Presidente da Microsoft alerta para consequências da tecnologia

Para Satya Nadella, segurança e transparência são necessários para ter confiança do público

Raphael Hernandes
São Paulo

Em um mundo em franca revolução digital, em particular com a expansão de tecnologias de IA (inteligência artificial), é necessário transparência, segurança e compromisso com privacidade para garantir a confiança do público —algo que precisa ser conquistado dia após dia.

A avaliação é de Satya Nadella, presidente-executivo da Microsoft, feita nesta terça-feira (12) durante a abertura do evento AI+Tour, em São Paulo.

A IA, tema do evento desta terça, se refere ao uso de mecanismos ou programas de computador para tentar imitar a inteligência humana. O reconhecimento facial é uma de suas aplicações, que também incluem, entre outras, carros que se dirigem sozinhos, recomendações de filmes e detecção de doenças.

Satya Nadella, CEO da Microsoft, durante a abertura do evento AI+Tour, em São Paulo
Satya Nadella, CEO da Microsoft, durante a abertura do evento AI+Tour, em São Paulo - Reinaldo Canato/Divulgação

“Precisamos entender as consequências não intencionais do uso de tecnologias conforme elas são usadas mais amplamente”, afirmou o executivo.

Entre as potenciais consequências nefastas do uso da tecnologia está o vazamento de dados pessoais.

Nadella avaliou positivamente a legislação brasileira em relação à garantia de privacidade.

“O Brasil está à frente para garantir a privacidade como direito humano.”

O ex-presidente Michel Temer (MDB) sancionou em 2018 a Lei Geral de Proteção de Dados, que regula como empresas do setor público e privado devem tratar as informações pessoais que coleta dos cidadãos.

O CEO da Microsoft citou como bom exemplo um hospital paulistano que usa sistemas de inteligência artificial ligados às câmeras de segurança para detectar quando um paciente pode cair. Nesses casos, alertas são disparados às equipes de enfermagem para que possam auxiliar rapidamente ou evitar o acidente. “Eles agem a fim de garantir que os dados coletados sejam apenas de eventuais quedas”, ressaltou.

Em relação à segurança, Nadella defendeu uma equivalente da convenção de Genebra (tratados internacionais que definem direitos e deveres de pessoas em tempo de guerra) para a cibersegurança. Ele já havia dado declaração semelhante ao jornal Wall Street Journal, em entrevista publicada no dia 1º.

No último dia 4, Satya Nadella completou cinco anos à frente da gigante de tecnologia. Sob o comando do indiano, a empresa voltou a ser a mais valiosa do mundo, posto que havia ocupado pela última vez em 2002. Depois do retorno, foi superada pela Amazon e a briga pelo topo continua, com Apple se juntando ao bolo.

A Microsoft ficou atrás de concorrentes diretos, como Google, Apple e Facebook, no mercado de dispositivos móveis desde a compra frustrada da Nokia, em 2013, e a tentativa de fazer vingar o um telefone Windows, que teve sua última versão lançada em outubro de 2017 e com suporte até o fim deste ano. A machadada na investida sobre celulares veio com Nadella à frente da empresa.

Com isso, a Microsoft passou a correr por fora no mercado que é um dos grandes pivôs da coleta massiva de dados pessoais —e da polêmica em torno disso.

Apple e Google produzem aparelhos e sistemas operacionais (iOS e Android, respectivamente) que passam o dia todo com os usuários, produzindo dados. Facebook possui um grande rol de aplicativos dentro dos dispositivos (a própria rede social, Instagram e WhatsApp são alguns), também coletando informações. Esse conteúdo pode ser usado para ajudar a desenvolver IA.

Nesse campo da tecnologia, a Microsoft já vinha encampando um tratamento responsável da área e maior regulamentação, em particular em relação ao reconhecimento facial.

O presidente da empresa, Brad Smith, publicou artigos no ano passado defendendo a regulamentação governamental e de medidas responsáveis do setor em relação ao reconhecimento facial.

“É importante que os governos comecem a adotar leis para regulamentar essa tecnologia [reconhecimento facial] em 2019”, escreveu em dezembro. “Se não agirmos, corremos o risco de acordar daqui a cinco anos para descobrir que os serviços de reconhecimento facial se espalharam de formas que exacerbam os problemas da sociedade.”

Segundo Smith, regras impostas pelo governo seriam importantes para impedir uma “corrida comercial até as últimas consequências” entre as empresas de tecnologia. Ele fez, no entanto, a ressalva de que o setor tem responsabilidade de também criar salvaguardas --e não ficar apenas esperando uma ação do Estado.
 

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