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Empresas criam ações de bem-estar para reter talentos

Programas incluem estímulo a alimentação saudável, exercícios e flexibilização do horário de trabalho

Carolina Moraes
São Paulo

Com o objetivo de atrair e reter talentos, companhias investem em programas para aumentar a satisfação e melhorar a qualidade de vida dentro do ambiente de trabalho. Esses conceitos, que a nova geração aponta como fundamentais para a carreira, estão relacionados com uma mesma ideia: a de felicidade.

Fernanda Pollisson, gerente de serviços internos da farmacêutica Bristol-Myers Squibb, na sala zen da empresa
Fernanda Pollisson, gerente de serviços internos da farmacêutica Bristol-Myers Squibb, na sala zen da empresa - Keiny Andrade/Folhapress

Segundo Nic Marks, fundador da consultoria Happiness Works, ser feliz no trabalho se resume a “ter uma ótima experiência”. A definição do especialista está na pesquisa Work Happy da empresa de recrutamento Robert Half.

A análise de 2018, que avaliou os níveis de felicidade de mais de 23 mil profissionais em oito países, aponta que as três principais razões que levam os colaboradores a essa “ótima experiência” são orgulho da organização, ser tratado com igualdade e respeito e sentir-se valorizado pelo trabalho que faz.

As soluções que cada empresa encontra para colocar isso em prática são múltiplas. Há aquelas que investem em programas de saúde, com exercícios físicos e meditação. Outras tentam aumentar o diálogo entre os vários níveis de hierarquia para que os funcionários tenham mais autonomia e possibilidade de colocar as ideias em prática.

E por que, afinal, empresas investem dinheiro em programas para deixar seus funcionários felizes? Segundo a pesquisa, colaboradores felizes trabalham melhor.

Trata-se de uma estratégia de negócio, afirma Maria Eduarda Silveira, gerente de recrutamento da Robert Half. Em um mercado mais competitivo, globalizado e cheio de inovação, reter talentos e estimular a criatividade são formas de se destacar.

A empresa farmacêutica Bristol-Myers Squibb (BMS) é uma das que quer criar um ambiente de trabalho feliz. 

Em 2016, a companhia criou o programa Viver Bem, que introduziu alimentação saudável no refeitório da companhia, ginástica laboral e massagem. A empresa também entrega de frutas aos funcionários e disponibiliza alimentos frescos, que podem ser levados para casa, em uma horta no estacionamento. 

Quando o programa foi estabelecido, o quarto andar do escritório foi reformado para abrigar salas de reuniões informais, uma biblioteca comunitária e uma sala para meditação. Os funcionários passaram a poder trabalhar de casa duas vezes por semana e ter flexibilidade nos horários.

Fernanda Pollisson, gerente sênior de serviços internos, entrou na BMS no ano em que a empresa começou a implantar o programa. Ela conta que tinha enxaquecas relacionadas ao estresse do ambiente de trabalho. Com as aulas de meditação, os picos de dor diminuíram, diz. 

O expediente mais flexível também permitiu que a funcionária, que mora a 20 km da sede da empresa, evitasse os horários de picos do trânsito. 

Fernanda começou a almoçar com os filhos pelo menos uma vez na semana, quando trabalha de casa. Nesses dias, as reuniões são realizadas por videoconferência.

A gerente afirma que percebe mudanças na qualidade do trabalho entregue —tanto em seu próprio quanto no de seus funcionários. 

Com os novos espaços de reunião, mais informais, ela avalia que os encontros se tornaram mais produtivos. “Como você está em um ambiente em que se sente confortável até fisicamente, a criatividade fica mais aguçada”, afirma.

Uma outra mudança é que o investimento no bem-estar dos funcionários aumenta o orgulho que eles têm da empresa, afirma a gerente. 

“Eu entendo que a minha qualidade de vida faz parte do valores da Bristol, e eu quero retribuir”, diz.

A permanência de talentos é um dos grandes objetivos —e conquistas— desses programas. André Ferragut, gerente sênior de recrutamento da Hays, afirma que a estratégia ajuda a evitar a perda de mão de obra qualificada. 

