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Céu límpido e telescópios convidam turista a jornada estelar no Atacama

Região mais seca do mundo é palco de corrida de observatórios profissionais e amadores

Via Láctea vista a partir do Vale da Morte, em San Pedro do Atacama, no Chile

Via Láctea vista a partir do Vale da Morte, em San Pedro do Atacama, no Chile Alberto Ghizzi Panizza/AFP

Rafael Garcia Luciana Coelho
San Pedro do Atacama

Em 2003, quando o engenheiro francês Alain Maury largou o emprego de cientista para criar um observatório astronômico turístico no deserto do Atacama, no norte do Chile, poucas agências e guias turísticos se interessaram.

Como, afinal, vender um passeio para ver o céu, algo que em tese se pode ver de qualquer lugar do mundo? Hoje, porém, a observação de estrelas é uma das atividades que mais movimentam o turismo do Chile.

“Quase fechamos o observatório em 2006, porque não tínhamos muitos clientes e o turismo astronômico era pouco conhecido”, conta. “Mas a partir daquele ano a atividade começou a crescer, e agora recebemos entre 15 mil e 17 mil pessoas anualmente.”

Qualquer turista que desembarcar em San Pedro do Atacama hoje e estiver disposto a pagar 25 mil pesos chilenos (cerca de R$ 140) tem direito a duas horas no S.P.A.C.E, um dos maiores observatórios privados do mundo, montado sob um céu incomparável a 5 km do centro da cidade. 

Em pé, no frio que varia de 0°C a 10°C conforme o mês, o grupo de até 15 pessoas ouve atento a um dos cinco guias da empresa (três deles, astrônomos profissionais) explicar com ajuda de um apontador laser o que se pode ver no céu da noite específica da visita.

O que faz do deserto chileno um paraíso astronômico é a mistura de grande altitude, clima extremamente seco e vastas áreas desabitadas. 

Isso é atestado pela proliferação de instalações científicas no país. Em 2010, o governo chileno estimava que 42% de toda a capacidade observacional profissional da astronomia mundial se concentrava ali. Uma projeção indica que em 2020 o Chile vai concentrar 70% dessa infraestrutura.

Para perceber que o Atacama é um lugar especial, basta se afastar um pouco das áreas povoadas e apagar as luzes de noite. A imponência do rastro luminoso da Via Láctea, a nitidez das Nuvens de Magalhães e a miríade de estrelas salpicadas como pano de fundo daquelas mais brilhantes é uma visão única.

Ter o campo de visão preenchido pela cena é uma experiência memorável, e não se pode traduzir numa fotografia.

Além do espetáculo que é o céu a olho nu, muitas agências oferecem observação por telescópios em que é possível ver planetas com detalhes de suas superfícies, aglomerados de estrelas e nebulosas distantes com seus filamentos. 

Em um dia de sorte, e com um bom guia, vê-se a Estação Espacial Internacional cruzando o céu.

Quando o negócio de Maury começou a decolar e já estava óbvio que o céu atacamenho era um patrimônio a ser explorado, o “astroturismo” desabrochou na região. Na conta do francês, hoje há mais de 30 sítios de observação privados em volta de San Pedro. 

A Astroloa, associação dedicada à atividade, reúne mais de 50 operadoras de turismo.

Nenhum observatório particular ali, porém, se compara ao S.P.A.C.E, que tem em seu pátio dez telescópios com diâmetros de 20 cm a 72 cm. Está agora em montagem um equipamento de 115 cm de diâmetro ao qual Maury se refere como “o maior telescópio turístico da América do Sul”.

Há outras agências de turismo receptivo que oferecem experiências diferentes.

A Lican Tatay organiza um tour para observar constelações segundo a tradição ancestral andina, e não nas constelações clássicas gregas e ocidentais. A Senda Mística anuncia ter um sítio de observação preservado da poluição luminosa e um campo de observação de mais de 90% do domo celeste (ambos a 20 mil pesos chilenos, cerca de R$ 115).

Com tantos operadores, o campo se abre à imaginação. Quem paga 65 mil pesos e não se importa com embasamento factual pode contratar a Atacama X, que leva turistas a locais onde supostamente foram vistos óvnis.

A poluição luminosa vinda da cidade, contudo, ergue um espectro de risco sobre o negócio. Se antes, na borda de San Pedro, encontrava-se boas condições de observação, hoje é preciso se afastar uns 30 quilômetros para alcançar a mesma visibilidade, afirma Maury. 

