Descrição de chapéu Financial Times

Devemos proibir o álcool em aeroportos e voos?

Bebida é responsável por boa parte dos incidentes de agressão física, danos materiais e surtos verbais em aviões

Michael Skapinker
Financial Times

Em quase cinco décadas de voos, jamais encontrei um passageiro arruaceiro, um bêbado descontrolado ou mesmo uma pessoa zangada, em viagem de avião.

Parece que tive sorte. Uma pesquisa da revista de turismo britânica Which? Travel constatou que 17% dos passageiros da Ryanair haviam testemunhado embriaguez, gritos ou agressões verbais por parte de outros passageiros nos últimos 12 meses.

Oito por cento dos entrevistados testemunharam um comportamento parecido em voos da Emirates e da Virgin Atlantic. Entrevistados por membros do sindicato Unite, 87% dos tripulantes de aviões de empresas que operam no Reino Unido disseram ter testemunhado exemplos de mau comportamento por parte de passageiros embriagados.

Será um problema primariamente britânico? A Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês) informa que o número de incidentes envolvendo passageiros agressivos cresceu de forma acentuada em todo o mundo. 

Mas em 2017, o último ano para o qual existem dados disponíveis, o número de incidentes perturbadores foi de um em cada 1.053 voos e, nos casos em que incidentes foram registrados, eles costumavam ser surtos verbais que “usualmente podem ser controlados com sucesso pela tripulação, com recurso a treinamentos para controlar situações tensas”.

Os incidentes restantes foram considerados sérios, e envolviam agressão física, danos ao avião ou, em casos mais raros, tentativas de forçar a entrada na cabine de pilotagem.

Não importa se raros ou frequentes, incidentes desse tipo no ar são assustadores. As equipes das companhias de aviação não deveriam ser forçadas a conviver com isso. 

O álcool é a causa de boa parte do problema. Segundo a Iata, seu consumo influenciou 27% dos incidentes registrados, e as autoridades britânicas se referem à questão com frequência. 

Embora as companhias de aviação se queixem de passageiros embriagados, elas servem álcool livremente em alguns voos e lucram com as vendas de bebidas em outros.

O que se pode fazer? As companhias de aviação afirmam que muitos passageiros começam a beber antes de embarcar. 

Uma pesquisa feita pela Alcohol Change UK constatou que um em cinco passageiros britânicos durante viagens de férias começa a beber no aeroporto. 

Os estabelecimentos que vendem álcool nos aeroportos britânicos não estão sujeitos aos requisitos de licenciamento que afetam os pubs, tais como restrições ao oferecimento de descontos e a obrigação de seguir um regulamento compulsório de verificação de idade e obter autorização do governo quanto ao seu horário de funcionamento.

Um documento do Home Office (Departamento do Interior) mostra que a atitude relaxada quanto ao consumo de álcool nos aeroportos britânicos surgiu por conta de uma sensação de embaraço nacional.

Em 1956, o então ministro da aviação Harold Watkinson declarou que os passageiros estrangeiros que passavam pelos aeroportos britânicos viam os horários de funcionamento dos pubs como confusos.

“Podemos perdoá-los se nem sempre compreendem por que não podem comprar uma bebida na hora que preferem”, disse.

Assim, os bares e outros estabelecimentos instalados nos aeroportos foram informados de que poderiam funcionar como quisessem. Hoje, o embaraço acontece na direção oposta, já que gente demais tira vantagem dessa flexibilidade.

O governo britânico está conduzindo um processo de consulta pública sobre impor ou não restrições de horário aos bares instalados em terminais de embarque. Mas, se isso acontecer, e quanto aos “lounges” que servem bebidas alcoólicas de graça?

As companhias de aviação têm o direito de recusar o embarque de passageiros que pareçam embriagados, mas, como observou Somerville Hastings, parlamentar que se opôs à isenção para os bares de aeroportos em 1956, pode demorar para que alguém que estava bebendo mostre sinais disso.

O passageiro parece sóbrio “porque muito pouco álcool foi absorvido no momento do embarque... Mais tarde, ele desenvolve os sintomas de embriaguez e se torna incômodo”, disse Hastings.

Eis uma possível solução: proibir o álcool de vez —nos aeroportos, nos “lounges” e nos voos. Severo demais? Bem, as pessoas achavam a mesma coisa sobre proibir o fumo. A proibição ao consumo de álcool nos aeroportos e aviões não me incomodaria. Mal bebo, e nunca em voo.

Mas sou liberal, embora eu tenha acolhido positivamente a proibição ao fumo em lugares públicos, porque a fumaça se infiltra em toda parte. 

A maioria das pessoas que bebe em voo não incomoda os demais passageiros. Uma proibição completa talvez seja punir severamente demais a todos pelos pecados de apenas alguns. Assim, melhor começar com uma limitação ao consumo de álcool —no aeroporto e no ar— e ver como funciona.

Tradução de Paulo Migliacci

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