O gerente de planejamento financeiro da divisão de lácteos e base vegetal da Danone, Fábio Kanashiro, é um desses casos de funcionário que faz carreira em uma companhia. 

Fabio Kanashiro, gerente de planejamento financeiro, na sede da Danone, em São Paulo
Fabio Kanashiro, gerente de planejamento financeiro, na sede da Danone, em São Paulo - Keiny Andrade/Folhapress

Ele entrou como trainee da empresa há 15 anos. Nesse período, a Danone criou programas de bem-estar, facilitou a comunicação entre os vários níveis de hierarquia e buscou equilibrar vida pessoal e profissional com extensão de licença maternidade e paternidade, por exemplo. 

“Antes, a gente tinha um pouco mais de dificuldade na aprovação de uma determinada ideia. Era preciso, primeiro, aprovar em um comitê. Depois disso, subia à diretoria e, então, para a equipe global. Hoje, o processo é muito mais ágil”, afirma. 

O primeiro impacto dos programas de bem-estar da marca foi o aumento do engajamento dos funcionários, afirma o diretor de recursos humanos, sustentabilidade e comunicação da Danone, André Rapoport. A última medição, feita no ano passado, mostrou um nível de 88% de satisfação dos funcionários.

“O propósito da companhia estar bem alinhado com o propósito que eu tenho como pessoa é fundamental para eu sair de casa todos os dias e vir aqui”, afirma Kanashiro, que lista a preocupação com uma boa alimentação como um dos valores que ele tem em comum com a empresa.

Além do aumento de satisfação, a Unilever também notou queda no absenteísmo à medida que os programas de apoio aos funcionários foram se consolidando, afirma Luciana Paganato, vice-presidente de recursos humanos da marca.

A empresa é uma das pioneiras na área e implementou os primeiros conceitos no começo dos anos 1990.

Em 2015, a companhia estruturou as iniciativas com o programa chamado Wellbeing, que engloba, por exemplo, apoio psicológico, financeiro e jurídico. Ele também ajuda os colaboradores a identificar os gatilhos geradores de estresse e ansiedade e técnicas para combatê-los.

Políticas de felicidade para o clima organizacional, contudo, podem gerar frustração nos funcionários, alerta Vanessa Cepellos, professora do mestrado em competitividade em recursos humanos da Fundação Getulio Vargas. 

Isso porque demandas mais objetivas e burocráticas, que não passam necessariamente pela felicidade, também permeiam o trabalho. 

A palavra da vez para implementar esses programas é coerência, afirma a professora. Para isso, é preciso que os valores no discurso da empresa estejam alinhados com os benefícios que ela oferece e não criem expectativas falsas no ambiente de trabalho.

Escultura em arame de Simone Grecco
Escultura em arame de Simone Grecco - Eduardo Knapp/Folhapress

Pesquisa mostra perfil dos profissionais mais satisfeitos

Consultoria Robert Half entrevistou mais de 23 mil pessoas em 8 países

Campo de atuação
Marketing e setor criativo

Cargo 
Executivo sênior

Tempo de empresa
Menos de um ano e entre seis e dez anos de trabalho

Tamanho da empresa
Pequena, com menos de dez funcionários

Idade do profissional
18 a 34 anos

O que traz felicidade no trabalho?
1º -  orgulho de sua organização
2º - ser tratado com igualdade e respeito
3º - sentir-se valorizado pelo trabalho que faz

  • 19% dos colaboradores pesquisados disseram que felicidade no trabalho é de sua exclusiva responsabilidade
  • 6% afirmaram que a satisfação no ambiente profissional depende do chefe
  • Profissionais que veem valor nas atividades que desenvolvem são 2,6 vezes mais propensos a serem felizes do que aqueles que sentem que o que fazem é só um trabalho
  • Já aqueles que se sentem orgulhosos de suas organizações têm 2,8 vezes mais probabilidade de serem felizes no trabalho

Fonte: Os Segredos das Empresas e Colaboradores Mais Felizes, Robert Half, divulgado em 2018

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