Como sobreviver à quarentena em um microapartamento

Truques de decoração ajudam a enganar o cérebro e reduzir a sensação de confinamento

São Paulo

Nesta quarentena, quem mora em um microapartamento pode usar truques de decoração para enganar o cérebro e aliviar a sensação de ficar confinado praticamente 24 horas por dia.

“A gente se sente preso. Não tem espaço nem para fazer um alongamento”, diz a corretora de imóveis Holanda Magalhães, 62, que vive com o marido e a filha em um apartamento de 48 m², na Mooca, zona leste de São Paulo.

Em isolamento desde março, a família só sai de casa para comprar comida. “Aqui, não temos varanda nem bate sol. Parece que você está sufocando ”, diz ela, cujo escritório se tornou a mesa de jantar.

“A saúde mental sofre muito, porque o ser humano precisa da sensação de liberdade”, diz o psiquiatra Rodrigo Grassi, do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul.

Segundo ele, o que pode trazer algum conforto para o morador de cubículos é buscar sempre transformar o ambiente, para criar novos estímulos, como se ele estivesse trocando de espaço.

É possível fazer isso sem gastar nada, apenas remanejando peças, diz a organizadora pessoal Carol Rosa. Por exemplo, dá para mudar a cor do sofá forrando-o com uma manta —o que ainda ajuda na limpeza, já que o móvel está sendo mais usado na quarentena.

Mas o mais importante, segundo Grassi, é dar diferentes configurações ao ambiente ao longo do dia. “Não deve ser um espaço híbrido, onde está o trabalho, o descanso e a alimentação o tempo inteiro.”

Nesse sentido, a recomendação é que os profissionais que estão usando a mesa de jantar para o home office retirem o notebook e outros materiais ao fim do expediente. Se não for prático guardar tudo dentro de um armário, é possível usar uma caixa ou um cesto.

Durante o trabalho, deve-se evitar colocar pratos de comida ou outros objetos em cima da mesa. “É preciso fazer uma divisão clara de tarefas para que o cérebro entenda o momento de trabalhar e de descansar”, afirma Priscilla Bencke, especialista em neurociência aplicada à arquitetura.

Para diminuir a sensação de confinamento, é essencial valorizar a iluminação natural, tirando da frente das janelas o que estiver atrapalhando a entrada da luz, diz a arquiteta.

Se o imóvel não tem varanda ou uma janela generosa, vale apostar em uma iluminação artificial que se pareça mais com a luz do sol, evitando as lâmpadas brancas. É interessante investir em luminárias e abajures com luz quente.

A especialista reforça a importância de trazer o verde para dentro do apartamento. Se não der para ter plantas, simular a natureza já ajuda a aumentar a sensação de bem-estar. Isso pode ser feito com quadros de paisagem, revestimentos de madeira, aromas naturais e até uma fonte.

Também ajuda decorar a casa com fotos de viagem, para se lembrar de momentos vividos do lado de fora.

Há ainda truques que dão ao ambiente maior amplitude, como o uso de espelhos e de móveis através dos quais seja possível ver o outro lado, caso de cadeiras com encosto vazado, sugere o designer de interiores Fernando Piva.

A arquiteta Pati Cillo orienta desocupar ao máximo a área de circulação, aproveitando bem as paredes com objetos suspensos e prateleiras —quanto mais estreitas, melhor.

Alivia também deixar mesas e bancadas o mais livre possível, mantendo ali só o necessário, afirma a organizadora pessoal Ingrid Lisboa.

“Este é o momento para avaliar os próprios hábitos e tirar tudo o que não faz mais sentido ter hoje”, diz ela.

Quem não sabe o que fazer com as tralhas pode contratar o serviço de uma empresa de self storage —ou depósito.

Com 16 unidades em São Paulo, a GoodStorage oferece boxes a partir de 1 m². Em média, o valor do aluguel mensal do metro quadrado é R$ 70. Na GuardeAqui, a locação custa a partir de R$ 99 por mês. Há 25 unidades, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, em Minas Gerais e São Paulo.

Um box de 2 m² consegue acomodar objetos de uma área original de 10 a 20 m².

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