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Jovens querem mais que um bom salário no fim do mês

Remuneração ainda pesa na escolha da carreira a seguir, mas aumenta a importância do ambiente e da satisfação

Bruno Fávero
Rio de Janeiro

Um bom salário é um dos aspectos centrais na hora de escolher uma carreira, mas nos últimos anos a remuneração tem disputado espaço com outros fatores de atração para o jovem, como tempo livre, ambiente de trabalho acolhedor e oportunidade de fazer o que gosta.

“A expectativa dos jovens é que a jornada de trabalho seja prazerosa e suas atividades estejam conectadas com seus valores”, afirma Danilca Galdini, que é diretora de tendências da consultoria de seleção Cia de Talento.

A gerente de marketing Christiane Pinto, 28, diante da sede do Google em São Paulo
A gerente de marketing Christiane Pinto, 28, diante da sede do Google em São Paulo -  Keiny Andrade/Folhapress

Ela diz que parte desses desejos já existia em outras gerações, mas que os jovens de hoje estão colocando isso como prioridade. “Fazem escolhas e planejam o futuro em torno desses objetivos”, diz.

Uma pesquisa online feita pela Cia de Talentos apontou que a possibilidade de “fazer o que gosta” é a segunda característica mais desejável em um emprego atrás de “desenvolvimento”. A enquete ouviu 96 mil jovens brasileiros de 17 a 26 anos e foi divulgada em julho.

Outro levantamento, realizado no mês passado pela recrutadora Robert Half com brasileiros a partir de 25 anos, mostrou que 19% dos que procuram emprego e 14% dos já contratados elencam “valores e propósito da empresa” como aspectos mais importantes depois do salário para escolher uma vaga. 

Essa busca por um trabalho gratificante levou Gabriel Liguori, 30, à carreira de pesquisador na área de medicina cardiovascular. A inspiração veio ainda na infância, quando tinha que frequentar o Incor (Instituto do Coração), em São Paulo, para tratar um problema cardíaco congênito. “O hospital, os aparelhos, a ciência por trás da consulta médica me despertavam interesse.”

Entrou no curso de medicina da USP e, em seguida, iniciou um doutorado. Em 2017, como parte de sua pesquisa, Liguori entrou para uma equipe do Incor que tenta criar um coração artificial até 2030. 

Já registrou sua primeira invenção: um gel à base de células-tronco que poderá ser usado para fabricação do órgão. A descoberta deu origem à startup de biotecnologia Tissue Labs, fundada por ele neste ano.

“Foi na pesquisa que eu encontrei uma forma de ajudar ainda mais pessoas do que sendo cirurgião”, diz.

No mundo corporativo, poucos setores conseguiram se adaptar melhor às exigências dos jovens que o de tecnologia. Quatro dos dez empregos preferidos pelos millennials (nascidos a partir de 1980) eram nessa área, mostrou pesquisa divulgada em 2016 pelo instituto Gallup nos EUA. 

A força desse segmento vem, sim, dos salários altos, mas também da sua associação com inovação, da flexibilidade na rotina de trabalho e da construção de uma marca atraente para empregados, diz Wilma Dal Col, diretora da recrutadora ManpowerGroup.

Para a gerente de marketing do Google, Christiane Silva Pinto, 28, um dos aspectos que pesou para a escolha do seu trabalho foi a oportunidade de integrá-lo à militância no movimento negro.

Ela começou a carreira como estagiária no RH da empresa e, pouco após ser efetivada, ajudou a criar em 2014 o AfroGooglers, núcleo de funcionários que discute a questão racial dentro empresa.

Com a iniciativa, conta, passou a dar consultoria sobre diversidade para outros departamentos e se aproximou do marketing, que recorria a ela para avaliar campanhas. Acabou migrando para a área.

“Ter a oportunidade de desenvolver algo relacionado aos meus valores com certeza me dá mais vontade de querer ficar”, diz Christiane.

Achar a carreira que dá mais satisfação não é processo simples. Dal Col, da ManpowerGroup, recomenda  ao candidato começar a busca com três perguntas: o que no trabalho me traz satisfação?; quais são meus pontos fortes?; quais são minhas dificuldades?

“Daí, a pessoa pode olhar para o mercado e ver onde pode contribuir mais. Claro, fazer isso não é tão fácil quanto falar”, afirma.

Escultura em arame da artista Simone Grecco
Escultura em arame da artista Simone Grecco - Eduardo Knapp/Folhapress
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