar.

“Em um momento tão difícil para a imagem do país no exterior, a transparência deixa de ser um diferencial e passa a ser obrigatória. Se você não a adotar, não vai se manter no mercado ou entrar em alguns deles”, diz Paulo Pianez, diretor de sustentabilidade da Marfrig, uma das gigantes brasileiras do agronegócio.

Um estudo da consultoria KPMG de 2020 mostra que 96% das 250 maiores empresas do mundo divulgam seus resultados em questões de sustentabilidade. Entre as cem empresas de maior receita no Brasil, o índice é de 85%.

A preocupação é acentuada para quem atua na União Europeia, afirma Renata Amaral, advogada e sócia do escritório Trench Rossi Watanabe. Norma do bloco determina que os países-membros adotem legislação para obrigar alguns tipos de empresas a informar como lidam com questões ambientais e sociais.

As regras se aplicam às companhias constituídas na União Europeia e que satisfazem certos requisitos. “Empresas constituídas no Brasil e que exportam para lá não têm a obrigação de segui-las, mas sofrem pressão para que o façam. Cada país do bloco é livre para criar suas regras específicas, e nem todos o fizeram”, declara a advogada.

Para competir com empresas estrangeiras, as exportadoras brasileiras se viram compelidas a buscar certificações conferidas por organizações que atestem boas práticas ambientais, sociais e de governança —conhecidas pela sigla ESG.

“Uma coisa é eu sentir algum tipo de pressão do mercado financeiro, como acontecia antes. Outra é um banco negar financiamento porque não tenho uma política forte de ESG”, diz Renata Amaral.

A Marfrig, por exemplo, publica anualmente um relatório de sustentabilidade que segue as diretrizes da GRI (Global Reporting Initiative), entidade internacional cujos padrões de divulgação de informações de ESG são os mais praticados e aceitos.

As regras dispõem sobre como as empresas devem prestar contas do impacto de suas atividades em questões como combate à corrupção, preservação do ambiente, segurança do trabalho e representatividade nos cargos de liderança.

A demanda por boas práticas de ESG acaba tendo efeito dominó sobre toda a cadeia de produção, afirma a advogada.

“Vimos um caso em que uma companhia brasileira fornecia celulose a uma empresa americana, que por sua vez produzia o papel e o vendia ao governo alemão. A Alemanha exigiu informações sobre a origem da celulose e as condições em que foi produzida.”

Jorge Soto, diretor de desenvolvimento sustentável da petroquímica Braskem, afirma que a empresa buscou uma certificação junto à organização britânica Carbon Trust, além de outras duas diretrizes internacionais, conhecidas pelas siglas IIRC e Sasb.

“Sem essas certificações, a Braskem não teria entrado no mercado. O cliente diria: ‘Se você não consegue demonstrar o que diz, eu não compro’, simples assim”, diz Soto.

Para ele, o tema ESG ainda gera muito receio nas lideranças empresariais brasileiras, mas deveria ser visto como uma oportunidade. “Nossa matriz energética tem 46% de fontes renováveis, a média dos países da OCDE é 11%. Nossa produtividade agrícola é alta. Produzir aqui tem essas vantagens, por isso embarcar no ESG é uma boa ideia.”

O advogado Luciano de Souza, sócio em compliance e relações governamentais do escritório Cescon Barrieu, compartilha dessa visão. “O ambiente empresarial do Brasil se ajusta a novas regras com mais facilidade que o de outros países. Foi o que ocorreu com as demandas por compliance.”

A Natura, uma das empresas brasileiras pioneiras em questões de sustentabilidade, concluiu no início de maio a venda de títulos atrelados a metas como atingir 25% de plástico reciclado pós-consumo em embalagens até 2026.

O valor total da captação foi de US$ 1 bilhão (R$ 5,31 bilhões), um sinal de que, para o mercado financeiro, boas práticas de ESG não são apenas para europeu ver.

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