A Folha esteve no S.P.A.C.E. cinco anos atrás e constatou o quanto o observatório sofreu com mais interferência das luzes da cidade —que hoje tem um ginásio com holofotes.

A Astroloa agora negocia com a prefeitura local a possível substituição ou retirada de parte da iluminação de rua. 

O prazo de adequação previsto em uma lei federal aprovada em 2014 com o objetivo de preservar o céu do Atacama termina neste ano.

Os astrônomos cobram agora que as cidades e mineradoras da região, onde se extrai cobre e onde agora aumenta a exploração de lítio, sigam as restrições com mais rigor.

Para os chilenos, o céu atacamenho é patrimônio que, embora imaterial, não tem par em nenhum lugar do planeta.

Sal, sol e céu fazem viagem parecer interplanetária

Se o céu do Atacama nos leva a uma dimensão onírica, no chão, entre o sal e a areia, rochas de evaporita (formadas por minerais salinos) dão à paisagem do deserto mais seco do mundo a brancura peculiar do Vale da Lua.

Já no vizinho Vale de Marte, os tons vermelhos e terrosos forram o panorama, que ao pôr do sol parece emergir de um filme de Stanley Kubrick.

Para quem faz da agradável San Pedro de Atacama base, inchando as ruelas a ponto de ter quadruplicado a população para 10 mil habitantes em 20 anos, o cenário espacial está a uma trilha a pé ou de bicicleta de distância —percorrível em van ou 4x4 por quem preferir conforto.

A uma ou duas horas de carro, se alcança lagoas altiplânicas, ainda mais elevadas que os 2.400 m da cidadezinha. 

Cercadas de pedras de sal, as águas azuis seduzem o turista a entrar, apenas para segundos depois o corpo entorpecer de frio e, hipnotizado pela beleza do lugar, se deixar flutuar na alta densidade salina.

Há ainda, em outros cantos próximos do deserto, inscrições deixadas por povos pré-colombianos, gêiseres que eclodem ferventes antes do amanhecer e vulcões, picos nevados, desfiladeiros vermelhos e piscinas naturais em um rio cuja água alcança 35°C.

Avistam-se facilmente vicunhas, alpacas, guanacos e lhamas; às vezes viscachas (um roedor aparentado do coelho), raposas, flamingos.

A oferta hoteleira atende a uma amplitude de bolsos e gostos, dos rústicos aos portentosos, com tudo incluído e diárias de US$ 1.000. 

A elasticidade de preços reaparece nas agências de turismo receptivo, que permitem fazer a maioria dos passeios com conforto independentemente do preparo físico, algumas mais cuidadosas nos detalhes e com guias mais bem preparados; outras com o básico a valores menores. 

(Sobressai no custo-benefício a Araya Atacama, que tem como donos o chileno Sebastián e a brasileira Roberta). 

E, para evitar a correria, é recomendável ficar em San Pedro por ao menos cinco dias.

De resto, muita água, chá de coca para a altitude, uma mala que inclua de proteção para o sol a roupas térmicas (nos cumes e madrugadas as temperaturas são negativas) e disposição garantirão uma viagem memorável.


Pacotes

US$ 669 (R$ 2.729)
3 noites no Atacama, na Abreu (abreutur.com.br
Pacote com saídas entre 1° de junho e 15 de dezembro. Hospedagem em quarto duplo, com café da manhã. Inclui passeios e traslados. Sem passagem aérea

R$ 3.506
6 noites no Atacama, na Submarino Viagens ( submarinoviagens.com.br)
Pacote com saída em 26 de setembro. Inclui hospedagem em quarto duplo, sem regime de alimentação. Inclui aéreo a partir de São Paulo

US$ 2.550 
(R$ 10,4 mil)
4 noites no Atacama, no Tierra Hotels (tierrahotels.com)
Pacote com saídas diárias. Hospedagem em quarto duplo no sistema all-inclusive. Inclui passeios e traslados. Sem passagem aérea

US$ 5.704 (R$ 23,2 mil)
5 noites em Santigo e no Atacama, na Maringa Lazer (maringalazer.com.br
Três noites na capital e duas no deserto, com saída em 6 de setembro. Inclui café da manhã, excursões, traslados, seguro-viagem e passagem aérea a partir de São Paulo

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