Espírito Santo só reconhece a sua moqueca; o resto é 'peixada'

Sem dendê nem leite de coco, versão capixaba está tanto em botecos como nas mesas mais sofisticadas de Vitória

Vitória

A capital do Espírito Santo, Vitória, às vezes parece uma miniatura do Rio de Janeiro mais sossegada e organizada --e menos quente, o que é de suma importância. 

Já o sotaque e os modos da população têm a pegada mineira. Mas é com o vizinho ao norte, a Bahia, que o estado criou sua grande rixa. Tudo por causa da moqueca.

Os capixabas reclamam para si os, digamos, direitos autorais sobre a verdadeira moqueca, traço identitário forte que une o estado.

"Moqueca é capixaba, o resto é peixada" é uma frase que já estampou outdoors e folhetos turísticos no Espírito Santo.

Uma lei estadual foi feita para não deixar dúvida em relação ao fato de que a moqueca é o prato típico do estado. Outra lei, da cidade de Vitória, estabelece o 30 de setembro como o Dia da Moqueca.

Na versão capixaba, azeite de oliva e urucum substituem o dendê e o leite de coco da receita nordestina. Não há pimentão no prato do Espírito Santo. A base é tomate e cebola. O coentro abunda, não adianta pedir sem, o capixaba ignora. A receita fornecida no site do governo estadual pede dois maços inteiros.

As moquecas baiana e capixaba são servidas de modo parecido: uma panela de barro chega à mesa fumegante. Em Vitória, dá-se primazia às panelas feitas pelas mulheres de Goiabeiras, uma comunidade ao lado do mangue.

A receita clássica do prato do Espírito Santo leva peixe, geralmente badejo, robalo ou cação, com ou sem camarão. Mas há moqueca de polvo, de ostra, de sururu (mexilhão), de siri e de aratu (um tipo de caranguejo do mangue).

Todo morador tem sua moqueca de coração, já que o futebol do estado não é lá aquela maravilha. Verdade seja dita, são todas muito parecidas (e boas) quando o peixe está fresco --e o cozinheiro não tem sério deficit intelectual. 

Difícil visitar Vitória e não provar moqueca, o que não é nada mau. Ela está no cardápio do bar mais fuleiro e do restaurante mais besta.

Uma sugestão é o Papaguth, na parte nobre da cidade, com mesas ao ar livre, salão climatizado e vista da baía de Vitória. Já o bairro Ilha das Caieiras, à margem do canal do mangue, abriga vários estabelecimentos tocados por famílias de pescadores.

Mas a culinária local não se limita ao peixe e ao coentro. A variedade de opções de qualidade em Vitória surpreende.

É na capital do estado que fica um dos melhores restaurantes do país, o Soeta (significa coruja, em italiano). 

O espaço poderia estar em qualquer cidade da Europa, mas está em Vitória, na Praia do Canto. Bom para o Brasil.

A dupla de chefs --a capixaba Barbara Verzola e o equatoriano Pablo Pavón-- se conheceu quando os dois trabalhavam no El Bulli, restaurante catalão que sacudiu a gastronomia mundial com a tal cozinha molecular.

Eles flertam com a vanguarda, mas não viajam na maionese. O cardápio tem entradas como o fideuá (variante da paella) de cogumelos, polvo e tinta de lula (R$ 34). Entre os pratos principais, faz sucesso o espaguete na manteiga defumada (R$ 76,80). Como eles defumam a manteiga, não sei --já tentaram me explicar, inutilmente.

A criatividade da dupla vai longe nas degustações (de R$ 128 a R$ 199). Os menus de Verzola e Pavón usam o que há de melhor no mar e nas hortas do Espírito Santo. Há siri-mole em três texturas, temaki de porco com folha de begônia, bochecha de robalo com molho de moqueca capixaba e ceviche de lagosta com manga e limão-caviar (um cítrico australiano com gominhos esféricos). São banquetes que duram a noite inteira.

Já o restaurante mais concorrido de Vitória é argentino. A churrascaria La Dolina, no bairro Mata da Praia, junta todas as noites um bololô de gente na área de espera. Ninguém reclama. 

Enquanto aguardam, as pessoas bebem coquetéis, comem empanadas e tiram fotos com uma boneca em tamanho de gente da personagem Mafalda. É um dos hits do Instagram capixaba.

A grande sacada do La Dolina é dar um toque de informalidade à parrilla portenha. Todas as carnes vão ao centro da mesa, para compartilhar. Uma boa pedida é o combo Astor Piazzolla (R$ 65): bife ancho ou de chorizo, batatas na manteiga de ervas e pasta de berinjela queimada na brasa.

Mais informais ainda são os botequins. Esqueça a dieta: nada é light nessas biroscas. O Bar do João, considerado o melhor de Vitória, ocupa uma velha residência no bairro de Santa Marta, na zona norte da cidade: dispostas no quintal, as mesas dividem espaço com galinhas. Fazem sucesso o feijão-vermelho com pé de porco (R$ 18) e a farofa com cebola queimada, além do torresmo (R$ 9,50).

No Mistura's Bar, mais conhecido como bar da Lora, as mesas se espalham por um calçadão, sob as copas das castanheiras, no bairro República. É muito frequentado por universitários, pela proximidade com a Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo).

As especialidades da Lora são as carnes na brasa: coxinha de asa de frango (R$ 20) e costela no bafo (R$ 30). 

Outro boteco famoso é o Pezão, no bairro do Jardim da Penha. Lá, o negócio é suar com a rabada acompanhada por batata cozida (R$ 55) e jiló recheado com carne (R$ 5).

Em tempo: o bar tem a reputação de preparar o melhor torresmo (R$ 13) da cidade.

Para quem chega a Vitória com a expectativa de comer moqueca todos os dias, a oferta de torresmo é assombrosa.

Papaguth
Av. Nossa Senhora dos Navegantes, 700, Praça do Papa, Vitória,  tel. (27) 3225-5773. De seg. a sex.: 11h30 às 15h30. Sáb. e dom.: 11h30 às 16h30. papaguth.com.br

Soeta
R. Desembargador Sampaio, 332, Praia do Canto, Vitória, tel. (27) 3026-4433. De ter. a qua.: 19h30 às 22h30. De qui. a sáb.: 19h30 às 23h30. soeta.com.br

La Dolina
Av. Rosendo Serapião de Souza Filho, 696, República, Vitória, tel. (27) 3207-7944. De ter. a sáb.: 18h30 à 0h. Dom.: 12h às 15h30 e 18h30 às 23h. 

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